O surgimento da cidade de Caruaru se mistura com o surgimento da feira de Caruaru, pois de acordo com Ferreira (2001) podemos dizer que a feira contribuiu para o surgimento da cidade de Caruaru, já que a cidade ainda não existia quando a feira começou. Era um povoado vinculado ao município de Bezerros e posteriormente se desenvolve para cidade, um dos aspectos que contribuíram para o desenvolvimento da localidade foi a construção de uma capela, que provocou encontros semanais em que a população local aproveitava para trocar mercadorias. O IBGE (2010) delineia um pequeno histórico do surgimento da cidade, demarcando o ano de 1681 como início do caminho percorrido para a formação desse município, a partir da concessão de uma sesmaria para a família Rodrigues de Sá pelo então governador Aires de Souza de Castro, no entanto, somente em 1776 é que José Rodrigues de Jesus assume a fazenda que passou alguns anos abandonada e, em seguida, a capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição foi construída.
Para Ferreira (2001), o desenvolvimento das terras onde hoje está situado o município de Caruaru teve início por volta do século XVII com a distribuição das sesmarias, nesse caso a intenção era a produção agrícola e criação de gado. Quando José Rodrigues de Jesus assume a administração da localidade, no século XVIII, e determina a construção da capela onde as reuniões semanais ocorreriam e que daria início aos encontros que resultariam na então Feira de Caruaru, é que a região começa a se desenvolver, ocorrendo o crescimento da população que residia na região, no entorno, como também o crescimento econômico e a emancipação do município. Para o autor, outra contribuição para o desenvolvimento da feira na localidade é
o Rio Ipojuca, pois se tornara parada dos viajantes para descanso, cuidar dos animais e abastecer-se de água para continuar a viagem.
De acordo com o Dossiê da Feira de Caruaru (2006) feito pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional , a feira de Caruaru surgiu no encontro entre o sertão e a zona canavieira, pois era a parada de mascates, tropeiros e viajantes. Depois, a construção da capela ampliou a movimentação de pessoas nesse local, que teria aumentado e fortalecido através de encontros semanais o comércio na localidade. Uma pequena variação nas informações, mas que não diminuem a importância do comércio de bovinos e equinos e da construção da capela para o desenvolvimento de uma cidade e, posteriormente, de uma região.
Como descrevemos no capítulo introdutório, a cidade de Caruaru está localizada no Agreste Pernambucano. Segundo o IBGE (2010), a população que reside neste município é de 253.634 habitantes, destes 133.338 são mulheres. A maioria da população concentra-se na área urbana, em média 217.407 pessoas na área urbana e 36.227 no campo. O percentual de pessoas que não frequentaram a escola está em torno de 20%.
Na atualidade, Caruaru integra o polo têxtil de confecções de Pernambuco conjuntamente com algumas cidades circunvizinhas, dentre elas destacamos as cidades de Santa Cruz do Capibaribe e de Toritama, uma vez que compõem o triângulo da produção regional do polo comercial de confecções, e conseguiram estruturar a feira da Sulanca de seus municípios.
A atividade produtiva de confecção desenvolve-se e ganha força, no Agreste pernambucano, sem a mediação do Estado ou a intervenção do capital, mas pela iniciativa de mulheres e homens que viviam em situação de pobreza e que encontraram na confecção de roupas e artigos de cama, mesa e banho, tendo como base a “sulanca”, uma estratégia de sobrevivência. O termo “sulanca” deriva de uma junção entre “sul” e “helanca” e designa os retalhos de malhas utilizados para produzir pequenas peças de vestuário e artigos de cama, naquele período. Os artigos produzidos a baixo custo são vendidos no próprio mercado local e dão origem às chamadas “feiras da sulanca”. (ÁVILA, 2015, p.45).
Tanto Toritama e Santa Cruz quanto Caruaru têm uma feira da Sulanca, no entanto as características entre elas são distintas. Nesse estudo, a feira da Sulanca de Caruaru foi o nosso local de observação. Segundo Ávila (2015), dentre as três feiras da Sulanca nas cidades citadas como integrantes do polo têxtil de Pernambuco, a de Caruaru tem destaque. Afirma ainda que vários autores são consensuais em alegar que o desenvolvimento atual desse polo têxtil foi possível por conta das feiras que fazem parte do cotidiano da região do Agreste
Pernambucano. Ela ressalta o contraste evidenciado pelos investimentos públicos que incentivaram a industrialização no sul do país no mesmo período em que as feiras cresciam, na segunda metade do século XX, sem nenhum investimento governamental. Para a autora:
O polo de confecções do Agreste se desenvolveu à margem desse processo e é expressão da desigualdade regional que caracterizou o desenvolvimento econômico brasileiro no século passado. Também se desenvolveu à margem das iniciativas desenvolvimentistas implantadas na região Nordeste a partir da década de 1960, impulsionadas pela criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – Sudene, sediada no estado de Pernambuco. (Ávila, 2015, p.45)
Outro aspecto que consideramos se evidenciar na pesquisa organizada por Àvila (2015), entre outras pesquisadoras, é que as mulheres foram as precursoras do processo do qual a Sulanca descende, pois o início foi com a pequena produção doméstica buscando o comércio nas feiras e abastecer a família. Não existiam lojas que comercializavam tecidos, os mascates eram os fornecedores trazendo retalhos, por um baixo custo, advindos da capital pernambucana. A autora afirma que a marca do desenvolvimento das atividades que decorrem o polo de confecções do Agreste é resultado do trabalho desempenhado pelas mulheres em busca de autonomia econômica, e que este desenvolvimento é fruto de um esforço em conjunto, porém não organizado, e que se insere na divisão sexual do trabalho, pois costurar é tido como um trabalho feminino.
Ávila (2015) enfatiza a informalidade em que o trabalho das mulheres está inserido nesse processo de produção e comercialização no Polo Têxtil de Pernambuco e que, com exceção do investimento que o Banco do Brasil fez na década de 60 do século XX, possibilitando a compra de máquinas de costura, é recente o investimento do poder público. Só a partir dos anos 2000 é que iniciativas de investimento são voltadas para as localidades. Analisando o processo que resultou no desenvolvimento de um polo têxtil, Ávila (2015) afirma que a representação da Sulanca em busca da sobrevivência, em especial de mulheres pobres, ganhou proporção em cadeia nacional e até internacional.
É um espaço comercial de importância econômica singular para o município de Caruaru, onde comercializam seus produtos feirantes de características distintas e de discrepância econômica, de diferentes orientações sexuais, etnias/raças, naturalidades e níveis de escolarização. Tanto o IPHAN (2006) como Ferreira (2001) concordam que a importância da feira de Caruaru não é unicamente econômica, e sim cultural, social e histórica. Esta feira que segundo o IPHAN é
é um lugar de memória e de continuidade de saberes, fazeres, produtos e expressões artísticas tradicionais que continuam vivos no comércio de gado e dos produtos de couro, nos brinquedos reciclados, nas figuras de barro inventadas por Mestre Vitalino, nas redes de tear, nos utensílios de flandres, no cordel, nas gomas e farinhas de mandioca, nas ervas e raízes medicinais. Sem sua dinâmica e o mercado que a Feira proporciona, esses saberes e fazeres já teriam desaparecido. É, por fim, um lugar de socialização, de permanente construção de identidades e de exposição da criatividade popular, tanto em seus aspectos tradicionais como em sua capacidade de recriação, invenção e inovação. A Feira de Caruaru são muitas feiras, que podem se transformar ou desaparecer em função das transformações da própria sociedade e da própria cultura. É um lugar de referência viva da história e da cultura do agreste pernambucano, e, de modo mais geral, da cultura nordestina [...]. (IPHAN, 2006)
Podemos dizer que a feira de Caruaru, da qual a Sulanca faz parte, é reconhecida nacionalmente e devido a esse reconhecimento tornou-se Patrimônio Imaterial pelo IPHAN. Pensar a importância dessa feira é refletir sobre uma cadeia de produção que gera empregos e produtividade, em que o escoamento da produção de mercadoria acontece semanalmente, possibilitando diferentes ocupações, desde os que organizam o funcionamento da feira e a disposição dos bancos, vendedores de café, até grandes comerciantes; refletir sobre um lugar onde as negociações interestaduais são frequentes, como também pensar em toda a produção em fabricos, facções, lavanderias que alimentam esse comércio, a economia da cidade, bem como empregos formais ou informais que tenham respeitados e garantidos seus direitos ou não.
Silva (2009) aponta para as questões de infraestrutura que dificultam a comercialização dos produtos na feira da Sulanca. Para a autora é necessário pensar a questão cultural, pois um novo empreendimento poderia modificar as raízes da feira, com seu imaginário simbólico dos bancos, da aglomeração, da forma de negociar, como também a falta de estrutura pode ocasionar o esvaziamento dos compradores, o que seria maléfico para os feirantes, levando à feira a uma estagnação. O IPHAN (2006) discute a questão da infraestrutura, do crescimento desordenado, do fechamento de vias de acesso à feira, principalmente em dias de grande movimento de compradores, como no mês de junho e dezembro, quando aumenta o número de vendedores ambulantes, dificultando não apenas o comércio, como a própria circulação na feira, nesse contexto fica difícil inclusive se for necessário prestar socorro a alguém que esteja no parque 18 de Maio.
No mês de julho de 2015, foi votado na Câmara de Vereadores de Caruaru o projeto de retirada da feira para um empreendimento à margem da BR 104. Enfatizamos que não é a primeira mudança de local de funcionamento da feira da Sulanca. A princípio a feira
funcionava em frente à capela em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, marco zero de Caruaru.
Figura 3 - Vista aérea da Feira da Sulanca de Caruaru quando funcionava no marco zero da cidade, antes da mudança para o Parque 18 de Maio.