As tarefas que resultavam da gestão do Núcleo Monte Verde acabavam por ingressar numa rotina que estava repleta de atividades domésticas e familiares. Nos
93 Que vinham com a nota fiscal do Banco de Alimentos. Na primeira vez que eu acompanhei um dos
repasses, conferimos os alimentos entregues, vieram 300 quilos de arroz (em fardos com pacotes), 300 quilos de feijão em sacos de 50 quilos cada (que as pessoas logo repararam, eram ‘made in Canadá’). Mais 150 quilos de açúcar, 150 quilos de farinha de trigo, 75 quilos de macarrão (cada pacote com meio quilo) e 156 pacotes de biscoito de água e sal.
momentos em que estive no Núcleo, as atividades aconteciam paralelamente ao acordar os filhos, acompanha-los à escola, o tempo de fazer o almoço que elas diziam ser o de “colocar o feijão no fogo”, o tempo de recolher as crianças para dentro de casa à noite, tempo de vencer tarefas domésticas - como a interminável (e, como me disseram nas vezes em que estava nas suas casas: importantíssima) tarefa de lavar a roupa de toda a família. Ainda era o tempo que se contava até a chegada do casamento, dos aniversários e da festa de quinze anos das filhas.
Mas, ainda que a rotina estivesse repleta de tarefas a cumprir, as atividades do Núcleo mostravam haver certa liberdade, uma margem de manobra na realização das tarefas domésticas. Ao participar do Núcleo Monte Verde, novos elementos foram introduzidos às rotinas das coordenadoras. O almoço acabava atrasando porque a reunião não tinha terminado ainda ou porque se ficou mais tempo conversando com as outras mulheres. A rotina doméstica não surgia, simplesmente, como um empecilho para a coordenação do Núcleo, visto que as coordenadoras lidavam com criatividade e dinâmica às exigências de cada um dos espaços - a casa, o Núcleo, a prefeitura.
Ainda assim, como também aponta a bibliografia que trata da rotina das mulheres nas periferias urbanas, havia negociação nas casas para que as atividades pudessem ser desempenhadas (Fonseca, 2004; Sarti, 1996). Esta negociação, também no espaço do Loteamento, estava baseada na utilização, pelas mulheres, de seu status de mãe (Caldeira, 1987). Era o “bem dos filhos” um dos argumentos mais eficazes para justificar a circulação e a dedicação exigida pelo Núcleo, assim como justificavam pelos bens materiais que traziam e ajudavam a compor a economia doméstica.
Outra condição aparecia como fundamental para que pudessem se dedicar “ao trabalho” do Núcleo. Esta condição era o ‘não-trabalho’94 (no sentido de não trabalhar
“fora de casa”). Para tanto, era preciso que os parceiros destas mulheres estivessem empregados ou que elas possuíssem outra forma de renda. No período em que Marina “trabalhou fora” se queixava de que o “núcleo fica muito largado”, e, nos momentos em que Carlos conseguia novamente emprego, junto com o cuidado com a casa e com os filhos, “cuidar do Núcleo” também era um argumento utilizado. Assim, o emprego costumava ser incompatível com as atividades do Núcleo. No caso de Elza, não importava
94 Na abertura do capítulo, ao descrever um trecho da reunião das coordenadoras, também aponto para a
possibilidade do estudo aparecer como empecilho para a dedicação ao Núcleo. Contudo, embora o tom intenso e proibitivo de Marina naquela ocasião, algumas das coordenadoras estudavam no período da noite, inclusive Irene que era uma das mais engajadas nas atividades do Núcleo.
tanto a situação de trabalho de seu marido, porque ela recebia um benefício assistencial de transferência de renda que lhe fornecia recursos sem estar “trabalhando fora”.
As atividades domésticas e familiares e as tarefas do Núcleo apareciam imbricadas. Por exemplo, Diná se propôs a entregar os ofícios de pedidos de doação de alimentos no centro da cidade no dia em que tinha consulta médica de sua filha naquele espaço. Ou ainda, por vezes as reuniões se tornavam muito longas para a roupa que esperava ser lavada no tanquinho de casa e alguém saia mais cedo. Em outras situações era a “própria vida” que servia de referência ao momento vivido na coordenação do Programa. Quando havia alguma discussão entre elas, Irene lembrava que tinha aprendido a conviver com “problemas entre pessoas” porque, desde pequena, tinha vivido em espaços coletivos, como abrigos infantis e albergues. Neste mesmo sentido, quando conversava com Geneci, em março de 2006, sobre o andamento dos trabalhos do Núcleo, ela me contou:
A Marina vai mandar o guri dela também pro interior. A filha mais velha dela, de quinze anos, ela teve um filho, parece que estava grávida antes de se juntar com o pai da criança. O guri só não foi porque a Marina ainda está sem dinheiro para mandar. A Graziela está sempre com aquele guri dela pra cima e pra baixo. Ele já está com três anos e ela queria, olha só, levar ele junto lá pro Porto Seco, onde fomos arrecadar alimentos no carnaval. Meu marido mesmo falou pra ela ‘tu não vê a Geneci, ela tem os filhos e mesmo assim faz as coisas’ (...) A Diná, depois que ela saiu daqui ela só teve problema. Aqui tu ia na casa dela e o marido dela colocava tudo dentro da casa. Lá só dá confusão. Ele bebe, né? (Geneci, 26 anos,
03 filhos, casada).
Geneci me contava estas notícias como resposta a uma pergunta sobre o Núcleo Monte Verde. Falando sobre as dificuldades que cada uma das coordenadoras passava, situações em geral ligadas à família, acenava para o fato de que as coisas em geral estavam difíceis, assim como o “trabalho” do Fome Zero. Estas características, que associavam o envolvimento com o programa governamental diretamente às suas vidas, apontam para os sentidos diferenciados de envolvimentos com estes programas e para os variados modos de viver o político95 (Goldman e Sant’ Anna, 1999).
95 Segundo os autores: “O reconhecimento de que existem diferentes modos de se pensar e viver o político
e de que estas concepções informam de modo específico a prática e as demais representações dos agentes nos parece um passo preliminar para a renovação dos estudos a respeito deste campo, afastando-nos dos fantasmas da ‘irracionalidade’, sempre invocados ou exorcizados quando não compreendemos bem aquilo que pretendemos falar” (Goldman e Sant’Anna, 1999, p.139).