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As ideias republicanas já permeavam o pensamento político brasileiro durante a primeira metade do século XIX. Entretanto, como destacou Marcello Basile, é necessário que não se vincule os movimentos de teor republicano ocorridos no Primeiro Reinado e na Regência como precursores do republicanismo que aflorou na década de 1870, já que foram formulados em contextos históricos específicos.397

No decorrer dos capítulos anteriores abordou-se a crise política que envolveu liberais radicais na década de 1860, o que posteriormente culminou no Manifesto Republicano em 1870. No entanto, é possível afirmar que, naquele momento, a aceitação do republicanismo não foi homogênea em todo o Império. A adesão das províncias ocorreu de forma gradual e paralela à dinâmica política regional. Foi no Rio de janeiro, em 1870, que o movimento republicano teve seu ponto de partida com os criadores do primeiro clube. Entre os nomes que compunham a formação inicial do grupo, estavam Aristides Lobo, Saldanha Marinho, Limpo de Abreu e Francisco Rangel Pestana. De acordo com José Murilo de Carvalho, a atuação dos republicanos foi geograficamente diversificada, sendo a Corte e a província de São Paulo os principais núcleos no início do movimento. O republicanismo também foi sentido em algumas províncias como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Pará, embora somente em São Paulo houvesse a formação de um verdadeiro partido que demonstrou capacidade de organização e

397 BASILE, Marcello. O bom exemplo de Washington: o republicanismo no Rio de Janeiro (c.1830 a 1835). Varia

162 de influência eleitoral.398

Autores como George Boehrer,399 José Murilo de Carvalho e Renato Lessa discutiram e problematizaram o conteúdo do Manifesto de 1870. Estes autores identificaram que a maioria das propostas do grupo republicano já estava inserida nos debates promovidos pelos liberais na década de 1860. A maioria das reformas discutidas pelos republicanos, como a descentralização administrativa prevendo a autonomia das províncias, bem como a separação entre Igreja e o Estado, já eram defendidas pelo Partido Liberal. Além da preexistência desses ideais na década anterior, Lessa também analisou o caráter retórico do manifesto e identificou duas características principais: a moderação e o tom inespecífico do documento. A tática, argumenta o autor, visava ganhar adesão de diferentes grupos que iam de liberais descrentes com a monarquia a fazendeiros insatisfeitos com o processo abolicionista.400

Concordamos neste estudo com autores que identificam a continuidade dos elementos de 1860 nas propostas do grupo republicano que emergiu em 1870. Destacamos, no entanto, que na província do Espírito Santo, as discussões políticas se deram de forma bastante diferente. Contrastando com a Corte, o radicalismo não se destacou nas propostas e na linguagem política da província, agindo como entrave à discussão de tais ideias reformistas ainda em 1860. De fato, no Espírito Santo, as “ideias novas” e a linguagem de crítica ao Império só se sobressaíram a partir de 1870, com a ampliação da esfera literária e da atuação de nova geração política na imprensa.

Ao longo da propaganda republicana, no Rio de Janeiro e em São Paulo, surgiram linguagens republicanas bastante distintas. Na Corte, havia dissidências internas no partido sobre a forma de se alcançar a República. Era visível a existência de uma linha de pensamento de caráter moderado liderada por Quintino Bocaiúva, ligada à ideia de que se atingiria a República de forma gradativa, que, por sua vez, contrastava com a ala mais radical guiada por Aristides Lobo,

398 CARVALHO, José Murilo de. República, democracia e federalismo Brasil, 1870-1891. Varia hist., Belo

Horizonte, v. 27, n. 45, p. 141-157, Junho 2011. Disponível em:

<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010487752011000100007&lng=en&nrm=is>. Acesso em:! 03/11/2015.! p.1.

399 BOEHRER, 1954, op. cit., p. 226-227.

400 Renato Lessa salienta ainda que a emergência da propaganda não configurou um processo de amadurecimento da uma ideia utópica do republicanismo. De acordo com o autor, o movimento em 1870 exibia a prevalência da ponderação no lugar da utopia que anos antes esteve presente no discurso republicano dos anos de 1830. LESSA, Renato. A invenção republicana. Rio de Janeiro: Toopbooks, 1990. p.38-39.

defensor de mudanças políticas imediatas. O conflito era visto até mesmo na redação do jornal A República, órgão do partido, quando ideais republicanos opostos abriram muitas vezes espaço para o surgimento de discordâncias dentro do grupo.401

Além das dissidências internas que existiam no partido da capital do Império, Marieta Moraes assinala que houve pequena aceitação do Manifesto de 1870 em outras regiões da província do Rio de Janeiro. A autora aponta que, ainda que importantes lideranças republicanas nacionais fossem daquela província, a atuação dessas figuras se deu muito mais centrada na Corte. Curiosamente, somente em 1888 foi fundado o Partido Republicano da Província do Rio de Janeiro.402 Havia, neste sentido, a distinção entre o movimento republicano no município neutro com relação ao restante da província.

No mesmo sentido, Sérgio Buarque de Holanda destacou que na Corte, berço do movimento, o republicanismo alcançou certa repercussão e receptividade popular. Já no âmbito eleitoral, Buarque indica que o grupo estava longe de ser expressivo.403 George Boehrer também assinala as limitações do grupo, ao evidenciar que a atuação do Partido Republicano na Corte não se consolidou logo no momento de sua criação. O autor aponta que as dificuldades impostas ao grupo derivavam do fato de que propagavam um novo ideal de governo para um público que não possuía grande apego ao sentimento republicano. Com o passar dos anos, o partido teria adquirido maior força política, contudo, muito menos pela adesão às prerrogativas expostas em seu programa, do que pelo contexto político propício à difusão da crítica monárquica.404 Mesmo alguns anos após divulgação do Manifesto de 1870, ainda não havia indícios de consolidação do movimento republicano na província fluminense. Nas afirmações de Hildibrando Albuquerque Junior, 405 as dificuldades de organização encontradas pelos republicanos eram consequências de fatores como o tradicionalismo encontrado naquela região, além da problemática em torno da escravidão e, ainda, a falta de orientação filosófica. As proposições de Marieta Moraes para explicar a lentidão da qual sofria o partido também se

401 BOEHER, 1954, op. cit., p.39.

402 Para a autora, foi a abolição o fator crucial para a adesão de muitos monarquistas insatisfeitos. FERREIRA, 1986, p. 14.

403 HOLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira. Do Império à República. São Paulo :Difel, 1972. Tomo 2, v.5, p.265-6.

404 BOEHRER, 1954, op. cit., p.29.

405 JUNIOR, Hildiberto R. C. O Republicanismo fluminense: 1887-1891. 1974. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 1974, p. 15.

164 mostram relacionadas a algumas características sociais locais. Para a autora,

[...] era de se supor que a província do Rio de Janeiro, baluarte do Estado Imperial escravocrata e centralizado, não fosse um terreno particularmente fértil para as ideias liberais e vagamente democráticas defendidas pelos propagandistas republicanos.406

Em 1873, ao perceber a necessidade de remodelação do grupo, uma comissão central dos republicanos foi organizada visando o planejamento da União Republicana Federal, com a qual pretendiam centralizar um clube principal no Rio de Janeiro, onde haveria reuniões, além de ações em prol da educação popular por meio de conferências públicas. No entanto, o plano da

União Republicana não foi levado à frente.

Como destacou José Murilo de Carvalho, os republicanos utilizavam os mesmos meios de propaganda que os partidos monárquicos, concentrando-se em livros, panfletos, jornais e conferências públicas.407 A difusão da ideia republicana, no entanto, ainda parecia carecer de maior organização. Foram várias as tentativas de consolidação de um partido em nível nacional, mas a própria divisão do partido Republicano em sessões provinciais acabava destacando as especificidades do movimento em diferentes localidades. 408

No ano de 1878, com a volta dos liberais ao poder, vários membros do partido Republicano retornaram ao partido Liberal, que agora estava liderando a situação política. Durante os dez anos de ostracismo, liberais e republicanos tinham um inimigo comum, os conservadores. Entretanto, como destacou Campos Sales, com a emergência do gabinete Sinimbu, o grupo republicano adentrou em novo contexto político que alarmou os propagandistas para a necessidade de reformulação do grupo. 409

A partir de 1880 novos membros ingressaram no Partido Republicano na Corte. Dentre eles, destacavam-se Lopes Trovão, José do Patrocínio, Silveira Lobo, Teixeira Mendes e Miguel Lemos. O grupo tentou novamente eleger republicanos para os cargos do governo. Novos jornais como O Republicano e O País passaram a incorporar a propaganda republicana no Rio

406 FERREIRA, 1986, op. cit., p. 34. 407 CARVALHO, 2011, op. cit., p. 142.

408 FERNANDES, M.F.L. A Esperança e o Desencanto: Silva Jardim e a República. São Paulo: Humanitas, 2008. p. 54.

409 George Boehrer assinala que, a partir desse contexto político, os membros que ali permaneceram viram na assinatura de um termo de compromisso e adesão à solução para fortificar o grupo e cessar tais deserções.

de Janeiro, mas, somente em 1888, durante o Congresso Republicano Provincial, foi fundado o Partido Republicano da Província.

Foi com a nova organização do grupo que os republicanos criaram também novas estratégias para acelerar a divulgação do republicanismo, afirma Boehrer. 410 Nesse período foi fundado um comitê executivo na Corte e uma assembleia constituinte que discutiu a criação da função de delegados que atuariam nas paróquias, a fim de recrutar membros para o partido. Outra novidade na estratégia dos republicanos foi a divisão do grupo em unidades, o que parecia destoar das ações anteriores, que viam a fragmentação dos republicanos como uma ameaça à coesão do partido.

Apesar da difusão do republicanismo na Corte, a maioria dos autores citados neste estudo aponta São Paulo como a província mais importante em termos de propaganda republicana e organização do movimento contra a monarquia. Desde a década de 1870, já muito unificado, o grupo republicano paulista teve forte adesão, optando pela atuação independente do grupo localizado no Rio de Janeiro. Sérgio Buarque destacou São Paulo como a localidade com maior número de republicanos, e, sobretudo, com maior capacidade de organização política.411 A partir das alianças políticas que ocorreram no período, o grupo paulista passou a influenciar os resultados eleitorais. Na visão de Joseph Love,412 mais importante do que a publicação do Manifesto em 1870, a obra A Província, escrita por Tavares Bastos, teve papel crucial na divulgação do ideal federalista dos paulistas, pois apresentava um programa político baseado na autonomia provincial que atraiu os cafeicultores de São Paulo.

Foi no Congresso realizado em Itu, no ano de 1873, que ocorreu de fato a formação estratégica e organizacional do Partido Republicano Paulista. Além das bandeiras levantadas no Manifesto publicado na Corte, como a liberdade e os direitos individuais, o republicanismo em São Paulo assumiu firmemente a bandeira do federalismo. Nesta reunião os republicanos decidiram pela representação dos municípios por meio dos delegados e elegeram uma comissão permanente que guiaria o partido. Entre os nomes de peso do grupo paulista estavam Campos Sales, João Tibiriçá e Assis Brasil. Na visão de Boehrer, o republicanismo em São Paulo não se

410 BOEHRER, op. cit.,1954. p.30. 411 HOLANDA, op. cit., 1972, p. 265. 412 LOVE, 1982, op. cit., p. 150.

166 caracterizava como um mero movimento intelectual, sublinhando a atuação e a organização partidária do grupo quando comparado ao Rio de Janeiro.

A literatura que enfatiza a coesão como fator de desempenho do partido paulista foi problematizada por Silvana Mota Barbosa.413 Nas indicações da autora, após suas pesquisas sobre o movimento republicano na imprensa de Campinas, tal ideia lhe pareceu fundada a partir da leitura unilateral da política. Esses relatos foram, segundo Barbosa, subsidiados pela versão oficial do movimento que foi construída pelo próprio Partido Republicano Paulista. A narrativa empreendida pelo grupo visava acentuar a individualidade do republicanismo em São Paulo e destacar a importância do Partido Republicano de São Paulo. O argumento de coesão, destaca a autora, embasou a maioria das explicações sobre o movimento naquela província, retirando de cena possíveis vestígios que indicassem divergências internas no pensamento republicano paulista.

De acordo com Casallecchi, que também fortifica a tese da supremacia paulista, a trajetória proeminente do republicanismo em São Paulo indica que as diferenças com o movimento da Corte não se davam somente no fator organizacional, mas também pela distinção de propostas do Partido de São Paulo:

[...] O Rio se apegava às reivindicações do manifesto de 1870, relativas aos direitos e liberdades individuais, à soberania do povo, à verdade democrática. São Paulo dava ênfase ao federalismo, à autonomia provincial, medidas que se vinculavam aos interesses dos grandes proprietários.414

Embora os dois partidos tenham enfatizado propostas políticas que corroboravam suas necessidades locais, é necessário salientar que as propostas mencionadas por Casallecchi não seriam conflitantes. O estudo de Daiane Elias sobre as linguagens políticas republicanas demonstra que, dentre as três correntes que disputavam espaço na discussão sobre a República, a proposta exibida pelos republicanos de matriz liberal americana mostrou-se vitoriosa na consolidação da República, exatamente por apresentar linguagem e pensamento coesos.415 As propostas do republicanismo liberal americano conseguia abarcar tanto o grupo de Quintino Bocaiúva na Corte, como também as ideias federalistas de Alberto Sales e Assis Brasil em São Paulo.

413 BARBOSA, 1995, p.13.

414 CASALECCHI, 1987, op. cit., p. 45.

415 ELIAS, Daiane. Imagens Opostas: a nova linguagem política republicana e a queda do Brasil Império (1870- 1891). 2012. Dissertação de Mestrado-IFCS-UFRJ. Rio de Janeiro, 2012.

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