Muitas das críticas direcionadas às escalas fazem referência aos descritores. Segundo North, as principais limitações são: quando a interpretação de um descritor dependente da leitura do descritor de outro nível; a imprecisão da formulação, com afirmações do tipo “melhor do que o Nível 2”; e a formulação referenciada a norma, por meio de expressões como “pobre”, “fraco”, “moderado”. Segundo Skehan, 1984, p. 217 apud North, 2003, p. 3:
Uma vez que os descritores na maioria das escalas não são desenvolvidos de forma independente para verificar se eles estão realmente dizendo alguma coisa, não é de se estranhar que muitos descritores falham ao apresentar critérios autônomos capazes de responder sim/não. 47
Para evitar determinados problemas, a construção do MCER (2002) baseou-se em um conjunto de elementos para orientar a formulação dos descritores: formulação positiva, precisão, clareza, concisão e independência. Os fundamentos foram determinados a partir de fatores como a experiência europeia para elaborar escalas; referenciais teóricos, como a teoria do escalonamento; a preferência e as limitações dos professores de língua estrangeira no processo de avaliação com escalas. Assim, neste tópico apresentamos o conjunto de fundamentos para a formulação de descritores, bem como lançamos mão desta orientação para a elaboração dos descritores propostos na escala da presente pesquisa.
Os descritores de diversas escalas são redigidos de forma negativa principalmente nos primeiros níveis. "É mais difícil formular o domínio da língua em níveis inferiores em função do que o aluno sabe fazer do que em função do que não sabe fazer” 48
. (Consejo de Europa, 2002, p. 197). Abaixo
47
Since the descriptors on most scales are not developed independently to check that they are actually saying something, it is not surprising that many scale descriptors fail to present stand-alone criteria capable of generating a Yes / No response.
48
Resulta más difícil formular el dominio de la lengua en niveles inferiores en función de lo que el alumno sabe hacer que en función de lo que no sabe hacer.
apresentamos um exemplo de formulação negativa no fragmento da escala analítica do exame Dele C2.
Fonte: Página oficial do diploma DELE49
Expressões como no ordena claramente ou muestra excesivas vacilaciones demonstram as possíveis limitações na atuação do candidato que se situa neste nível da escala, revelando muitas vezes o motivo pelo qual não foi selecionado ou não alcançou a nota de aprovação para um exame. Porém, quando a escala, seus descritores e os alicerces teóricos que fundamentam sua elaboração servem de orientação, por exemplo, para a formação de agentes (como os professores), os descritores devem apresentar uma formulação positiva.
Como discutiremos no tópico 2.3.4, muitas escalas funcionam também como diretrizes para a elaboração de exames ou para a formação de professores e alunos. Assim, os descritores devem ser redigidos de forma positiva, mesmo nos primeiros níveis. Como o primeiro descritor da categoria Evaluación de la práctica docente da Escala EPG para a formação do professor de língua estrangeira (2011, p. 1): “Está adquirindo experiência ao dar partes
49
Disponível em
<http://dele.cervantes.es/informacion/guias/guia_c2/05_prueba_expresion_esc.html>. Acesso em 30 nov. 2016.
DELE C2. Prueba 3: Destrezas integradas: comprensión de lectura y expresión e interacción orales – Escala analítica
Coherencia
1
Su discurso puede ser claro y bien estructurado, con un uso controlado de estructuras organizativas, conectores y mecanismos de cohesión, pero apenas emplea el contenido de los textos, no sigue las pautas dadas o no crea un discurso propio porque no ordena claramente y no relaciona entre sí la información y los argumentos extraídos de las fuentes. Elige las frases adecuadas para introducir sus comentarios, con el fin de tomar o mantener la palabra y relacionar sus intervenciones con las del interlocutor, y colabora en la conversación, pero a veces muestra excesivas vacilaciones o necesita demasiado tiempo para mantener el turno de palabra.
de uma aula e compartilha sua experiência com um companheiro que lhe fornece um feedback”. 50
Mesmo no nível mais básico da escala, o descritor afirma que o professor de idiomas está “adquirindo experiência” e não que “não tem experiência” na avaliação da sua prática docente, orientando uma possível forma de desenvolver esta capacidade por meio do feedback entre companheiros profissionais ou de formação. De acordo com o Consejo de Europa (2002), a formulação positiva pode ser alcançada quando a escala é desenvolvida por meio de um enfoque qualitativo em que se analisa e descreve as características de amostras representativas da atuação.
A precisão consiste em descrever ações concretas e evitar expressões vagas como “utiliza uma série de estratégias adequadas”, em que possivelmente seria necessária a discussão do termo estratégias ou a interpretação das palavras série, adequada, entre outros. De acordo com North (2003), é necessário dizer alguma coisa. Além disso, a diferença entre os níveis deve ser real, evitando que a distinção entre as fases se reduza à substituição de termos como produz pouco para produz muito ou de compreende quase tudo para compreende tudo, em que o progresso entre os níveis se limita em modificar o quantificador.
A clareza significa que os descritores devem ser transparentes, ou seja, não ser dominados por termos técnicos ou jargões. A atuação deste fundamento pode ser observada nos descritores elaborados para o PEFPI (2007), cuja formulação se fundamentou na clareza e transparência, buscando uma linguagem simples e evitando o excesso de termos especializados. Por esse motivo, também foi incluído ao portfólio um glossário. Porém o documento prevê um esforço por parte dos formandos para que discutam e dialoguem entre si e com seus formadores sobre os temas e questões apresentadas nos descritores. Segundo Newby et. al. (2009, p. 89):
50
Está adquiriendo experiencia al impartir partes de una sesión y comparte su experiencia con un compañero que le proporciona retroalimentación.
[...] não há uma “chave”, “resposta” ou “solução” única aos temas que propõem os descritores, [...] as respostas de cada indivíduo surgirão da reflexão, do diálogo com seus companheiros e seus formadores, assim como com os tutores das escolas. 51
A concisão pode ser prejudicada quando, na tentativa de descrever minuciosamente e integrar as principais características da linguagem ou da competência profissional, os descritores se transformam em extensos parágrafos. A concisão se contrapõe ao extremo detalhamento, primeiramente, porque as características coexistem nos indivíduos de maneiras distintas e “nenhum indivíduo é realmente característico” (Consejo de Europa, 2002, p. 198), assim, por mais detalhado que seja o descritor não abarcaria todos os perfis; em segundo lugar, porque os agentes que manuseiam as escalas, principalmente os professores que participaram de diversos processos de validação, descartaram ou dividiram os descritores formados por mais de vinte e cinco palavras.
Um descritor é independente quando o seu significado e interpretação não estão vinculados à leitura do descritor de outro nível, com expressões como “melhor do que o nível 2”. A independência ocorre quando eles podem ser utilizados como especificações livres, servindo, por exemplo, como objetivo para professores e alunos, pois seu sentido deriva de amostras representativas e não da explicação de outros descritores.
A formulação dos descritores deve ser adequada ao propósito da escala. Deve-se avaliar quais critérios são mais apropriados ao seu contexto e até que ponto é desejável e viável que a formulação de um sistema cumpra os fundamentos apresentados. (Consejo de Europa, 2002, p. 199). Assim como a formulação negativa é adequada ao sistema de avaliação e a formulação positiva à elaboração de objetivos, composições técnicas podem refletir o uso especializado e estruturas simples podem cogitar o uso generalizado de agentes não-especializados ou em processo de formação. Conforme discutiremos no próximo tópico, as características referentes ao formato da
51
(...) no hay una “clave”, “respuesta” o “solución” única a los temas que plantean los descriptores (…) las respuestas de cada individuo surgirán de la reflexión, del diálogo con sus compañeros y sus formadores, así como con los tutores de un colegio.
escala e formulação dos descritores estão vinculadas à sua função e aos agentes que irão manusear o instrumento.