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3.3 Élaboration de la topologie Dcluster : une combinaison de deux topologies

3.3.1 Présentation de la topologie proposée

3.3.2.2 Analyse expérimentale et comparaison avec d’autres topo-

Da narrativa do próprio navegador, fica-se a saber que se trata de um jovem de 22 anos de idade, quando sai da cidade de Veneza em 1454; ao serviço do Infante D. Henrique e com a incumbência de “saber partes” na costa ocidental de África, deixa o Cabo S. Vicente, numa caravela, da qual é patrão Vicente Dias, natural de Lagos, no dia 22 de Março de 1455; chega ao lugar de Budomel, na costa ocidental africana, e ali, encontra-se com duas caravelas, sendo uma de Antonieto Uso de Mar, genovês; em conserva e companhia, as três caravelas seguem para o Cabo Verde; viajam até ao “país de Gambra” e dali regressam ao Reino, ainda em 1455; no “ano seguinte”, portanto em 1456, partem novamente de Lagos Cadamosto e Antonieto Uso de Mar, cada um na sua caravela, em viajem para a costa ocidental de África.

Mas o que nos interessa da narração de Luís de Cadamosto é a parte na qual relata a descoberta das quatro ilhas orientais do Arquipélago de Cabo Verde, ou seja, Sal, Boavista, Maio e Santiago, na sua segunda viagem à Costa ocidental africana.Dessa provável descoberta, narra o navegador: “pelo que, no ano seguinte, o sobredito genovês e eu, de comum acordo, armámos, mais uma vez, duas caravelas, a fim de percorrer mais uma vez este grande rio. Tendo ouvido dizer o já nomeado senhor Infante […], que tínhamos tomado esta deliberação, muito lhe aprove; e armou uma caravela sua para que viesse em nossa companhia. Aprestada [esta] de todas as coisas necessárias, partimos de um lugar chamado Lagos, que fica junto ao Cabo de S. Vicente, no princípio do mês de Março, com vento próspero; e tomámos a volta de Canária, pelo que, em poucos dias houvemos vista de ela, Canária; [e] ajudando-nos o tempo, não tratámos de tocar nas ilhas; antes navegando sempre para o sul no seguimento da nossa viagem, [e] com a corrente das águas que muito puxavam para sudoeste, corremos muito. Por fim, chegámos ao cabo Branco; e havendo vista de esse cabo, fizémo-nos um pouco ao mar: e na noite seguinte houve um temporal de sudoeste, com vento violento; pelo que, para não tornar para trás, fizémo-nos na volta do oes-noroeste, salvo o erro, a fim de aparar e costear o tempo, duas noites com três dias. No terceiro dia houvemos vista de terra. Gritando todos terra, terra, muito nos admirámos, porque não sabíamos que naquela parte houvesse qualquer terra […]”.177

Relata ainda Cadamosto que mandou dois homens subir ao mastro, que descobriram mais “duas grandes ilhas”.178 Aportando a uma delas, mandou marinheiros à terra que a encontraram desabitada, “[…] a não ser por enorme quantidade de pombos, os quais se deixavam apanhar à mão, não sabendo que coisa fosse o homem; deles nos trouxeram às caravelas muitos, que com paus e cacetes haviam apanhado. E, do alto, houveram vista de três outras grandes ilhas, das quais não havíamos vista, pois que uma nos ficava a sotavento, pela

177 PERES, … – Viagens …, p. 157. 178 PERES, … – Viagens …, p. 157.

parte do norte, e as outras duas estavam encarreiradas uma com a outra, na direcção do sul, sobre nosso caminho, e cada qual à vista uma da outra”.179

E mais à frente acrescenta: “Também lhes pareceu ver, para a parte do poente, muito ao mar, outras ilhas; mas não se distinguiam bem por causa da muita distância”.180 De acordo ainda com o relato do próprio Cadamosto, partiram da primeira ilha que aportaram e, correndo ao longo da costa de uma das duas ao Sul, fundearam na desembocadura de um rio, que pelas descrições de Cadamosto se trata da Ribeira Grande de Santiago.181 À primeira ilha que aportou deu o nome de “Boa Vista, por ter sido a primeira vista de terra naquelas partes”, e à outra, que lhe pareceu maior, deu o nome de “Santiago”, porque as aportou no dia de S. Filipe e S. Tiago.182

Para nós o documento de Luís de Cadamosto é importante para o tratamento do problema do descobrimento das ilhas orientais de Cabo Verde, nomeadamente da ilha da Boavista. Cadamosto era um jovem veneziano mais preocupado em enriquecer-se do que granjear fama, pois, vivera graves privações económicas quando criança, após o pai ter sido condenado por fraude contra o Estado e exilado. Antes de chegar a Portugal, já tinha realizado várias viagens pelo Mediterrâneo e Atlântico Norte, dedicando-se ao comércio.183 Sobre esta facete de Cadamosto, no Dicionário da História dos Descobrimentos Portugueses ressalta-se que “para um homem como Alvise, a profissão de mercador une-se estreitamente às suas exigências e aspirações. Para Da Mosto, viajar significa conhecer e ‘experimentar mais coisas’, mas também comerciar”.184 Nestas circunstâncias, é portanto absolutamente normal, como se nota no referido dicionário, que Cadamosto tenha dedicado pouco espaço às ilhas de Cabo Verde na sua “Navegação II”, por serem apenas um ponto de passagem não muito importante para o veneziano, mais interessado na Costa da Guiné, onde os lucros com o comércio eram os seus objectivos prioritários.185 Da importância das suas relações de viagens, é ainda opinião expressa no referido dicionário: “as Navigazioni de Alvise da Mosto, pela riqueza dos dados geográficos fornecidos, pela descrição das costas, da fauna, da flora e dos povos africanos, constituem um documento de grande importância na tradição da literatura de viagens”.186 E acrescenta-se de seguida: “a ‘Navegação I’ refere- se à expedição em África, começada em Março de 1455, atingindo a voz do rio Gâmbia. Esta parte é a mais rica, no que diz respeito ao material informativo,

179 PERES, … – Viagens …, p. 158. 180 PERES, … – Viagens …, p. 159. 181 PERES, … – Viagens …, p. 159.

182 PERES, … – Viagens …, p. 160. Note-se que Armando Cortesão supõe que Cadamosto

chamou Isola di Buona Vista “talvez por que do topo duma sua montanha puderam avistar pelo menos três outras ilhas, à maior das quais chamaram Isola di San Jacobo – nome que Cadamosto naturalmente escreveu em italiano” (CORTESÃO, … – Descobrimento …, p. 239). Observe-se que, na sua Navigazioni, como vimos, Cadamosto, apresenta outro motivo, e repetimo-lo: “por ter sido a primeira vista de terra naquelas partes”.

183 SERRÃO, … – Dicionário …, p. 425.

184 ALBUQUERQUE, Luís de (Direcção de) – “Dicionário de História dos Descobrimentos

Portugueses”. Vol I. Lisboa: Caminho, 1994, p. 157.

185 ALBUQUERQUE, … – Dicionário …, p. 156. 186 ALBUQUERQUE, … – Dicionário …, p.156.

pois nela ressalta a grande capacidade de Alvise em atender a objectivos económicos e a sua curiosidade descritiva, tornando o texto rico de anotações interessantes. A ‘Navegação II’ refere-se à viagem que Alvise, em companhia de Antoniotto Usodimare, nobre genovês encontrado no Senegal, realiza no ano seguinte. Durante esta viagem descobrem-se, por ventura, as ilhas de Cabo Verde, das quais Alvise, com Diogo Gomes e António da Noli, é um dos pretensos descobridores”.187

Nas suas pretensões, Luís de Cadamosto é entretanto contestado e tido como vaidoso e impostor, por uns, e aceiteo por outros. Para nós, todavia, a própria veemência das refutações de Cadamosto como descobridor das ilhas orientais do Arquipélago de Cabo Verde constitui um testemunho da força das suas afirmações. Note-se que, até aos meados do século XIX, Luís de Cadamosto era tido como o descobridor mais provável das ilhas orientais de Cabo Verde.188 Porém, com a publicação da obra de José Joaquim Lopes de Lima, em 1844,189 as opiniões começaram a divergir e até hoje não se chegou a um consenso, nem quanto à autoria nem quanto à data da descoberta dessas ilhas. Vejamos os contra, começando pelo testemunho de Lopes de Lima.

José Joaquim Lopes de Lima, com efeito, contesta a veracidade da autoria dos descobrimentos das ilhas do Sal, Boavista, Maio e Santiago por Luís de Cadamosto, apresentando os seguintes argumentos:190 1º) Que as viagens de Luís de Cadamosto à Costa ocidental africana não se realizaram, respectivamente, em 1445 e 1446; 2º) Que Cadamosto não foi à descoberta de Cabo Verde na companhia de António de Noli; 3º) Acha improvável, se as ilhas tivessem sido descobertas em 1456, que o Infante D. Henrique não as mandasse povoar antes da sua morte, em 1460; 4º) Considera o 1º capítulo da segunda navegação de Cadamosto cheio de erros, de contradições e de incoerências, o que o leva a concluir que o navegador nunca esteve em nenhuma das ilhas de Cabo Verde; 5º) Cadamosto não podia ter descoberto essas ilhas no dia 1º de Maio, se partiu nesse mesmo dia de Lagos, Portugal; 6º) A caravela de Cadamosto, achando-se no mar de Cabo Branco, a quatro graus e meio ao Norte da ilha da Boavista e tendo sido assaltado por um violentíssimo temporal de sudoeste que o fez correr a oesnoroeste, de nenhum modo poderia ter avistado em três dias a referida ilha, pois ela lhe demorava 100 léguas ao sudoeste, exactamente donde soprava o vento; 7º) Não é possível avistar de qualquer ponto alto da ilha da Boavista, a ilha de Santiago, e mesmo da ilha do

187 ALBUQUERQUE, … – Dicionário …, p.156.

188 Ver PEREIRA, Esteves; RODRIGUES, Guilherme (redigido por) – “Diccionario Histórico

Chorographico, Heráldico, Biographico, Bibliographico, Numismático e Artistico”. Vol. II. Lisboa: João Ramos Torres-Editores, 1904, p. 563.

189 Cf. LIMA, José Joaquim Lopes de – Ensaios sobre a statistica das ilhas de Cabo Verde no

mar Atlântico e suas dependências na Guiné Portugueza ao Norte do Equador”. In “Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e oriental; na Ásia occidental; na China, e na Oceânia”: Lisboa: Imprensa Nacional, 1844.

190 LIMA, José Joaquim Lopes de – “Ensaios sobre a statistica das ilhas de Cabo Verde no mar

Atlântico e suas dependências na Guiné Portugueza ao Norte do Equador”. Livro I, PARTE II. In “Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e oriental; na Ásia occidental; na China, e na Oceânia”: Lisboa: Imprensa Nacional, 1844, p. 3-7.

Maio, mais próxima da Boavista, “apenas se divisa a sombra em tempo mui claro”. E da ilha de S. Nicolau, no poente e considerada “quasi tão longe como S. Thiago” em relação à da Boavista, não poderia ser avistada pelos “exploradores da Boavista”; 8º) Termina Joaquim José Lopes de Lima o rol dos seus argumentos, e com muita ironia, afirmando categoricamente que, não existindo qualquer rio nas ilhas de Cabo Verde mas sim riachos, onde é impossível “nadar” mesmo uma pequena canoa, nenhum “Navio de setenta e cinco toneladas” poderia ter “entrado” no “Rio grande, e largo d’agoa doce” aludido por Cadamosto”. Da mesma forma, nega qualquer possibilidade a Cadamosto de ele ter achado “deliciosas lagoas de sal branquíssimo e bello” no hipotético “rio”, pois, na realidade, segundo o articulista, não existe sal em Santiago.

Os argumentos de José Joaquim Lopes de Lima contra a provável autoria de Luís de Cadamosto como descobridor das ilhas orientais do Arquipélago de Cabo Verde têm sido retomados, por vários historiadores, maior parte das vezes para os apoiar, sendo um dos mais vigorosos Christiano José de Senna Barcellos que, do nosso ponto de vista, se limita a repetir os argumentos de Lopes de Lima.191

Pensamos, com efeito, que Joaquim José Lopes de Lima e seus seguidores acabam mais por tentar enxovalhar injustamente Luís de Cadamosto, do que por apresentar argumentos documentados e irrefutáveis contra as pretensões do navegador veneziano. Ora, insistir por exemplo, nos lapsos identificáveis no texto de Cadamosto para negar a sua autoria dos descobrimentos das ilhas orientais, incluindo a da Boavista, é quanto a nós um erro, pois raras são as relações de viagens, mesmo as coevas, que sejam isentas de erros, de contradições e de incoerências. Aliás, este é o óbice das tentativas de explicação da maioria das hipóteses e opiniões em torno do problema dos descobrimentos portugueses.

Tentaremos, de seguida, desmontar ponto por ponto os argumentos de Lopes de Lima, por nos parecerem sem base de sustentação. Vejamos.

1º) Sobre a data, de acordo com Lopes de Lima, que não condiz com a indicada na narrativa de Luís de Cadamosto, editada pela Academia Portuguesa da História, eis os nossos comentários: como relata o próprio Cadamosto, para a sua primeira viagem ele partiu de Lagos no dia 22 de Março de 1455,192 e para a segunda, no princípio de Março de 1456.193 Note-se que a edição da Academia Real das Sciencias aceita, por influência de Damião de Góis, as datas de 1445 e

191 BARCELLOS, Christiano José de Senna – “Subsídios para a história de Cabo Verde e

Guiné”. 2ª ed. Vol. I, Partes I e II (Apresentação, Notas e Comentários de Daniel Pereira). Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2003, p. 21-42.

192 PERES, … – VIAGENS DE LUÍS DE CADAMOSTO E DE PEDRO DE SINTRA”. Lisboa:

Academia Portuguesa da História, MCMLXXXVIII. II PARTE, p. 90.

193 PERES, Damião (Notas Históricas de) – “VIAGENS DE LUÍS DE CADAMOSTO E DE

PEDRO DE SINTRA”. Lisboa: Academia Portuguesa da História, MCMLXXXVIII. II PARTE, p. 157.

1446.194 Observe-se que as datas indicadas por Góis são porém, corrigidas pelo próprio Joaquim José Lopes de Lima, que cita Tiraboschi e Ramusio, para 1455 e 1456, respeitantes às duas viagens de Cadamosto para a costa ocidental de África.195 Neste ponto, quem é contraditório? Portanto, do nosso ponto de vista, o argumento das datas é de rejeitar. 2º) Vimos atrás que Cadamosto narra que em 1456 partem novamente de Lagos, ele e um tal Antonioto Uso de Mar, genovês, cada um na sua caravela, em viajem para a costa ocidental de África. Narra também que por altura do Cabo Branco, por causa de uma tempestade, se afastou da caravela de Uso de Mar e que foi durante este acidente que descobriu as ilhas orientais do arquipélago de Cabo Verde. Em momento algum, portanto, diz Cadamosto que avistou essas ilhas na companhia de Antonieto Uso de Mar, confundido com António de Noli, por sugestão de Amat di S. Filippo e defendido por Oliveira Boléo, aliás, confusão desfeita por aquele, há muitos anos.196 Por outro lado, Th. Monod, R. Mauny e G. Duval identificam dois nomes diferentes, Antonieto Uso de Mar e António de Noli, embora ambos usassem o mesmo prenome, “António”, fossem genoveses, navegassem para a Guiné e estivessem envolvidos na descoberta das ilhas de Cabo Verde.197 Fica assim demonstrado que, neste ponto, Lopes de Lima tem razão, enquanto não a terá quando imputa a Cadamosto a afirmação de que viajara emparceirado com António de Noli. 3º) Quanto a este ponto, somos a entender que não chega a ser um argumento válido, na medida em que os quatro anos que medeiam entre 1456 (provavelmente Março) a Dezembro de 1460 são irrisórios, se interpostos: primeiro, ao capital tempo que era necessário para o conhecimento e exploração da costa ocidental africana; segundo, às preocupações do Infante D. Henrique e das classes de mercadores e de comerciantes, que tinham fortes interesses nas razias de escravos e no comércio de ouro e especiarias africanas, nomeadamente a malagueta. Acresce, por um lado, que só eram descobertas as quatro ilhas orientais e, por outro, nessa altura elas não eram atractivas, nem como lugar de captura de escravos, pois eram desabitadas, nem como produtor de ouro e de especiarias que não possuía. Neste aspecto, quer o Infante D. Henrique quer os navegadores, quer sobretudo os mercadores, estavam mais empenhados no tráfico de escravos, ouro e malagueta através de Arguim e das regiões do Senegal. Por outro lado, diz Vitorino Magalhães Godinho que “não está provado que D. Henrique vivesse obcecado pelo sonho de descobrir e colonizar; antes, pelo contrário, [...], a sua acção é intermitente e frouxa, por exemplo no povoamento dos Açores”.198 Neste sentido, Orlando Ribeiro é mais explícito, quando dá o exemplo da Madeira, ocupada provavelmente em 1419 mas que começa a se organizar cerca de 1425 e recebe a sua primeira carta de

194 “Collecção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas, que vivem nos

Domínios Portuguezes, ou lhes são visinhas”. TOMO II, №s I e II. Lisboa: Academia Real das Sciencias, 1812, p. XIII-XIV.

195 LIMA, … – Ensaios sobre a statistica …, p. 3.

196 Citados por PERES, … – VIAGENS ..., III PARTE, NOTA V, p. 193-194.

197 MONOD, Th.; MAUNY, R.; DUVAL, G. (Organização e notas de) – “De la première

découverte da la Guinée”. Bissau : Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, 1959, Nota № 81, p. 67-70.

capitania apenas em 1450; no caso dos Açores, embora o grupo ocidental e central das suas ilhas estivessem reconhecidas desde 1439, a organização da capitania, para que foram tomadas como modelo as cartas da Madeira, só foi uniformizada em 1474, embora em diplomas anteriores se façam doações de várias ilhas a diferentes personagens.199 4º) De uma maneira geral, erros, contradições e incoerências constituem um denominador comum à maioria dos relatos de viagens da época dos descobrimentos, o que não justifica, entretanto, anular ou preterir este ou aquele relato, pois todos nos fornecem informações preciosas e o cruzamento das informações que cada um fornece é de extrema importância para a compreensão da história da referida época. As próprias informações de Lopes de Lima, contidas no seu “Ensaios” em apreço, ora não são isentas ora pecam pela fantasia ora ainda por um certo espírito racista, como se depreenderá da nota de roda-pé.200 Nem por isso, o texto de Lopes de Lima, do nosso ponto de vista, deixa de ser uma obra de consulta obrigatória para quem se ocupa da história das ilhas de Cabo Verde, não só pelas informações que contém mas também pelo respeito que merece de todos quantos a queiram ou simplesmente desejem consultar. 5º) Claro que Cadamosto não poderia ter descoberto essas ilhas no dia 1º de Maio, se tivesse partido nesse mesmo dia de Portugal. Com efeito, como vimos atrás, o navegador, na sua segunda viagem, partiu “de um lugar chamado Lagos, que fica junto ao Cabo de S. Vicente, no princípio do mês de Março, com vento próspero”, o que foi oo ano de 1456, portanto, entre 38 a 39 dias antes de ter avistado uma das ilhas orientais do Arquipélago de Cabo Verde, e não no dia 1º de Maio do mesmo ano.201 6º) Este argumento de Lopes de Lima é também discutível, pois a afirmação de Cadamosto de que “pelo que, para não tornar atrás, fizémo-nos na volta de oes-noroeste” é seguida da expressão “salvo erro”,202 o que impede uma interpretação taxativa ou absoluta. Por outro lado, o navegador veneziano utilizou a “caravela”, substituta da barca e do varinel, que era um tipo de navio que, por volta de 1441, “[…] aproveitava melhor o vento, permitindo navegar com o de través, até mesmo quando sensivelmente de proa; com tais características, este navio tornou possível novos grandes avanços, para o sul, assegurando maior facilidade às viagens de retorno, visto que o seu

199 RIBEIRO, Orlando – “Aspectos e Problemas da Expansão Portuguesa”. Estudos das Ciências

Sociais e Políticas, № 59. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1962, Roda-Pé № 4, p.

134.

200 Enquanto “Capitão de Fragata da Real Armada”, José Joaquim Lopes de Lima teve a

oportunidade de percorrer quase todas as Possessões do Ultramar português. A obra em análise foi-lhe encomendada, como ele mesmo afirma já no título: “Escriptos de ordem do Governo de Sua Magestade Fidelíssima a Senhora D. Maria II”. Infelizmente, era daqueles que, ainda em meados do século XIX, não escondiam o seu espírito racista e se referiam ao Outro como “povos çafaros, ou semi-civilizados”, como dizia o próprio Lopes de Lima. Lopes de Lima exclui, como fonte da sua obra, os relatos dos escritores estrangeiros, pelo contrário, se atem apenas aos nacionais que escreveram sobre as colónias, ignorando veemente “essas viagens românticas de Estrangeiros improvisados, que menos curam de vêr bem, e relatar a verdade do que viram, do que de excitar o interesse da gente d’espirito pelo lado do ridículo exaggerado, ou do maravilhos”.

201 PERES, … – VIAGENS …, p. 157.

uso permitiu evitar o moroso e difícil bordejar das torna-viagens, originando a prática do regresso por meio da depois chamada volta da Guiné, rota traçada em afastamento pelo mar largo, a contornar o Nordeste, o alísio do Atlântico setentrional que sopra das Canárias para sul, e que gradualmente inflectida para norte, ia atingir as vizinhanças das águas açorianas, donde era fácil velejar para Portugal com auxílio dos ventos gerais de Oeste, dominantes em tais paragens”.203

Ora, pelas viagens que já tinha feito, não se tratava de um navegador

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