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Partie 2 : Les acteurs de la distribution, le cas des Points Relais

4. Analyse géo-spatiale des réseaux de points relais

Perséfone desenrolou o fio de sua vida de forma enfática, emocional, feliz, parecendo gostar de fazê-lo, repetindo durante todo o tempo em que estivemos juntos que amava a vida, as pessoas, a natureza e que era muito, muito feliz. Feliz e transparente, atribui isto ao fato de ter sido bem-cuidada na infância, de ter sido sempre amada, muito amada.

Perséfone parecia também querer convencer-se do propalado fato, desejando ouvir de viva voz aquilo que queria internalizar e nos impressionar ao mesmo tempo.

Falava, sorria, gesticulava amplamente e olhava para nós, estudando qualquer esboço ou reação de nossa parte.

Perséfone afirmou ter vindo para a Capital à revelia. Gostava da vida no interior, da simplicidade das pessoas, considerando-se igualmente uma pessoa simples.

Utilizando-se profusamente de elogios, mimos linguísticos a nós dirigidos, a professora lançava-nos uma carícia verbal, a cada instante nos considerando também simples, cordata, com equilíbrio e conhecimento invejáveis (afirmando: no bom sentido).

Sua atitude nos situou na retaguarda, esperando o momento em que aqueles laivos de encantamento arrefeceriam, para podermos analisar com maior

critério a materialização do discurso, do pensar, do sentir, da vida daquela professora que mais parecia uma “Polyana menina” com seu jogo do contente, o mesmo da deusa Perséfone da mitologia grega.

Perséfone permeou sua fala, do início ao fim, com sinais e indícios da insegurança, de quem busca agradar e parecer bem ao interlocutor; sinais evidentes de uma superproteção na infância por parte de uma família que gravitava ao redor dela, filha e irmã temporã, que necessitava de plateia para aplaudir seu desempenho sempre apreciável!

Perséfone se coloca como grata, dedicada, disponível e leal à diretora, às supervisoras da Rede Municipal e, naquela ocasião; a esta pesquisadora.

Perséfone revela, mais uma vez, como o fez anteriormente na entrevista, que não a agrada estar junto dos companheiros de trabalho, apáticos, reclamadores, infelizes!

A professora parece evitar situações de mal-estar, do cotidiano que se vive como educador de escolas da periferia, como a Calipolis, e diz lutar por um mundo melhor, cheio de esperança e pessoas felizes, bonitas... como a pesquisadora – completa.

Perséfone nos relata as rupturas em sua vida. A primeira foi a vinda do interior para a Capital, já mocinha. Cortavam-lhe as raízes, ficaram para trás amigos, amores, folguedos; mas, de acordo com o discurso revelador, não ficou sem referência, pois foi para a casa da irmã, que completou seu processo de formação como pessoa íntegra.

Perséfone ama tanto o interior de onde veio, mas, desde que chegou à Metrópole, apenas retornou às origens em torno de dez vezes. Um número ínfimo para os 15 anos que mora na Capital.

Em seu dizer de si, em diversas ocasiões, se mostrou contraditória, um tanto ansiosa, mas sempre sorridente, constantemente parecendo satisfeita com o efeito de suas palavras e revelações.

A professora apresenta também em sua longa locução traços de misticismo, holismo, sede de transcendência, o que a faz parecer insatisfeita com o mundo material, o mundo vivido pelas pessoas materiais, concretas.

Isto se torna ainda mais patente quando ela revela apreciar homens espiritualizados, como o seu professor de Yoga e meditação, com quem teve uma relação tântrica (no seu dizer), mais etérea do que carnal, como também classificou que resultou na segunda ruptura.

A decepção, segundo Perséfone, com seu “quase-Deus” (como o considerava), deveu-se a uma espécie de “esgotamento afetivo”. A relação foi perdendo a aura e o seu mestre-amor, ou mestre do amor parecia infeliz ao lado dela, sem querer assumi-la integralmente porque, segundo o que nos relatou, ela era boa demais, amável ao extremo, nutrindo por ele uma intensa adoração, que findou por sufocá-lo (como ele confessou a Perséfone). Este episódio levou a sentir- se menos mulher, feia, e até... infeliz (palavras inexistentes em seu vocabulário).

Acolhida mais uma vez pela família, buscou ajuda na terapia, por meio dos serviços profissionais de um psicólogo, sem abandonar, no entanto, sua veia mística, frequentando cursos sobre a holística da feminilidade.

Perséfone, mais uma vez, se recuperou. Desta feita com uma consciência de si e de seus poderes de transformar a vida das pessoas, por intermédio da compaixão que nutre pelos alunos e por toda a humanidade, incluindo-nos (segundo afirmou).

Perséfone escolhe este nome para constar deste trabalho, por considerar- se uma pessoa que planta e colhe, como sugere a divindade helênica a qual personifica na pesquisa e na vida da comunidade de Tebas.

A professora diz considerar importante alimentar sua vida espiritual, participando de ritos esotéricos, que nutrem sua alma e a tornam uma pessoa sensível e disponível.

Para isso necessita de tempo para mergulhar neste tipo de abordagem, optando por trabalhar apenas um turno, energizando-se para cumprir sua missão na esfera terrena.

Ao despedir-se de nós, Perséfone nos presenteou com um cartão, pleno de palavras carinhosas e singelas, o que nos fez acreditar, já ao final do nosso encontro que a professora pode realmente ser como é, acreditar no que crê, embora não compartilhemos integralmente do seu modo de estar nesse mundo.

Aprendemos, porém, a respeitar cada uma delas – Hera, Calipso e Perséfone – cujas histórias de vida se cruzaram, assim como cruzaram a nossa, gerando outras construções que se vão integrando nos mundos da vida de cada uma delas, na nossa própria vida de pesquisadora e das crianças que elas ajudam a formar.

FORMAÇÃO MORAL SENSIBILIDADE MORAL CONSCIÊNCIA MORAL

- Filha mais nova de uma família de 3 irmãos, cuidada pelos pais e pelos irmãos. - Formação rígida, mas amorosa numa cidade do interior.

- Esperançosa, positiva, feliz (graças à formação).

- Aprendeu a ser grata, simples e desapegada com

os bens e os grupos

espiritualistas que

freqüentou e freqüenta.

- Mística. Voltada para as

práticas esotéricas.

Holística.

- Estudo das entidades

femininas, busca do

aperfeiçoamento da

feminilidade e do respeito ao gênero feminino.

- Amor ao planeta, aos seus

habitantes, sente-se

responsável por ele.

- Recomeços. Rupturas.

Recomeços.

- Compaixão pelos alunos que sofrem.

- Optou por trabalhar apenas um turno para melhor se doar aos alunos.

- Rompeu um

relacionamento de cinco

anos, para que o outro livre fosse feliz.

- Cuidado com o outro holístico.

- Reconhece o alcance de suas ações sobre o outro.

Fonte: elaboração própria, com dados da pesquisa.