Discutir a casa, por suas qualidades de abrigo apropriado ao meio, ou de núcleo de projeção de concepções de vida, é tomá-la sob a ótica da formação da nação e do indivíduo, fundamental para o entendimento do homem. A casa como se vê hoje é fruto de um longo processo de modificação e adaptação dentro das cidades durante os séculos, na qual tanto a relação da casa com a rua como da sociedade com o seu interiores foram primordiais para se chegar ao que se entende hoje como espaço doméstico.
No século XIX o lar criou códigos de comportamento, principalmente para as mulheres, onde a vida doméstica era sinônimo de verdade, conforto e amor. Esses códigos se refletem até hoje em várias culturas onde a casa ainda é vista como espaço da intimidade que só deve ser revelado para poucos.
Segundo Freyre (1936) por longos anos, os objetos para o lar foram de exclusivo apreço das casas ricas de engenho estes, na maioria, exemplares de estéticas importadas principalmente de Paris com o neoclassicismo e o ecletismo e logo depois, dos sobrados das cidades, cabendo às residências mais humildes peças simples sem grandes rebuscamentos.
Historicamente falando, pode-se perceber a importância da formação dos interiores nos primeiros sobrados das cidades. Por muito tempo o sobrado e a rua foram quase inimigos. E a maior luta foi travada em torno da mulher por quem a rua ansiava, mas por quem o sobrado procurou conservar o mais possível reservada. A mulher era de papel fundamental na formação dos lares brasileiros, sendo estas o principal objetivo do mercado de objetos durante muitos anos, e era da mulher o maior tempo de permanência dentro da casa, assim como da arrumação e da disposição dos objetos. O lar por muitos anos foi lugar de supremacia exclusivamente feminina, como afirma Freyre (1936):
“A casa, o tipo de habitação, sabe-se que é uma das influências sociais que atuam mais poderosamente sobre o homem. Sobre o homem em geral; mas, em particular, sobre a mulher, quase sempre mais sedentária ou caseira. Especialmente dentro do sistema patriarcal, inimigo da rua e até da estrada, sempre que se trate de contato da mulher com o estranho. Essa influência exerceu de modo decisivo sobre a família patriarcal no Brasil, a casa-grande de engenho ou fazenda. Corrigiu-lhe certos excessos de privatismo acentuando outros, o casarão assobradado da cidade”
Os sobrados foram os primeiros exemplares no Brasil de cuidado com o mobiliário e com os objetos domésticos como reveladores da vida moderna. Na primeira metade do século XIX, surgiram os sobrados de três, quatros e ate cinco e seis andares. Também se ergueram mucambos-sobrados, isto e, com sótão ou primeiro andar: imitação ainda mais ousada de arquitetura patriarcal européia. Tais construções foram se dissolvendo com as idéias do modernismo urbano inspirados na reforma urbanas acontecidas em Paris e originando aos poucos o tipo de habitação isolada no terreno nas quais se vive hoje.
No contexto da habitação no Brasil, O problema da moradia no final do século XIX é concomitante aos primeiros indícios de segregação espacial das diferentes classes sociais na cidade. Segundo Bonduki (2004), se a expansão da cidade e a concentração de trabalhadores ocasionaram inúmeros problemas, a segregação social do espaço impedia que os diferentes estratos sociais sofressem da mesma maneira os efeitos da crise urbana, garantindo às elites áreas de uso exclusivo, livres da deterioração, além de uma apropriação diferenciada dos investimentos públicos.
Nas habitações menos favorecidas, por muitos anos uma evolução do mucambo dentro das cidades, o modelo das alcovas e dos grandes terraços permaneceu, sendo a casa de um ou dois pavimentos, o modelo mais representativo. Na década de 30, os edifícios de habitação social surgiram construídos pela iniciativa privada estimuladas pelo estado que tentava de melhorar a qualidade da vida urbana e sanitária das cidades destruindo os insalubres cortiços e criando leis de saúde pública e moradia, modificando essa hierarquia das casas, porém de qualidade
fraca em se tratando de coletividade e de integração com a rua já que eram em sua maioria, vilas ou casas operárias, os chamados cortiço-corredor e cortiços-casa de cômodos geminados3.
Ainda Segundo Bonduki (2004), na década de 50 com a influência do modernismo, idéias difundidas por Le Corbusier nas unidades de habitação de Paris, como teto-jardim, pilotis e ruas internas, passaram a estar intimamente vinculadas a habitação que passou a ser produzida pelos Governos. Modificava-se a relação entre o público e o privado, rompendo-se as fronteiras que os separavam e criando-se a noção de que não se habita apenas a casa e sim, um conjunto de equipamentos e serviços coletivos.
Com o advento da arquitetura moderna, começou-se a valorizar a habitação como conquista do homem sobre a natureza e a casa, como ‘sede’ do espaço e base para novas conquistas, numa ação que humanizava a natureza, ampliava o espaço da habitação e se universalizava atingindo o ápice com a urbanização das cidades. Estes aspectos não só se relacionavam com as classes AB, mas também com as classes C, D e E que começavam a partir dessa década a também construir os espaços que habitavam isolados de ajuda governamental e sem cumprir por muitas vezes legislações específicas.
Numa visão arquitetônica, as residências podem variar de acordo com os aspectos culturais de seus grupos e de seus locais, mas obedecem a padrões considerados universais em certas culturas, como a valorização do terraço e da cozinha nas residências brasileiras, ligados diretamente a história da formação e do trabalho no país.
Nas residências da classe média, a permanência do modelo que a sala-praça propiciava dava- se através de uma tipologia particular. Este ambiente seria o centro de interesse das habitações, pois nele se dava a sobreposição de funções, base para a sociabilidade familiar e de amigos. Nele ocorria o café da manhã, o almoço e até o jantar, mas também várias atividades domésticas de serviço podiam se desenvolver nesse ambiente (Lemos, 1999). Na classe C, observou-se um apego muito forte a idéia de habitação unifamiliar4 e de separação
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Modelos construídos no final da década de 30 pela iniciativa privada para aluguel, sendo raros as habitações de baixa renda construídas com dinheiro próprio. (Bonduki, 2004)
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Considera-sehabitação unifamiliar é aquela destinada a uma só família como as casas térreas ou de poucos pavimentos, já a habitação multifamiliar se destina a mais de uma família, como é o caso dos edifícios de
dos espaços ou de espaços híbridos com mais de um uso, a ser detalhado no capítulo 3, assemelhando-se muitas vezes com as disposições das residências do século XIX.
Para Forty (2007), numa visão do design, as idéias sobre o lar variam entre as culturas e entre períodos e as noções do que é apropriado e belo deram forma à arquitetura e ao design de artigos para uso doméstico. O design desses artigos diz às pessoas o que elas devem pensar sobre a casa e como devem comportar-se dentro dela e a idéia de que a decoração doméstica expressava o caráter pessoal foi se difundindo a partir do século XIX até os dias de hoje, aumentando a vontade das pessoas de se esforçar para apresentar uma imagem satisfatória delas mesmas.
Para De Botton (2006) numa visão psicológica, a arquitetura pode ser um reflexo de tristeza ou alegria para cada pessoa. E isto está diretamente ligado a sua história de vida e a sua experiência com lugares e com espaços interiores que tenham marcado profundamente a sua vida, e pouco com o que se chama de “conceito universal de beleza”. Os materiais e formas são belos para cada um se conseguirem transmitir para o íntimo daquela pessoa o que ele legitima como conforto, bem estar e alegria. Em outras palavras, o belo pode ser considerado aquilo que funciona, alegra e atende aos requisitos demandados, tal aspecto de pensamento foi bastante observado nos interiores visitados da pesquisa.
Já segundo Damatta (1985) numa visão social, o espaço se confunde com a própria ordem social de modo que, sem entender a sociedade com suas redes de relações e valores, não se pode interpretar como o espaço é concebido. Nas sociedades industrializadas, muito do que importa para as pessoas está acontecendo atrás de portas fechadas da esfera privada. A casa tem se tornado o campo das relações e da solidão: o ponto de encontro das pessoas com a televisão e a internet, mas também o lugar onde estas se mantém afastadas dos outros. Dentro dessa observação foi fundamental pesquisar também o que é oferecido pelas indústrias da habitação e o que é difundido pelos meios de comunicação dentro dos anseios econômicos emergentes da nova classe média brasileira.
A casa pode ser imaginada em diferentes níveis. Num nível superficial, a casa é conhecida em termos de locação, terreno, decoração e mobiliário – é um lugar que conhecemos
relacionamento que as pessoas têm com os outros no lar ou os tipos de relacionamento que elas gostariam de ter. E mais além, o lar é composto em resposta ao olhar de terceiros, incluindo família, amigos, vizinhos. Mais ainda, o lar é uma representação da identidade cultural e oferece um senso coletivo de segurança e permanência social.
Dentro desses modelos de habitação, a fabricação de produtos diversos que atendem ao mercado dos interiores domésticos é parte do universo da construção social, pois é na residência onde o homem exprime de forma veemente seus valores, gostos, gestos e apropriações do mundo e é de extrema importância que se comece a valorizar essas relações. Relacionar estilos de vida e mobiliário leva a refletir sobre as identidades que são articuladas em torno de significados diversos da cultura material.
O lar é então ambiente significativo na formação da história de vida das pessoas, revelador de padrões de gostos e de hábitos que revelam bastante sobre como o design e a arquitetura devem se comportar e se adaptar no cotidiano pós-moderno e se voltar para identidades diversas que incluem além da classe social objeto desse estudo, fatores como gênero e faixa etária. Fica claro que relacionar moradias a esses aspectos pode revelar diferentes vertentes de atuação dos profissionais desse ramo nos dias atuais.