O estudo da nova economia institucional (NEI) é enriquecido pelas críticas das escolas sociológicas, especialmente a cognitiva, criando uma sinergia positiva para o aprofundamento de temas relacionados à teoria organizacional e também do contrato, pois indicam alguns caminhos possíveis para compreender melhor elementos relacionais e cognitivos, não apenas os normativos.
Porém, não existe um consenso entre as várias ciências sociais, sejam elas: econômica, política, sociológica ou jurídica, sobre o que orienta as mudanças das “regras do jogo”. Por este motivo, algumas escolas, como a da nova economia institucional (NEI) relacionada à economia dos custos de transação, tomam o ambiente institucional como dado.
A própria diversidade das diferentes perspectivas contemporâneas sobre a análise organizacional e suas teorias derivadas: ecologia das populações, dependência de recursos, contingência estrutural nova economia institucional e novo institucionalismo (SACOMANO NETO; TRUZZI, 2002); tornam a análise organizacional e suas inter-relações extremamente dependentes do ambiente institucional, seja de maneira dinâmica ou estática.
A visão dinâmica das instituições é utilizada na abordagem da teoria de dependência de recursos, sendo a abordagem estática das instituições, ambiente institucional dado, muito comuns nas abordagens da capacidade adaptativa das organizações dentro da teoria da ecologia das populações e da NEI.
A diversidade de interpretações das instituições, ora supersocializada pela influência das instituições sobre o indivíduo, presentes nos estudos da velha escola, ora subsocializada pela importância dada ao indivíduo (pressupostos comportamentais) na construção de teorias explicativas e das instituições, presentes na nova escola institucionalista econômica, traz consigo críticas pontuais importantes, especialmente da sociologia econômica, como verificado por Mark Granovetter (1985).
O problema de imersão ou embeddeness (GRANOVETTER, 1985), se contrapõe tanto aos pressupostos da escola econômica, que invariavelmente é subsocializada, quanto à sociológica, que é supersocializada; e argumenta que o comportamento dos indivíduos e as próprias instituições não são independentes das relações sociais, ou seja, há um importante enraizamento das decisões dos indivíduos, das firmas e também das próprias instituições ao meio social.
Tanto o velho quanto o novo institucionalismo não convergem nas interpretações sobre a ação econômica e a estrutura social, a dicotomia entre vida econômica e relação social continua
30 nas diferentes escolas institucionalistas, pois há diferenças metodológicas na interpretação da relação causa-efeito e dos diferentes fenômenos analisados.
Os pressupostos comportamentais, mesmo do homem contratual, geram uma forte crítica da sociologia econômica ao pensamento de Williamson (1985), pois a racionalidade e o oportunismo criam uma visão subsocializada da realidade econômica institucional e não enraizada em determinados meios sociais (GRANOVETTER, 1985) e que não leva em consideração, por exemplo, o comportamento altruísta.
Apesar da crítica aos pressupostos comportamentais e a tradição econômica dos princípios norteadores para a geração de modelos explicativos da economia, sendo a busca pela eficiência um deles, devem ser levados em consideração os diferentes métodos utilizados pelas duas ciências: social e econômica.
Enquanto a ciência social prima por metodologias descritivas do objeto e este representa uma realidade específica de um determinado local, região ou país; as metodologias utilizadas nas ciências econômicas procuram encontrar alguns princípios pelos quais os agentes tomam decisões e como estas influenciam as organizações e sua busca por melhorar a eficiência da firma.
A tradição econômica ortodoxa (clássica e neoclássica), diferente das escolas heterodoxas (entre estas a NEI), parte de análises mais funcionalistas do objeto de pesquisa, em detrimento à estruturalista, esta última fortemente presente na sociologia.
Mesmo havendo algumas diferenças epistemológicas, as duas grandes áreas de estudo e pesquisa da teoria organizacional, nova economia institucional e sociologia econômica, procuram convergir na tentativa de compreender o fenômeno das relações entre organizações: inter-organizacional.
A nova economia institucional (NEI) dá ênfase a análises a partir do ambiente institucional sobre o objeto de pesquisa, identificando o problema econômico derivados dessa interação e tentando buscar possíveis soluções a partir da conjuntura e dos outros ambientes: tecnológico, organizacional e competitivo (SAES; FARINA, 1999).
A busca por encontrar e gerar teorias explicativas, racionais, sobre um determinado fenômeno econômico ou um problema, a partir de uma ordem lógica de causa-efeito, é uma característica inerente a teoria econômica, seja institucional ou clássica. Ao identificar alguns acontecimentos no tempo presente e indicar possíveis causas deste problema, acabam por gerar expectativas do que poderá ocorrer no futuro se alguma melhoria for implementada.
Na teoria econômica é comum a construção de hipóteses explicativas para identificar a possível causa do problema verificado, por isso, predizer o comportamento humano se torna
31 importante, porque é através desses pressupostos comportamentais que são gerados os modelos e tipos ideais, utilizados nos prognósticos sobre o futuro, baseando-se nas próprias expectativas dos agentes econômicos.
As pesquisas na área econômica, ao fazerem prognóstico e recomendações presentes procuram antecipar um eventual resultado futuro, na perspectiva das próprias expectativas geradas pelos agentes, deixando uma possível janela de opções para ações presentes.
Este tipo de abordagem gerencial da economia se assemelha muito a do direito (ZYLBERZTAJN; SZTAJN et.al., 2005a), pois as duas ciências tentam antecipar contingenciamentos e problemas futuros, riscos e incertezas, baseados em teorias e pressupostos comportamentais, para que os mesmos possam orientar as ações no momento presente.
Há uma tentativa de construção de modelos ideais nas escolas de tradição econômica (HIRSCH et.al., 1987), rumo a uma sociedade mais eficiente, ou seja, racional na utilização de recursos escassos e cada vez mais eficaz na melhoria do padrão e na qualidade de vida dos indivíduos.
A sociologia econômica, assim como na economia comportamental, dá ênfase à estruturação e à construção social do objeto. Estudá-lo demanda uma forte dose de aprofundamento das relações sociais, da cultura e das características do campo analisado (BOURDIEU, 2005), por isso a ciência social e econômica se complementam na tentativa de descrever o objeto de pesquisa, incorrendo aí na criação de modelos mais complexos e menos parametrizados, difíceis de serem replicados facilmente ou generalizados (HIRSCH et.al., 1987).
A nova economia institucional (NEI), sem abrir mão da busca pela melhoria da firma e sua eficiência, procura encontrar soluções mais abertas e reais do objeto de pesquisa, especialmente sofrendo influência direta das ciências sociais e do direito, e seus principais pensadores e críticas.
O surgimento das várias correntes de análise econômica institucional, categorizadas como heterodoxas, contém na sua essência a influência tanto da sociologia econômica quanto da escola racionalista econômica, o que irá direcionar uma série diversa de estudos e pesquisas científicas, dependendo do programa. Há distinção também dos vários pensadores considerados neoinstitucionalistas, que se subdividem em escolas das ciências: econômica, política e sociológica (HALL; TAYLOR, 1996).
Dentre as distintas correntes teóricas e escolas ligadas ao pensamento institucionalista presentes nesta tese é possível destacar três: a econômica, a sociológica e a do direito; pois existe um grau de interdependência analítica entre as três, porém com mais ênfase à corrente econômica da nova economia institucional de Williansom (1979, 1981, 1985, 1991, 1996).
32 A sociologia econômica e o direito asseguram um plano conceitual, e por vezes crítico, necessários para a correta análise do objeto de pesquisa em suas distintas dimensões, neste caso, a análise do contrato de compra e venda.
A análise é feita sob a ótica da nova economia institucional (NEI) e dos custos de transação, porém há necessidade de uma metodologia empírica e descritiva, na construção histórica do contrato de compra e venda de laranja e sua negociação, desenho, adaptação ao longo do tempo, bem como a manutenção ligada aos enforcements internos e externos à transação.
O contrato, sendo uma forma híbrida de governança, pode ser entendido como um elemento de conexão (vínculo) e um filtro institucional entre dois ou mais agentes, sendo sua análise dependente da verificação dos deveres e direitos das partes e do próprio enraizamento social deste mecanismo de coordenação bilateral e multilateral.
Sendo assim, o contrato possui diferentes faces sob a ótica do direito e da nova economia institucional, além do seu enraizamento social, e deveria levar à melhoria organizacional dos atores envolvidos e a uma estabilidade nas relações transacionais bilaterais.
A busca pela melhoria das organizações a partir do contrato, sendo isso observado através da evolução e crescimento da firma, é elemento importante na análise organizacional, pois representa a tentativa de compreender o sucesso ou insucesso dos arranjos institucionais específicos utilizados e sua evolução ao longo do tempo.
A importância do entendimento da firma e suas particularidades se amplia nos estudos e teorias ligadas a nova economia institucional, para além de sua fronteira física e produtiva, atingindo suas relações bilaterais ou transações, representadas pelo nexo contratual estabelecido e as relações interorganizacionais.
No ponto seguinte, são descritas as escolas do pensamento econômico que se ligam conceitualmente na melhor interpretação do fenômeno de estruturação e melhoria da firma, para além de sua fronteira física, observando suas relações para depois compreender a governança híbrida contratual e suas características norteadoras.