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2.1 CULTURE ET PROCESSUS INTERPRETATIVE EN LANGUE ETRANGERE

3.4.1 Hip-Hop

Denis Angola, de Maceió, disse: “Foi com o rapper GOG que eu aprendi que podia fazer arte e militância”. (Denis Angola, conversa informal de 5 de ago. de 2013) Como vimos, o movimento hip-hop foi fundamental para dar as primeiras direções de onde organizar um encontro de jovens negros, dispondo de militantes de vários lugares do Brasil. Contudo, há outra condição pela qual ele foi apropriado, as letras de rap. A tematização da violência contra jovens negros veio acompanhada de uma construção subjetiva da identidade dessas pessoas, o que forneceu um repertório interpretativo da condição de subalterno, apontando para a emancipação desses sujeitos e permitindo aliar jovens negros e pobres das periferias.

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En la zona del no-ser, inflar y construir identidades y epistemologías fuertes con metanarrativas sólidas es necesario en el proceso de reconstrucción y descolonización. Reconstruir identidades y epistemologías fuertes es un requisito para reconstruir en la zona del no-ser lo que la colonialidad ha destruido y reducido a la inferioridad a través de siglos de expansión colonial europea. Muchos posmodernos, posestructuralistas e, incluso, marxistas aplican de manera reaccionaria el método del antiesencialismo radical contra los pueblos indígenas, aborígenes, afros, inmigrantes del sur, ciudadanos no-occidentales y otros sujetos coloniales que producen metanarrativas descoloniales desde la zona del no-ser. La izquierda occidentalizada con su antiesencialismo radical, en lugar de traducir las propuestas, visiones y concepciones de los sujetos coloniales, las descalifican. Estos métodos de la izquierda occidentalizada terminan siendo cómplices con el racismo colonial histórico de hacer inferior el conocimiento y las epistemologías producidas por los sujetos coloniales. Después de siglos de epistemologías, conocimientos e identidades destruidas, la descolonización en la zona del no-ser pasa por un proceso necesario de reconstrucción de sus propios pensamientos e identidades. La izquierda occidentalizada tiene dificultades para entender estos procesos. El antiesencialismo radical de la izquierda occidentalizada se ha convertido hoy día en un instrumento de silenciamiento colonial, de inferioridad epistemológica y de subestimación política de las voces críticas que producen conocimiento desde la zona del no-ser (GROSFOGUEL, 2011, p. 106-107).

Constam das letras de rap noções que correspondem ao que encontramos em nossos interlocutores. A ideia de falar por si mesmo e tomar para si a resolução de seus próprios problemas utilizada por jovens negros está em letras de canções identificadas com a juventude negra, como a de “Pânico na Zona Sul”:

Nós estamos sós/ Ninguém quer ouvir a nossa voz (...)/ - “Ei, Brown, qual será a nossa atitude?”/ “A mudança estará em nossa consciência/ Praticando nossos atos com coerência/ E a consequência será o fim do próprio medo/ Pois quem gosta de nós somos nós mesmos” (Pânico na Zona Sul, Racionais MC’s).

Existe legitimidade na exposição de problemas sociais apenas quando o sujeito que se identifica como vítima os torna públicos, por intermédio de sua própria voz e de uma autorrepresentação. Essa ideia diz respeito ao protagonismo, noção presente no rap, algo que podemos ver na letra da música "Voz ativa", de Racionais MC's: "A juventude negra agora tem voz ativa (ver anexo B). Portanto, para debater a dimensão do protagonismo da juventude negra, é preciso adicionar aos elementos autoria de projeto e ações a condição de falar por si mesmo, de ter voz própria e de poder se autorrepresentar.

Durante a disputa eleitoral para a prefeitura de São Paulo, Ice Blue, do grupo paulista de rap Racionais MC’s, apareceu em um vídeo do então candidato Fernando Haddad, ao lado de outros artistas, como Netinho de Paula, Arismar do Espírito Santo, Leandro Lehart, Helião, Kamau, Grupo Negredo, Emicida e seu irmão caçula, Evandro Fióti, ligados ao samba e ao rap. Ele disse: “O rap é um movimento que ainda continua sendo discriminado e

100 marginalizado... Mas isso foi o que mudou a cidade de São Paulo, foi o rap que devolveu o orgulho ao jovem negro de São Paulo33.”

Em outro vídeo disponível na internet (no canal da TV Cultura no YouTube), um integrante do DMN, Eli Efi, e Mano Brown fazem um balanço dos anos de rap desde o início: “Nosso trampo era esse, né?, fazer música e fazer política... que é o que a gente faz até hoje34.”

Outro integrante do DMN, Markão, descreve como ele via o papel político do hip- hop:

Num primeiro momento, a gente começou a denunciar porque estávamos cansados de ver isso no nosso cotidiano, e com o passar do tempo a gente também entendeu que não era do pânico cotidiano da periferia, através de vídeos como do Public Enemy [...]. E com o passar do tempo a gente viu que não era só uma questão de a gente morar na periferia, a gente viu que era uma questão de a gente ser preto também. Então, o nosso discurso, ele ficou mais ferrenho ainda! Errado em dobro, porque levava em conta a nossa cor [além de ser de periferia]. Era uma maneira também de salvaguardar a nossa vida. Aí a gente falou: “Chega! Vocês bateram de frente até agora, vocês vieram pra cima até agora, e a gente está se preparando para combater. Por enquanto vocês têm a arma, e a gente tem o microfone; a gente tá formando uma rede fudida e a gente vai pra cima.”

[Paulo César: Se vocês denunciam, quem propõe?]

O que a gente visualizava, até por uma questão de respeito, era que quem podia... A gente tinha uma informação que era só a gente que tinha, porque era a gente que estava vivendo. Mas o que a gente entendia, quem podia sistematizar estas informações e transformar isso em propostas concretas era o movimento negro e alguns partidos políticos. A gente era o megafone. (Markão, entrevista cedida em 2 de set. de 2013, São Paulo-SP)

Se eu pudesse destacar uma diferença entre o que Markão descreve e os dias de hoje, seria a não mais separação entre propor e denunciar. Atualmente, pelos relatos, militantes do hip-hop (como o próprio Markão) estão atuando na universidade, nos poderes constituídos, como assessores ou mandatários (Anderson 4P Silva, de Francisco Morato, é um exemplo). Essa é a ideia de protagonismo, ser quem discute e defini as próprias diretrizes coletivas.

[Paulo César: O movimento negro tem conseguido elaborar propostas? O que ele conseguiu elaborar?]

A única que o movimento negro conseguiu fazer foi abrir um pouco de espaço para que estes jovens pudessem dar o seu “pitaco”. Agora, o encaminhamento destas propostas, a cobrança para que esta questão, para que a mortalidade da juventude negra possa ser de fato discutida e combatida está muito nas costas da juventude negra que se mobiliza, ou através das entidades que começaram surgir ou através desta juventude que está ligada a alguns partidos, que acabam mesmo com pouco

33 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yrOmMozAwBA>. Acesso em: 2 jan. 2014. 34 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=qw8rXsBukVw>. Acesso em: 2 jan. 2014.

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espaço, reivindicando... A juventude que está ligada ao movimento hip-hop, aos diversos movimentos sociais da periferia. (Markão, entrevista cedida em 2 de setembro de 2013, São Paulo-SP)

Tanto a dimensão organizativa quanto a subjetiva compõe o repertório de ação comum que o hip-hop propõe para os jovens negros. Conhecer a si mesmo também era uma questão (conhecer “as nossas questões” como parte do “sentir-me humano”), ao lado de uma construção coletiva que cuidasse de seus próprios problemas, como dizia a abertura do álbum Raio-X do Brasil, de 1993, dos Racionais MC’s: “Você está entrando no mundo da informação, autoconhecimento, denúncia e diversão. Esse é o raio-X do Brasil, seja bem- vindo.”

3.4.2 África e diáspora

As referências à cultura e aos pensadores do continente africano também são uma das características dessa militância. Uma evidência disso é a adoção de nomes sociais como Latoya, Zimbwe, Nkosi, Al-amin em substituição aos de batismo ou em composição com estes. Essa referência também é um elemento que encerra a ponte semântica em relação a gerações anteriores, por condicionarem uma tradição com a ancestralidade comum.

Pensadores como Stive Biko estão presentes em na seguinte frase a respeito da tarefa de falar por si mesmo e da mobilização sobre vítimas: “Estamos por nossa própria conta.” A foto da feminista negra Angela Davis estampa a marca do ENJUNE e do Fórum de Juventude Negra. Nela, Angela tem aparência jovem e ostenta um peteado black power, com o mapa do continente africano ao fundo.

102 Figura 3 – Marca do I ENJUNE

Fonte: Relatório Nacional do ENJUNE

A definição de juventude que encontramos no relatório do I ENJUNE tem vários elementos (ENJUNE, 2007, p. 6, 10, 15, 44, 67) e fundamenta a condição política plural: “A opção pelo perfil afrocentrado, suprapartidário e sem vínculos religiosos.” No site35, há o crédito de seu surgimento à ação histórica do movimento negro.

A juventude negra organizada, fruto da ação histórica do movimento negro e já parte deste, vem construindo suas alternativas na luta antirracista e pela promoção da igualdade étnico/racial de oportunidades. A cultura hip-hop, os grupos culturais, a capoeira, as manifestações regionais, os coletivos de estudantes, entre outros grupos organizados; atuam como um amplo movimento que, mostrando capacidade de organização, tem mobilizado os (as) jovens negros e negras denunciando o racismo, a discriminação, a violência e a falta de oportunidades impostas pela sociedade a esta juventude. Neste sentido, a interação entre estes movimentos através deste encontro dará uma contribuição impar a luta do povo negro.