• Aucun résultat trouvé

Mas para quê me comparar com uma flor, se eu sou eu E a flor é a flor? Ah, não comparemos coisa nenhuma; olhemos. Deixemos analogias, metáforas, símiles. Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.

Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela. Cada coisa só lembra o que é E só é o que nada mais é. Separa-a de todas as outras o abismo de ser ela (E as outras não serem ela). Tudo é nada sem outra coisa que não é. (PESSOA, 2005, p. 130)

Como vimos, em se tratando de teoria das metáforas, a ideia de literalidade é fundamental, indispensável ao próprio conceito de linguagem figurada. Da mesma forma que a ironia depende da noção de verdade, mesmo que seja para desprezá-la ou rechaçá-la, a metáfora depende da literalidade, mesmo que seja para descartá-la.

O sentido especial metáfora, ou simplesmente o sentido metafórico, depende do fato de que há também um sentido literal do qual a metáfora, ao mesmo tempo em que se distancia, faz uso para estabelecer um novo sentido. Digamos que esse seja o senso comum sobre o que as metáforas são.

Em uma posição contrária, radicalmente oposta à definição do senso comum sobre as metáforas, Donald Davidson sustenta uma tese provocativa de que as metáforas não têm um sentido diferente do sentido ou significado literal. Segundo Davidson, as “metáforas significam o que as palavras, na sua mais literal interpretação, significam e nada mais”26

(DAVIDSON, 2008, p. 473). Ou seja, de acordo com esta tese, tudo o que uma metáfora é dependeria exclusivamente do sentido literal de suas palavras.

Neste artigo, intitulado O que as metáforas significam, Davidson inicia o texto com uma metáfora de difícil tradução para o português: “metaphor is the dreamwork of

language”. A escolha muito provavelmente proposital de um enunciado metafórico

como ponto de partida para a redação de seu trabalho assume um tom irônico em relação às teorias da metáfora que pretende refutar. Comparar metáfora a sonho ou talvez mais precisamente afirmar que a metáfora é “a obra onírica da linguagem” implica dizer que toda interpretação das metáforas é como a interpretação de sonhos e, nesse sentido, interpretar é algo próximo de imaginar no sentido criativo da ação de produzir imagens.

De acordo com essa aproximação entre imaginação e interpretação, o processo de compreensão metafórica seria necessariamente uma tarefa que demandaria o mesmo grau de criatividade hermenêutica presente no processo de criação da metáfora, em tese, anterior a sua interpretação.

No entanto, Davidson afirma que entender interpretação como imaginação não é algo exclusivo da tarefa de compreensão de metáforas. Pelo contrário, toda interpretação de transações linguísticas rotineiras seria sempre um processo criativo parcamente guiado por regras. A diferença seria de grau apenas, pois toda comunicação discursiva que envolva ou não metáforas é uma espécie de jogo ou interação entre construção inventiva e um construído inventivo.

Existe ainda uma discussão entre os que admitem e os que não admitem que metáforas sejam parafraseadas literalmente. Os que tradicionalmente não admitem a

paráfrase literal sustentam que há na metáfora uma novidade, ou um sentido, ou ainda uma introspecção especial (special insight) que não pode se traduzir em uma linguagem ordinária ou literal. Davidson também entende que as metáforas não podem ser parafraseadas, mas não pelo fato de que a metáfora tenha um sentido diferente do literal ou algo radicalmente novo que não possa ser dito literalmente; simplesmente, não há coisa alguma a ser parafraseada (DAVIDSON, 2008, p. 474). Se há algo de especial com a metáfora não seria em relação a seu sentido, mas em relação a seu uso. Ou seja, a linguagem metafórica não seria uma questão de semântica, mas de pragmática.

De acordo com a tese de Davidson, metáforas pertencem exclusivamente ao domínio do uso, ou seja, diante de metáforas, as questões que podem ser feitas têm caráter pragmático e não semântico. Em termos semânticos, as metáforas dependem inteiramente dos sentidos ordinários das palavras.

Assumida esta tese como pressuposto, Davidson passa a rechaçar qualquer possibilidade de equiparar o significado metafórico com as noções de novos significados ou significados ampliados (extended meanings). Uma palavra tem o seu significado ampliado no momento em que passa a se referir a novas classes de entidades. Mas, se uma metáfora puder se definida como a ampliação do significado de uma palavra, isso levaria a entender que não há significado metafórico, mas apenas um significado literal ampliado. Neste sentido, não haveria razão para diferenciar a criação de uma metáfora da introdução de um novo termo em um determinado vocabulário. O sentido original da palavra, de acordo com Davidson, de qualquer forma, sempre será relevante para a metáfora, mesmo que latente, permanecerá ativo na caracterização do sentido metafórico. Aliás, seria até difícil reconhecer uma diferença significativa entre o uso metafórico de uma palavra em um determinado contexto e o uso literal da palavra de um modo previamente desconhecido. Neste último caso, o sentido da palavra é literal, mesmo que seja ainda desconhecido.

Da mesma forma, a metáfora não pode ser definida como um tipo de ambiguidade. A diferença entre ambiguidade e metáfora é que nem sempre há hesitação diante de uma metáfora, pois nem sempre uma metáfora é ambígua. Ao contrário, é mais comum que se reconheça uma metáfora – ou que se está diante de uma metáfora – sem que a ambiguidade de seu significado seja colocada em questão. Ou seja, não é a dúvida a respeito da interpretação mais adequada para aquela metáfora que determina que se trate de uma metáfora.

É possível afirmar que um termo ambíguo equivale na verdade a dois diferentes termos que coincidem em relação a sua grafia e fonética; mas serão duas palavras distintas em todo caso. Por mais que o recurso da ambiguidade na literatura possa ter um caráter poético, não é simplesmente pelo fato de ser ambígua a possibilidade de interpretação que se caracteriza um texto como metafórico. Nesse aspecto Davidson parece ter razão. Uma metáfora não pode ser caracterizada enquanto tal simplesmente pelo fato de seus possíveis sentidos serem considerados ambíguos.

O mais interessante na tese sustentada por Davidson de que não há um sentido “propriamente metafórico” das metáforas é que a pertinência da noção de sentido literal não seja nem ao menos questionada por ele. A possibilidade de existência de sentidos literais é simplesmente assumida como certa por ele. É como se o sentido literal fosse algo tão óbvio para todos que nem precisasse ser questionado ou mesmo definido. Todos seriam capazes de reconhecer imediatamente a noção de sentido literal.

Max Black retruca as teses de Davidson considerando que o radicalismo de sua concepção se deve mais a propósitos provocativos. Segundo Black (1979, p. 181), todos os estudiosos da metáfora terminaram se sentindo atacados pelo que Davidson considerou simplesmente erro e confusão, isto é, que a metáfora teria, além de um sentido ou significado literal, outro sentido ou significado especial.

Deve-se notar, no entanto, que o próprio Davidson, com sua afirmação possivelmente irônica, constrói uma metáfora que contraria o que ele próprio quer dizer. Quando ele inicia o texto dizendo que a “metáfora é o trabalho onírico da linguagem” (“metaphor is the dreamwork of language”), poderia muito bem ter escolhido a formulação de um símile ou de uma comparação: poderia ter escrito que a metáfora é

como um trabalho onírico da linguagem. Possivelmente o próprio Davidson foi levado a

não optar pela mera comparação, mas por estabelecer uma relação direta entre o sujeito “metáfora” e o predicado “é o trabalho onírico da linguagem”. Tomado literalmente, o enunciado seria simplesmente falso ou, pelo menos, duvidoso. Com sua afirmação metafórica, Davidson termina por sugerir e suscitar observações que já não são mais patentemente declaradas.

Perceba-se que não é apenas uma nuance que distingue a metáfora da comparação. Entre metaphor is the dreamwork e metaphor is “like” the dreamwork há uma notável diferença. Se eu digo que a “metáfora é como o trabalho...” afirmo que ela não é a mesma coisa que o trabalho, isto é, que não há qualquer relação de identidade,

mas apenas de semelhança: logo afirmo que metáfora não é literalmente o trabalho onírico da linguagem. Mas quando digo que “a metáfora é o trabalho...” já não há mais comparação e sim uma relação de implicação. Só coisas diferentes podem ser comparadas. Se digo que algo “é” alguma coisa, não há mais comparação.

O texto de Davidson tem, sem dúvida, um caráter contestador e serve de alerta aos estudiosos da metáfora que, imbuídos em seus desejos de ver em tudo figuração, terminam por se esquecer dos mais ordinários elementos da linguagem convencional. No entanto, contra a tese de Davidson, sou levado por seus opositores a pensar num sentido exclusivo da linguagem metafórica, especialmente no que diz respeito à capacidade imagética de criar novas realidades por meio da figuração.

É por meio da figuração irrefreada que formamos não apenas novas formas de ver o mundo, mas o próprio mundo como o entendemos. O “mundo do direito”, com todos os seus elementos constitutivos, parecem depender necessariamente dessa capacidade criativa de inventar novas realidades as quais terminamos por nos vincular.

2.4 Linguagem figurada e formação de um plano autônomo de existência da

Documents relatifs