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Analyse factorielle booléenne (AFB)

A atividade turística é hoje uma das mais lucrativas do mundo, de modo a ser comparada à indústria petrolífera e automobilística, sendo, portant o, vista como uma indiscutível estratégia de investimento e rentabilidade. Os recursos turísticos, que podem ser de ordem natural ou cultural8, são vistos como oportunidade de negócio não somente por empresas, mas também por governos, os quais utilizam o argumento da sustentabilidade como um fator que lhes pode vir a ser consequente. Em termos práticos, o fenômeno está inteiramente dimensionado pela

inter­relação entre socioculturais. Os lugares turísticos são promovidos e ressignificados de

modo a atender à demandas de mercado, tanto materiais quanto simbólicas, sendo, para isso, investidos de discursos e práticas diversas.

Para as ciências econômicas, o turismo é sempre visto como uma grande oportunidade. Dados recentes informam que o turismo é responsável por m ais de 10% da renda mundial e por mais de 230 milhões de empregos no planeta (Santos & Kadota, 2012). Se é ato de consumo, deve ser, portanto, analisado sob a luz da antropologia, a qual é capaz de responder a respeito de como bens culturais e o patrimônio natural se transformam em recurso econômico explorado

7 Referência à report agem da rede de t elevisão am ericana CNN, que elegeu Lisboa com o a cidade mais cool da Europa.

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através da atividade turística. Para o turismo, os lugares são promovidos e ressignificados de modo a atender a demandas de mercado, tanto materiais quanto simbólicas, sendo, para isso, investidos de discursos e práticas diversas.

Enquanto atividade que implica complexas práticas e inter-relacionamentos, tem-se na produção de serviços turísticos diversas negociações. Afinal, estas fazem parte de uma série de articulações sociais, objetivas e subjetivas. A prática turística chega a ultrapassar lógicas que podem ser relacionadas às funções meramente mercadológicas, que muitas vezes lhe são atribuídas, para assumir-se enquanto prática social, onde estão previstos diversos níveis e graus de interação social. Pelo argumento de Urry and Rojek (1997, p.25), a comercialização da experiência se dá por meio do consumo de bens culturais, tangíveis e intangíveis, os quais surgem como potenciais motivos a serem explorados pelo capital econômico através do turismo.

Aqui pensa-se a relação entre turismo e consumo, entendendo-se este último enquant o fenômeno e prática socialmente construída e reproduzida, onde se conectam predileções que tencionam a categorizá-lo enquanto cultura, estilo de vida, estilo de reprodução social, de construção de subjetividades e identidades (Douglas and Isherwood, 1979), de signo enquanto mercadoria (Bourdieu, 2005). Através do turismo, o indivíduo não consome meramente bens e serviços, mas, principalmente, experiências, caracterizando-se o consumo turístico, enquant o uma prática móvel e em latente transformação (Sonnenburg and Wee, 2015), que se dá pela iminente condição do encontro, em meio a imaginários turísticos, socialmente construídos e representados (Salazar, 2012).

À ideia de imaginário turístico, portanto, estão condicionadas questões relacionadas ao planeamento e gestão do território, em sua dimensão pública e privada, mas, principalmente, questões sociais e culturais. Em meio aos encontros e às consequentes negociações que perfazem as várias práticas turísticas experiências redefinem os espaços, dando-lhes novos sentidos, afinal, tais representações são latentes e, portanto, constantemente negociadas. Os lugares turísticos são promovidos e ressignificados de modo a atender à demandas de mercado, tanto materiais quanto simbólicas, sendo, para isso, investidos de discursos e práticas diversas. No caso da cidade e sua transformação em destino turístico, deve-se considerar as lógicas que lhe permitem ultrapassar a ideia de prática turística de evasão para o paradisíaco, tornando-se uma unidade de lugar que deve oferecer ao visitante uma oportunidade de lazer, entretenimento e descoberta do passado. Como referiu Luchiari (1998, p. 120), “ as cidades turísticas representam uma nova e extraordinária forma de urbanização, porque são

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organizadas não para a produção, como o foram as cidades industriais, mas para o consumo de bens, serviços e paisagens” .

Fig. 1: Vist a da Praça do Rossio. Lisboa, 2016. Fonte: Elza Andrade

Nesses termos, pensa-se a cidade de Lisboa, a capit al europeia planejada e promovida nos últimos anos para ser a capital mais cool da europa. Destaque-se que a cidade tem sido planejada e promovida, nos últimos anos, pelo poder público, por princípios deliberadamente mercadológicos, os quais podem ser reconhecidos no documento produzido pela Secretaria do Estado de Turismo de Portugal9, denominado “ Turismo 2020: cinco princípios para uma ambição” :

“ A ambição é clara: queremos ser o destino turístico mais ágil e dinâmico da Europa. O que é que isto representa? Representa uma aspiração de competitividade. Pretendemos situar Portugal entre os dez destinos turísticos mais competitivos do mundo nos próximos anos. E com essa competitividade queremos assegurar melhores condições de negócio e de emprego ao sector privado do turismo, verdadeiro motor do crescimento do sect or” (p. 6).

9 Port ugal é o 33.º país onde o t urismo e viagens mais pesa para a criação de riqueza; em 2015 915 mil empregos suport ados por est a indúst ria - 22% do

emprego em Port ugal repart ido ent re agências de viagens, hot éis, empresas de t ransport e (excet o t ransport e pendular), companhias aéreas e negócios de lazer e ent ret enim ent o para t urist as; em 2015, o t urismo e viagens t enha gerado 11,3 mil milhões de euros para o PIB (6,4% da riqueza). O valor deverá acelerar em 2016 para at ingir 14,6 mil milhões, ou seja mais 2,2%. Font e: World Travel & Tourism Council - WTT.

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O documento indica os princípios transversais a serem seguidos de modo a cumprir a meta fundamental a ser alcançada, “ o objetivo é figurar no t op -10 dos destinos mais competitivos a nível mundial” :

1. Um destino sustentável e de qualidade, onde crescimento turístico é compatível com a produção de benefícios para o território e as comunidades e onde o Estado, na preservação do território, deve saber cumprir o seu papel; 2. Um destino de empresas competitivas, onde um ambiente saudável para a iniciativa privada promove a concorrência e inovação na atividade turística; 3. Um destino empreendedor, facultado de todas as competências e conhecimento que lhe permita ser o país campeão do empreendedorismo turístico; 4. Um destino ligado ao M undo, onde a conectividade e a mobilidade dos turistas são ferramentas importantes na ativação da procura; 5. Um destino gerido de forma eficaz, onde a definição clara das competências de cada agente não deve ser um entrave à iniciativa privada, à exploração de sinergias e intensificação da transversalidade do turismo; 6. Um destino que marca, cujas estratégias de promoção e comercialização devem resultar de visões técnicas e não políticas no sentido de almejar a eficiência (p.8).

Portugal dispõe, desde 2007, de um Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT), aprovado pela Resolução do Conselho de M inistros n.º 53/ 2007, de 4 de abril, que foi desenvolvido para o horizonte temporal 2006-2015, e que foi objecto de duas revisões. O documento faz alusão ao contexto que deverá ser vivenciado entre 2016 e 2020, no que efetivamente reconhece que a atividade turística manter-se-á em acelerado crescimento a nível global, no que os destinos alternativos terão cada vez maior a nível global, no que os destinos turísticos alternativos deverão afirmar-se diante de uma crescente demanda competitiva. As preocupações dos agentes públicos são em sobremaneira mediadas por tensões de natureza mercadológica, afirmando a prática enquanto atividade econômica que mais cresce no país, que ainda sofre as consequências da crise econômica mundial, iniciada em 2008, nos Estados Unidos.

Tem-se que as representações dos turistas são o resultado de um mix de elementos (Richards, 1996), os quais passam pelas várias negociações presentes na intersubjetividade dos sujeitos. Pessoas, bens, lugares, tudo acaba, de certa forma, por ser imaginado. Nesse sentido, o “ ir” perpassa estratégias de fugir do cotidiano, numa busca por novas experiências, novos gostos, novos cheiros, novas cores, novos rostos. Nas representações associadas ao sentido de descoberta, que emergem da intersubjetividade das situações comunicacionais, são estabelecidas tipificações a respeito do outro e do lugar do outro. O turista, então, deseja, de

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certa maneira, apreender o outro. O lugar a ser visitado é construído previamente no âmago das percepções.

À ativação do “ destino Lisboa” , devem ser relacionadas orientações que lhe colocam num panorama global da atividade turística, ordenada por novas lógicas e novos modelos, que condiciona a cidade para além de um destino turístico mercadorizado, mas também considera as dinâmicas da capacidade de agência de todos os atores envolvidos na prática turística, mediados por novas tecnologias e acesso a transportes aéreos cada vez mais baratos. Assim, o olhar sobre o fenômeno turístico vai além do olhar em relação aos espaços e culturas como espaços de mera comercialização, no que vale a pena explorar o turismo como cultura emergente (Wee, 2015). A prática turísitica, portanto, deve ser categorizada enquanto unidade móvel de consumo, em que as variações de aspectos de mobilidades contribuem substancialmente para novas práticas e rituais de consumo.