• Aucun résultat trouvé

V.2 Simulation des essais ICARE

V.2.5 Analyse de simulations ave ex itation en for e imposée

Assim como em outros contextos, principalmente atividades profissionais em situações de perigo, estafantes ou que exigem motivação externa, no rafting peculiares cantos de trabalho são criados no dia-a-dia da condução.

Assim como o futebol historicamente serviu de mote para se representar a vida diária por intermédio do samba, gênero musical hegemônico que por muito tempo melhor traduzia esse esporte no domínio estético musical popular, tal como ocorrera com o tango para o caso argentino (Archetti 2001), o tema da vida feliz porque solta e livre da remada de lazer, mas também a ideia do trabalho-brincadeira e narrativas sobre provações e dificuldades do trabalho com aventura frequentemente aparecem adaptadas nas melodias de músicas consagradas pelo gosto popular desta região: o gênero sertanejo, tipo musical que tomou vulto de consumo de massa a partir dos anos 1980 e 1990 no Brasil.

Estou sem namorada Estou sem namorada E a secura é tão grande

Estou sem namorada e só penso em Remar a todo instante

Quero sair contigo em noite enluarada Fazer rafting noturno pela madrugada E viver a vida com a cara molhada Uh, remar eu vou

Uh, uh, uh, uh, uh, uh, uh remar eu vou

Românticos, cômicos ou satíricos, os cantos do rafting brotense podem se referir também a outra face da aventura já apresentada tópicos antes: a preocupação e responsabilização dos condutores com/pela segurança dos clientes. O exemplo que permite afirmar isto é a apreensão que perpassa toda e qualquer descida em rio cheio.

Quando o rio está cheio, o aumento do volume de água e da velocidade da descida pode dificultar a realização de manobras precisas e levar o bote a virar. Deixar o bote virar, então, é simultaneamente entendido como um incidente e uma falha do condutor. Se isto acontece em um trecho do rio que não oferece perigo, os clientes podem retornar ao bote nadando ou com o auxílio do remo do condutor sem dificuldade, o evento é considerado corriqueiro.

Entretanto, se isto acontece antes de uma corredeira importante que pode levar os

incidente é considerado sério e é preciso fazer uso do equipamento de segurança, chamado

cabo resgate, da maneira mais rápida possível para evitar que se afastem demasiadamente do bote, que caiam por sobre pedras pontiagudas e quaisquer piores consequências.

Jesus Cristo (3x) Eu estava ali

Olho o primeiro salto e vejo

O (nome do condutor) que vem descendo Olho pra cara dele e o desespero tá aparecendo Toda essa multidão com o cabo na mão Sem saber o que faz

Quem poderá dizer o que vai acontecer É só você meu pai

Jesus Cristo (3x) (bis)

Apesar dos constantes desabafos nas redes sociais quando em época de rio cheio, tais como: “E vem chuva e o psicológico vai indo a milhão,” as letras dos rafteiros ilustram também como virar o bote pode ser uma ação intencional como forma de subverter a lógica da

segurança ou da ousadia na condução, uma brincadeira ou uma consequencia da desatenção eventual. As letras relatam como a virada não intencional do bote em um trecho perigoso do rio é recebida pelos idealizadores da aventura segura, empregadores ou superiores na hierarquia da aventura profissional.

No dia em que eu virei o bote O (nome do coordenador) me disse (nome do condutor) vem cá Passou a mão em minha cabeça Roxo que nem beterraba Começou a me xingar Por onde você for eu vou Em seus pensamentos

Certeza de entrar em minhas orações Eu vou pedir a Deus

Que ilumine os clientes seus Eu sei que ele é o coordenador E como sempre ele tem razão

Mas não esquece que no primeiro salto

O meu apelido é (nome do condutor) brincalhão Eu sei que um dia ainda vou conseguir

O primeiro salto quer me contrariar Enquanto eu não guiar direito No meio da pedra o bote vai virar

As jocosidades do sertanejo do rafting eclipsam algo muito presente e que não pode ser confessado no cotidiano, mas que um dos condutores mais jovens postou em seu perfil de

uma rede social: “o que eu mais tenho medo... é de começar a ter medo”. E o medo é colocado por eles nos cantos tanto do ponto de vista do próprio condutor, como também do ponto de vista do cliente.

Como um louco

O (nome do condutor) desceu remando que nem louco Como um louco

Repleto de fratura e de torção Entrei numa fria

Quando o (nome do coordenador) indicou O (nome do condutor) para ser meu guia Os meus olhos se encheram de lágrimas Pois virar eu já sabia

Eu não sei o que eu to fazendo aqui Ai, ai, ai, ai

Socorro!

É o (nome do condutor) que está guiando Se bobear ele tá virando

Por favor não me deixe só Ai, ai, ai, ai

Socorro!

É o (nome do condutor) que está guiando Não vá embora estou pagando

Por favor não me deixe só

A virada do bote em um local tranquilo quando o rio está baixo, pode ser uma brincadeira, um recurso do condutor para surpreender os leigos e gerar a emoção que o rio não está proporcionando. Entretanto, tanto em situações de competição como de descida com

clientes quando o rio está cheio, ela pode equivaler ao pior cenário esperado, principalmente se ocorre em um trecho do rio que dispõe de muitas pedras pontiagudas e corredeiras altas em sequência.

No caso do rafting competitivo não só as lesões e a morte são temidas quando se cai do bote, mas a perda certa da prova, já que desvirá-lo leva tempo, e ter toda a equipe dentro dele é imprescindível para a pontuação ao cruzar a linha de chegada. Nesses casos, muitas vezes a habilidade de se manter no bote equilibrado é comparada à habilidade do peão que monta touros, isso porque na posição de condução e competição, como se verá a seguir, o

rafteiro precisa estar sentado na lateral do bote para gerar o torque necessário às manobras

com o remo, o que o leva a estar, quanto mais difícil a condução, mais inclinado para fora do bote, relegando às pernas e abdome a função de manutenção do equilíbrio e permanência na posição. Portanto, brincadeiras que mimetizam a narração dos rodeios, tais como esta retirada de uma rede social de um rafteiro que passou uma temporada no sul, são frequentes: “Aoooo

meu povo, seguraaaaa, que hoje é o menino vindo do interior de São Paulo versus o rio das Antas”.

Outra situação que pode ser tão grave quanto a virada é quando o bote enrosca em uma pedra, ou seja, ele trava com o peso dos tripulantes contra um trecho mais raso e pára. Ao tentar tirá-lo, dependendo do formato da pedra, ele pode entrar em wrap. Isso significa que o bote fica preso em uma pedra exposta de forma que a correnteza o encaixe contra ela como se a abraçasse. É possível que uma equipe sozinha não consiga vencer a força da água e liberar seu bote, como alternativa ela pode usar o cabo resgate preso a algo na margem para fazer uma alavanca e puxá-lo em direção diferente à da correnteza. Mas, em competição o cabo

resgate usado configura desclassificação imediata.

No rafting turístico outras duas situações evitadas ao máximo, salvo os momentos de

remanso, água tranqüila, em que se pode “pregar peças” nos clientes, e que são mais

freqüentes que a virada do bote são a perda do remo por algum cliente e a queda de um ou mais clientes do bote. Em qualquer caso, a ética rafteira propõe a solidariedade para com qualquer vida no rio e também para o bom andamento das descidas comerciais. Diz-se que independente de trabalhar em agências diferentes, no rio todos são iguais e devem se ajudar, tanto nos casos mais simples, quanto na feitura de um resgate. Mas em tópicos a seguir se verá que nem sempre a prática corresponde à teoria.

Engraçados e críticos, os cantos dos rafteiros retratam não só os valores e as expectativas das rotinas dos condutores de rafting, como também entrevêem as disposições técnicas da prática e o rafting enquanto saber-fazer. Saber usar o cabo resgate, saber sobreviver à queda do bote, saber que há corredeiras que se deve descer com o barco de frente, de lado ou que podem ser descidas de costas. Em suma, também pode-se ler sobre técnica nos cantos rafteiros.

Era de frente Mas foi de lado Quando eu olhei O bote estava virado (bis)

Assim como Toledo (1996), acredito que estes cantos “traduzem uma série de visões do outro expressas nesses padrões de comportamento verbal.” Que “para além da gratuidade e obviedade [...] devem ser compreendidos dentro de uma trama ritual de significações simbólicas, filtradas, codificadas em versos, retiradas da própria sociedade e de seus temas mais recorrentes.”

(Nome do condutor) cra cra (Nome do condutor) cra cra Não entra aí você não sabe cair (Nome do condutor) cre cre (Nome do condutor) cre cre

Não entra aí que o refluxo não dá pé (Nome do condutor) cri cri

(Nome do condutor) cri cri

Não entra aí que você não sabe sair (Nome do condutor) cro cro (Nome do condutor) cro cro Não entra aí que o refluxo dá nó (Nome do condutor) cru cru (Nome do condutor) cru cru Não entra aí que o refluxuuu Vai virar o seu...

(quando os clientes se horrorizam, eles completam a frase com “bote”)

Antes mesmo de entrar nos ônibus, as músicas podem começar a ser cantadas na Avenida Mario Pinotti, a rua que concentra o maior número de agências. Equipados, ou seja, vestindo seus equipamentos de segurança e prontos para o trabalho ou treino, condutores de

rafting de diferentes agências ganham a avenida saídos dos barracões de equipamentos de suas respectivas agências e dão um colorido peculiar ao espaço público com os tons de seus capacetes, lycras, coletes salva-vidas e remos.