Os estudos teóricos realizados para esta pesquisa apontam ser necessário compreender a leitura não como uma atividade passiva, mas como uma prática de produção/ invenção de sentidos que se coloca enquanto arte. E a escrita, não apenas como um símbolo gráfico, mas como uma prática cultural que adere ao cotidiano. A escrita na e da vida carrega alegrias, tristezas, acontecimentos através de estilos e modos próprios que aparecem em suportes materiais diversos.
O levantamento de trabalhos submetidos e encomendados em Grupos de Trabalhos das Reuniões Anuais da ANPEd e as entrevistas com D. Dirce, educanda do PEJA, parecem confirmar os apontamentos teóricos sobre o ler e escrever. Os sujeitos encontrados nos trabalhos selecionados, mesmo muitos pertencendo a localidades em que as práticas culturais de leitura e escrita são consideradas improváveis, esses utilizam mecanismos alternativos que fogem da norma considerada correta para representar as situações do dia-a-dia. Já nos materiais escritos por D. Dirce é possível apontar como motivação primeira o incentivo de educadoras do projeto, porém o conteúdo de seus escritos diz respeito à vida privada ultrapassando a espera escolar e atingindo outros sentidos: expressar sentimentos, deixar marcas, traços do vivido.
A resposta ao objetivo delineado para essa pesquisa - o que move a escrita e a leitura, entendendo-as como propulsoras dos significados construídos e modificados, no e do próprio ato de escrever pelos sujeitos envolvidos; e qual o sentido atribuído pelo sujeito que escreve e lê à suas próprias práticas de escrita e leitura - através das entrevistas, não aparece apenas em momentos em que D. Dirce nos diz sobre o ler e escrever, mas também e principalmente quando cita seus próprios escritos no vai e vem entre o texto/ palavra escrita que marca o papel e a memória dos momentos vividos; refaz a vida e o escrito durante o tecer de nossas conversas. Portanto, a “resposta” está nas entrelinhas, nos indícios, nos sinais, que vão sendo costurados nesse vai e vem de escritos e histórias, narrativas e memórias. É preciso olhar o não dito, o silêncio.
Se o que move a escrita desses sujeitos jovens e adultos pouco alfabetizados são os acontecimentos diários e o sentido desta passa pela necessidade de expressar os sentimentos, conversar com o outro e consigo mesmo, deixar marcas da própria existência. Então as
práticas escolares que focam a linguagem escrita como um instrumento mecânico de comunicação, restringindo o ensino aprendizagem apenas em regras gramaticais, faz com que a escrita/leitura perca seu sentido enquanto experiência e possibilidade de criação, deixando de ser significativa ao sujeito que escreve e lê.
Rastrear e analisar tais práticas nos faz perceber que estas ultrapassam a esfera escolar produzindo outros sentidos; portanto o ensino escolarizado transcende a prática educativa escolar. Há que se refletir sobre a existência da diversidade de saberes e descobrir modos outros de realização de trabalhos que atrelem os saberes escolares e as práticas culturais.
Consideramos importante continuar aprofundando estudos sobre as práticas culturais de leitura e escrita efetivadas por pessoas jovens ou adultas pouco escolarizadas, pois essas práticas ainda ocultadas revelam a visão que os sujeitos têm de si e do mundo que os rodeia, contribuindo para o campo dos estudos culturais e para as práticas pedagógicas.
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