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Chapitre 1 La politique ferroviaire de l’Union européenne à la lumière des

1.2. Analyse comparée des performances des chemins de fer : un calcul formel des

1.2.5. Analyse de la performance financière

A divisão sexual do trabalho opera de acordo com dois princípios organizadores fundamentais: o de separação, pois cada sexo7 é responsável por um tipo de trabalho, e o hierárquico, pois um tipo de trabalho vale mais do que outro. Deve-se entender que, se, por um lado, esses princípios são observados em diferentes culturas, por outro, suas formas de manifestação e, portanto, a organização da divisão sexual do trabalho se modificam historicamente, da mesma forma que as relações de gênero modificam-se historicamente. Essa divisão está associada a uma base tanto política quanto econômica da sociedade (Hirata & Kergoat, 1994).

De acordo com esse princípio, produção e reprodução sociais têm sido vistas como âmbitos separados e hierarquizados de trabalho humano. A análise marxiana da sociedade capitalista centrou- se, sobretudo, sobre a produção social, em detrimento do processo de reprodução social. Em que consistiria, nesses termos, o trabalho produtivo? Segundo Marx (1932/2008) o trabalho produtivo seria aquele trabalho assalariado que produz mais-valia. Essa definição foi posta em xeque por várias feministas marxistas, uma vez que o trabalho reprodutivo também produz uma mais-valia, mesmo que de forma indireta. Abordaremos essa questão no próximo tópico.

A oposição entre trabalho produtivo e reprodutivo aparece comumente da seguinte forma: o primeiro é tido como aquele realizado fora do espaço doméstico, é remunerado e gera mais-valia, ao passo que o reprodutivo é realizado dentro do espaço doméstico, não é remunerado e, à primeira vista, não gera mais-valia. No entanto, a produção só é possível por meio da reprodução da força de trabalho. Além disso, a reprodução é, tanto quanto a produção, uma forma de trabalho, uma vez que envolve uma ação humana consciente que visa modificar a realidade ao seu redor (Marx, 1932/2008). Ambos modificam a natureza e modificam o próprio ser humano que o realiza.

Busquemos entender melhor o que Marx chama de reprodução social. Para ele, esse fenômeno engloba a reprodução da totalidade do processo social, aí envolvidas a reprodução dos meios de produção, das relações de produção, da força viva de trabalho e também da consciência social. Como a sociedade reproduz a si mesma, perpetuando o modo de produção, as relações sociais e a ideologia? Dentro desse contexto, interessa-nos particularmente como ocorre a reprodução da força de trabalho em nossa sociedade capitalista. E em que ela consiste? Essa forma de atividade tem

7 Colocamos aqui a palavra sexo e não gênero, porque essa divisão se funda em diferenças biológicas que se

recebido diferentes denominações por parte das pesquisas acadêmicas: trabalho doméstico, afazeres domésticos, trabalho de cuidado, trabalho reprodutivo etc. (Gama, 2014). Bruschini (1990) propõe uma ampla definição para o trabalho doméstico, que agrupa atividades em bloco, porém não de forma hierarquizada. Trata-se de uma definição mais ampla do que aquela utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), conforme veremos.

1. tarefas relativas aos cuidados com a moradia, espaço no qual se passa a vida familiar cotidiana;

2. tarefas de alimentação e higiene pessoal, como cozinhar, lavar pratos e outros utensílios, costurar, lavar e passar roupas;

3. prestação de serviços físicos e psicológicos aos membros das famílias, assim como o cuidado com as crianças, os idosos e os incapacitados da família;

4. administração da unidade doméstica, com atividades que vão desde o pagamento de contas até a administração do patrimônio, bem como a aquisição dos bens de consumo necessários para a casa e a família;

5. manutenção da rede de parentesco e de amizade, que reforçam laços de solidariedade e de convivência (Bruschini, 1990).

Quando tratamos do conflito entre o trabalho produtivo e o trabalho reprodutivo, estamos também falando, necessariamente, de relações de gênero, uma vez que este último tem sido historicamente atribuído às mulheres. Em uma busca por compreender as razões disso, muitas autoras afirmam que, por muito tempo – e talvez até hoje – a naturalização do lugar da mulher no espaço privado do lar vem do fato de a mulher parir. Trata-se de uma tentativa de ancorar sobre fatos biológicos relações que se explicam histórica e socialmente, conforme já discutimos. Podemos ver, além disso, que os afazeres domésticos extrapolam em muito atividades relacionadas à gestação, ao parto e à amamentação (Bruschini & Ricoldi, 2009), e, conforme discutido no capítulo anterior, nem mesmo atividades diretamente ligadas ao corpo biológico, como a amamentação, podem ser naturalizadas como instintivas (Badinter, 1985).

Antunes (2003) ressalta que a inserção da mulher no sistema capitalista é marcada por uma dupla opressão: a opressão do sistema em si e a opressão da divisão sexual do trabalho, que a coloca em um lugar de subordinação aos homens. As mulheres, ao mesmo tempo que participam da produção capitalista a partir de um lugar subordinado, estão ativamente envolvidas com a reprodução da vida. Esse é um elemento que não deixa de estar presente na constituição de uma identidade de gênero por parte das mulheres em nossa sociedade.

A reprodução social no âmbito privado é vista como uma forma devida de afeto, atribuída exclusivamente às mulheres, o que novamente se apoia sobre uma naturalização de valores. No entanto, trata-se de fato de uma forma de trabalho repetitivo e invisibilizado, que serve, tanto quanto o trabalho assalariado cristalizado em mercadorias, para a reprodução do capital. Nesse sentido, a alienação do trabalho também aparece no âmbito privado: considera-se essa divisão de trabalho entre homem e mulher como algo naturalizado, fixo, a-histórico (Gama, 2014).

É essencial reforçarmos que a relação entre gêneros não é uma relação ditada por princípios biológicos, mas antes uma relação social e histórica que reflete em si toda a estrutura social na qual está inserida, o que envolve as relações de produção e reprodução de um sistema capitalista. Da mesma forma, a história da família é também a história do desenvolvimento dos meios de produção da sociedade (Haug, 2007).

A maciça entrada da mulher no mercado de trabalho, advinda da industrialização, causa um recrudescimento das tensões entre trabalho e vida familiar. A mulher vai para o espaço público ocupar-se de funções produtivas, mas segue associada às atividades de reprodução no espaço privado. A inserção da mulher no mercado produtivo surge, portanto, como um problema – afinal, quem cuidaria da casa? Ao mesmo tempo, com a industrialização, a família deixa de ser um lugar de produção e passa a ser um lugar de consumo e reprodução da força de trabalho. Estabelece-se o conflito trabalho assalariado e trabalho doméstico não remunerado. Esses passam a ser vistos não apenas como coisas diferentes, mas também como coisas opostas: trabalho/não trabalho; valor/não valor; homens/mulheres (Goldman, 2014; Gama, 2014).

O ingresso maciço da mulher no mercado de trabalho gerou uma grande oferta de mão de obra feminina. São frequentes relatos do início do século XX sobre revoltas dos trabalhadores homens com relação à contratação de trabalhadoras, alegando que estas puxavam os salários para baixo, como se se tratasse de uma culpa inerente à mulher e não que esta fosse vítima de uma exploração ainda maior que a dos homens operários (Goldman, 2014).

O acesso da mulher ao mercado de trabalho é marcado pela precarização. A mulher é tida como uma força de trabalho secundária, o que inicialmente foi associado à sua escolarização e qualificação técnicas usualmente mais baixas. Contudo, esses índices se modificaram sem que fosse atingida a igualdade salarial entre homens e mulheres. A mulher sofre com salários mais baixos que os homens, independentemente da classe social ou categoria profissional, ainda que disponha de uma escolarização igual ou superior à do homem (Bruschini, 1999).

Conforme debateremos no próximo capítulo, com a restruturação produtiva em vigor nas últimas décadas, a mulher é vista como mais adaptável às demandas desse processo, como, por exemplo, o trabalho parcial ou temporário, a informalidade, salários inferiores etc. Desigualdades entre classes sociais no Brasil agravam essa situação. A entrada no mercado de trabalho das mulheres da classe média gera um enorme número de empregos precarizados para as mulheres das classes mais desprivilegiadas: o emprego doméstico.

De fato, o trabalho doméstico remunerado é atualmente uma das principais ocupações da trabalhadora brasileira e a principal da trabalhadora de cor preta ou parda (IBGE, 2014). Perpetua-se a divisão sexual e marca-se pelo estigma da precarização o ingresso da mulher do mercado de trabalho, ainda que avanços recentes na legislação trabalhista sobre o trabalho doméstico amenizem o cenário. Fica claro, portanto, que o acesso da mulher ao mercado de trabalho não significou mudanças na divisão sexual do trabalho, uma vez que outra mulher é chamada a desempenhar essas

funções. Esse fenômeno tem sido denominado pela literatura de maternidade transferida (Costa, 2002; Gama, 2014), o que não deixa, em nossa opinião, de ser problemático, uma vez que o termo contém um certo juízo de valor sobre aquela mulher que contrata outra, sem que se questione a posição masculina.

Esse cenário faz a tensão entre trabalho e vida familiar não ser vista como um problema a ser resolvido pela esfera pública, pelo Estado. Ou seja, o Estado não se vê compelido a pensar políticas sociais que possibilitem a conciliação entre trabalho e vida familiar. Ao contrário, essa é vista como uma tarefa que deve ser resolvida no âmbito de cada família (Costa, 2002; Gama, 2014).