Caracterizar a leitura crítica no âmbito da atividade, como descrito anteriormente, resulta conferir uma interpretação psicológica da ação e assim assumir uma concepção baseada em uma estrutura que leva em consideração a aquisição de sentidos mediante um caráter movido por necessidades conscientes e orientadas.
Transferir essa caracterização para a leitura crítica no contexto do ensino de Química, consiste em compreendê-la como uma ação complexa que não se limita à decodificação de símbolos e que necessita de um sujeito ativo e consciente que estabeleça sentido na interpretação de seus signos. Assim, quando associada ao contexto das ciências, sobretudo no âmbito da linguagem química, a leitura crítica coincide com uma ação e ao mesmo tempo estratégia de ensino que se relaciona com a aprendizagem, interpretação de fenômenos e internalização de habilidades cognitivas da linguagem (SANMARTÍ, 2007, OLIVERAS;SANMARTÍ, 2009).
Do ponto de vista discursivo, associa-se à uma atividade psíquica e orientada, cujo objetivo conscientemente estabelecido se manifesta pela interação entre o leitor e o texto, que utiliza de estratégias para compreender, interpretar e dar sentido à informação a partir de momentos funcionais da ação leitora.
Nesse aspecto, a orientação para a leitura crítica encontra semelhanças nos trabalhos acerca da atividade leitora em função de momentos funcionais de planejamento,
execução de avaliação do conteúdo lido (SOLÉ, 2009;2012; CASSANY, 2003), que reforçam o recorte aqui proposto acerca da base orientadora como uma estrutura fundamental para sua compreensão do processo psíquico dos sujeitos e sua regulação da aprendizagem.
Consequentemente, em função dessas estratégias é que a orientação para a leitura, se configura no âmbito da estrutura da Atividade, pois, a medida que se estabelecem finalidades para a ação de ler em um contexto como o ensino da química, se configuram procedimentos e esquemas para a execução e alcance dos objetivos propostos.
É nesse contexto que ganha destaque o papel da orientação, pois a BOA é um esquema subjetivo que antecipa as condições necessárias à execução e representa, de forma materializada, o modelo conceitual e operativo e que orienta o planejamento, sua execução racional e a regulação consciente dessa ação com vistas à aprendizagem.
Pensar na base orientadora para a leitura crítica relacionada ao conteúdo químico presente em um texto requer um planejamento estratégico da ação de ler com a finalidade de compreender e validar a informação em função do conhecimento científico, reconhecer as limitações da informação, suas inconsistências, erros, induções, generalizações e intencionalidades que estão relacionadas de forma invariante à concepção crítica da leitura.
Partindo da natureza sistêmica que envolve a atividade e do princípio da assimilação da ação em função de um ensino planejado e orientado, bem como das estratégias inerentes à ação da leitura crítica como um processo que necessita de estratégias a serem executadas com a finalidade de se compreender o texto em relação ao seu contexto, intencionalidade e validação da informação (CASSANY, 2003; CASSANY; ALIAGAS, 2007), se torna preciso caracterizar os aspectos teóricos conceituais e o conhecimento operativo da ação de se ler criticamente textos com conteúdo químico pois se tratam de conteúdos estruturais presentes na execução da ação que se deve realizar a fim de se reestruturar a base orientadora dos sujeitos.
Afinal, considerando a leitura crítica como uma atividade psíquica específica relacionada ao desenvolvimento integral dos sujeitos, é preciso considerar que a partir de um enfoque histórico-cultural representa um conceito científico, portanto de natureza escolar, que em consonância com os estudos da linguagem e da ação leitora como um método sistêmico possibilita seu ensino através de um planejamento e sistematização da ação no contexto que se destina (SOLOVIEVA; QUINTANAR, 2017).
Dessa maneira é possível caracterizar um planejamento para a leitura crítica de textos de conteúdo químico a partir de estratégias esboçadas por estudos de natureza linguística do discurso (SOLÉ, 2009;2012), que de forma similar, se coadunam aos aspectos funcionais da orientação no sentido de seu planejamento, execução e controle, ao esquematizar a leitura de acordo com um momento prévio, de antecipação temática, executor, da leitura em si e posterior à leitura, como uma espécie de avaliação da ação.
Se assemelha a algumas concepções de leitura crítica nas ciências que seguem princípios para se resgatar conceitos prévios, antecipar a informação, estabelecer hipóteses e se executar a leitura propriamente dita (BARTZ, 2002; SILVA;BARGALLÓ;PRAT, 2017).
Diante disso é possível estabelecer um modelo que separa a leitura em um momento antes, durante e após a ação leitora que em consonância com os aspectos da TFPAMC, confere um aspecto racional para a ação que converge para a finalidade da leitura no contexto do ensino da Química, conforme se resume no esquema abaixo:
Figura 1: Esquema geral da estrutura da atividade para se ler criticamente textos com conteúdo químico
(Fonte: o autor) ASPECTO MOTIVACIONAL
Ler criticamente como habilidade necessária ao ensino e aprendizagem química PLANEJAMENTO DA LEITURA ANTES DE LER DURANTE A LEITURA APÓS A LEITURA Objetivo: Validar a informação do ponto de vista do conhecimento químico. Necessidade: Utilizar a leitura para ensinar química
Consiste na fase prévia da leitura aonde se realiza a ativação das ideias prévias, antecipação do conteúdo do texto, formulação de hipóteses
Execução e regulação da ação leitora aonde se buscam elementos de confirmação ou não da fase prévia através da identificação dos problemas, argumentos, conceitos, dados, evidências, inconsistências, erros e contradições presentes nas informações em relação ao conhecimento químico
Realização do controle do planejamento e elaboração de conclusões válidas sobre as informações do texto em relação ao conhecimento químicos
Caracterizar a atividade da leitura crítica a partir de um esquema geral não significa estabelecer um padrão de ações e operações lineares e sequenciais a serem seguidas de forma a reproduzir um procedimento operacional e sucessivo. Ao contrário, conforme expresso pela TFPAMC, apenas configura um elemento de orientação que condiciona a ação a um reflexo psíquico da atividade a partir de seus aspectos motivadores que se convertem em ações e operações para lograr êxito na execução e no controle da ação.
Como explica Galperin (1976), consiste em um esquema de orientação que antecipa as condições necessárias à execução e a satisfação de necessidades do sujeito em relação à assimilação. Todavia, esquematizar a ação da leitura crítica baseada em momentos estratégicos (SOLÉ, 2009;2012), se configura como o planejamento funcional da ação da leitura crítica para se ler textos com conteúdo químico de modo a satisfazer na etapa de orientação os fundamentos psicológicos da atividade e os componentes estruturais e operacionais para conciliar sua reestruturação em torno da aprendizagem.
Afinal, aprender a ler de forma crítica implica uma reestruturação da base orientadora no sentido de se planejar e elaborar a ação a fim de se compreender a necessidade de se orientar de forma adequada em função dessa estrutura da atividade, pois, a medida que se antecipam as condições de execução de uma ação consciente é possível se estabelecerem vínculos entre a atividade externa e sua representação psíquica, fenômeno este que, em relação ao contexto da Teoria da Formação Planejada das Ações Mentais e dos Conceitos se denomina de aprendizagem.
Aprendizagem é toda atividade cujo resultado é a formação de novos conhecimentos, habilidades, hábitos ou a aquisição de novas qualidades nos conhecimentos, habilidades e hábitos que já possuam. (…) durante o processo da atividade, as ações com os objetos e fenômenos formam as representações e os conceitos desses objetos e fenômenos (GALPERIN, 2001, p. 85).
Neste contexto a base orientadora organizada a partir de uma estrutura que integra aspectos motivacionais relacionados à necessidade de se ler textos de conteúdo químico com o propósito de se ensinar química de forma eficiente e autorregulada, além de satisfazer a estrutura da atividade, integra a orientação as estratégias de leitura em função de operações que se relacionam aos objetivos de validação da informação e elaboração de conclusões válidas a partir do conhecimento científico.
Se alinha portanto, ao aspecto racional da orientação através do qual torna possível a execução correta da ação a partir de uma invariante que estabelece o conteúdo
conceitual e as operações necessárias à atividade que atua como um elo entre o planejamento, a antecipação e a regulação da execução da ação (FARIÑAS LEÓN, 2010). Nesse sentido a aprendizagem é também uma atividade que ocorre em função de uma base orientadora que estabelece aspectos qualitativos ao aprendizado mediante o processo de sua remodelação na direção de uma orientação completa da ação.