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3. Adsorption du COS

3.1 Adsorption sur les oxydes

De acordo com Cristophe Dejours, trabalhar191 corresponde a “um certo modo de engajamento da personalidade para responder a uma tarefa delimitada por pressões (materiais e sociais)”192.

Nesses termos, o trabalho é tanto atividade quanto forma de relação social, uma experiência individual e coletiva. De um lado, se desenvolve a partir da mobilização da subjetividade para suprir a defasagem das prescrições que orientam o trabalhar perante as contingências e a complexidade que a realidade apresenta. De outro, envolve o engajar-se em “um mundo humano caracterizado por relações de desigualdade, de poder e de dominação”193.

Para Dejours, enquanto desdobramento da inevitável experiência subjetiva perante resistências materiais e sociais194, o sofrimento é, portanto, ínsito ao trabalho. Trabalhar pressupõe uma relação afetiva do sujeito com as inconsistências, imprevistos, acidentes, falhas e conflitos que o real comporta. Esse sofrimento é, contudo, passível de ressignificação, convolando em prazer, gratificação e alívio. A pedra de toque dessa transição repousa na existência de condições para que, no âmbito laboral, se desenvolva uma dinâmica de “reconhecimento, pelo outro, da

191 O conceito de trabalho sobre o qual disserta Dejours, como sendo o próprio trabalhar, ancora-se na perspectiva clínica da psicodinâmica do trabalho.

192 DEJOURS, Cristophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista produção, v.14, n. 3, p. 27- 34, set./dez. 2004, p. 28.

193 Ibid., p. 31.

194 Nas palavras de Cristophe Dejours, “o real do trabalho é definido como o que resiste ao conhecimento, ao saber, ao savoir-faire e, de modo mais geral, ao domínio” (Id., A banalização da injustiça social. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007, p. 29). Essa resistência (da matéria e dos objetos técnicos ao domínio, ou dos conflitos inerentes às relações sociais travadas em um mundo desigual) há de ser superada sob uma dupla perspectiva, para que o trabalhar seja efetivo e os objetivos da atividade, alcançados. No plano individual, a angústia e a frustração decorrentes da defasagem da organização prescrita (procedimentos, normas e instruções que orientam o desempenho das tarefas) ante os imprevistos da realidade, precisam servir de gatilho para a mobilização da inteligência individual, com vistas à experimentação e à busca de soluções para os problemas concretos do trabalhar. Em contrapartida, no plano coletivo, faz-se necessária a articulação das inteligências individuais, de modo a evitar contradições e conflitos no funcionamento do todo. Isso se opera, em parte, pela a coordenação formal dessas inteligências (prescrições que ordenam a divisão social e técnica do trabalho, com repartição de atribuições e de prerrogativas), sendo complementada pelo desenvolvimento de uma cooperação efetiva dos trabalhadores (o estabelecimento de compromissos, técnicos e sociais, “entre os estilos de trabalho, entre as preferências de cada trabalhador, de forma a torná-los compatíveis”) (Id., op. cit., 2004, p. 28-31).

contribuição do sujeito para a administração da defasagem entre a organização prescrita e a organização real do trabalho”195.

Em perspectiva, essa retribuição simbólica, que atende aos anseios narcisísticos de todo obreiro, nutre o sentimento de utilidade, de pertencimento ao coletivo, e faz com que as angústias e as dificuldades experimentadas no trabalhar não sejam em vão. É no reconhecimento da qualidade e da importância do seu trabalho que se sustenta a motivação do sujeito para continuar mobilizando sua inteligência e sua personalidade no trabalho196. Dele também depende o desenvolvimento de relações de cooperação efetiva entre os obreiros, para juntos articularem suas inteligências individuais em prol dos objetivos do empreendimento197. Por meio da inserção do obreiro na realidade organizacional, o trabalho, nesse sentido, promove a integração em sociedade (possibilidade de viver junto, tendo prazer nesse convívio), a sedimentação das personalidades e instauração da temporalidade. Ele torna possível, ao sujeito, conferir um sentido à própria vida198.

Sem embargo, a concretização desse potencial do trabalho para constituir um espaço social de reconhecimento e de integração se limita pela conformação das atividades produtivas e da gestão do trabalho predominantes em um dado cenário histórico199.

Como já se pontuou, todavia, se há algo que caracterize a postura neoliberal hodierna perante o trabalho é a sua inclinação para, sob uma lógica instrumental, esgarçar paulatinamente as condições que sustentam uma dinâmica de reconhecimento e cooperação200.

195 DEJOURS, Cristophe. A banalização da injustiça social. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007, p. 97.

196 Ibid., p. 34

197 Id., Subjetividade, trabalho e ação. Revista produção, v.14, n. 3, p. 27-34, set./dez. 2004, p. 33.

198 ENRIQUEZ, Eugène. Perda do trabalho, perda da identidade. Cad. Esc. Leg., Belo Horizonte, 5(9), jul./dez. 1999, p. 67-68.

199 HELOANI, José Roberto; CAPITÃO, Cláudio Garcia. Sexualidade e trabalho na visão da psicanálise. In: FREITAS, Maria Ester; DANTAS, Marcelo (orgs.). Diversidade sexual e trabalho. São Paulo: Cengage Learning, 2012, p. 23.

200 A cooperação no e para o trabalho, como mecanismo de socialização e integração, tem por premissas, (a) o consentimento dos envolvidos em abdicar, parcialmente que seja, da experiência com a própria inteligência e a subjetividade; e (b) o reconhecimento da importância das contribuições singulares de cada um para o todo. Ela demanda, enfim, um arrefecimento do individualismo em favor da coesão grupal, compatibilizando subjetividade e ação coletiva. (DEJOURS, op. cit., 2004, p. 32).

Num mundo do trabalho de incerteza, desregulamentação e flexibilização, dissemina-se uma situação generalizada de precariedade, agravada pelo desmonte das redes sociais e econômicas de apoio ao trabalhador, que fica exposto a toda sorte de danos e violências201.

Conforme Dejours, são múltiplos os desdobramentos dessa precarização. Intensifica-se o trabalho e, com ele, o sofrimento subjetivo dos trabalhadores. Anula- se a possibilidade de mobilização coletiva contra o sofrimento. O trabalhador silencia quanto ao sofrimento e às injustiças experimentadas pelos outros, focando energias na própria resistência e na manutenção de sua instável colocação. A insegurança oriunda da ameaça contínua do desemprego, enfim, alimenta um crescente individualismo202.

O fenômeno, acrescenta Bourdieu, gera a desestruturação da existência e a degradação da relação com o mundo, o tempo e o espaço. Na era das dispensas cíclicas e do downsizing, não cabe falar em temporalidade. Vive-se em incerteza, na impossibilidade de projeções seguras sobre o futuro. O emprego é encarado como um privilégio instável, disponível a poucos, mas desejado por muitos — nenhum trabalhador é insubstituível e há concorrência pelo trabalho e no trabalho203.

A versão fragmentada e instável do trabalho torna distante a perspectiva integradora. A incerteza sobre a permanência no emprego e as pressões múltiplas sobre o trabalhador põem em xeque o seu sentimento de reconhecimento, de contribuição. Quando a sobrevivência no mercado de trabalho se torna um foco de preocupação constante, o coletivo é deixado de lado numa luta de todos contra todos204.

Em outra frente, os trabalhadores são bombardeados por um discurso organizacional de teor quase publicitário, que insiste em negar o sofrimento vivenciado

201 Esse conceito de precariedade é proposto por Judith Butler: “Precariedade designa uma condição induzida politicamente, na qual determinados grupos sofrem com a carência de redes sociais e econômicas de apoio, ficando diferenciadamente expostos a danos, à violência e à morte” (BUTLER, Judith. Frames of war: when is life grievable? London: Verso, 2009, p. 25, tradução livre, no original: “Precarity designates that politically induced condition

in which certain populations suffer from failing social and economic networks of support and become differentially exposed to injury, violence, and death”).

202 DEJOURS, Cristophe. A banalização da injustiça social. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007, p. 50.

203 BOURDIEU, Pierre. Contre-feux: propos pour servir à la résistance contre l'invasion néo- libérale. Paris: Raison D’Agir, 1998, p. 96-98.

204 ENRIQUEZ, Eugène. Perda do trabalho, perda da identidade. Cad. Esc. Leg., Belo Horizonte, 5(9), jul./dez. 1999, p. 67-68.

e lhes apresenta uma versão romantizada da realidade, em que o trabalho, humanizado, gera satisfação e felicidade205.

A respeito desse novo modelo, Marcia Hespanhol Bernardo observa que, “em vez de superar as contradições inscritas na organização taylorista — como costuma ser anunciado pelos defensores da organização flexível — essas empresas parecem obter apenas um acréscimo de fatores geradores de sofrimento”206.

O conjunto de ideias sob o qual operam as organizações empresariais contemporâneas, em que pese viabilize a exploração do obreiro em favor da maior rentabilidade do sistema, o faz ao custo da desarticulação do elo entre trabalho, subjetividade e coletividade. Enriquez assevera que esse modelo de gestão do trabalho tende a resultar em perversão social:

Poderão permanecer na empresa apenas aqueles que são considerados de excelente performance. (…) Isso remete às pessoas ditas vencedoras. São aqueles que matam de maneira tranqüila, sem dó, “fritando” o semelhante, um outro profissional. Mata-se de verdade e a pessoa lesada não tem idéia, nem a impressão de que querem matá-la. Isso é psicologização, na medida em que, se alguém não consegue conservar o seu trabalho, fala-se tranqüilamente: “mas é sua culpa, você não teve uma alma de vencedor, você não é um herói!" Isso quer dizer que é preciso ser um herói num cavalo branco para ganhar as coisas ou as guerras. Então, psicologização quer dizer: “você é culpado e não a organização da empresa ou da sociedade. A culpa é sua." Isso culpabiliza as pessoas de modo quase total, pessoas que, além disso, ficam submetidas a um estresse profissional extremamente forte. Então as empresas exigem daqueles que permanecem um devotamento, lealdade e fidelidade, mas ela não dá nada em troca. Ela vai dizer simplesmente: “você tem a chance de continuar, mas talvez você também não permaneça”207.

Nesse sentido, avalia Dejours, “o trabalho gera, então, sofrimento, frustração, sentimento de injustiça e, eventualmente, patologia. Ele se torna deletério e contribui para destruir a subjetividade, juntamente com as bases da saúde mental”208.

205 BERNARDO, Marcia Hespanhol. Trabalho duro, discurso flexível: uma análise das contradições do toyotismo a partir da vivência dos trabalhadores. São Paulo: Editora Expressão, 2009, p. 135-151.

206 Ibid., p. 152.

207 ENRIQUEZ, Eugène. Perda do trabalho, perda da identidade. Cad. Esc. Leg., Belo Horizonte, 5(9), jul./dez. 1999, p. 65.

208 DEJOURS, Cristophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista produção, v.14, n. 3, p. 27- 34, set./dez. 2004, p. 33.

Se a "precariedade está hoje por toda a parte”, como enfatiza Pierre Bourdieu209, ela não se abate, porém, de forma idêntica sobre todos. Há, pois, em todo lugar e notadamente no trabalho, uma distribuição radicalmente desigual da precariedade. Algumas formas de vida estão mais protegidas do que outras. O sofrimento de determinados grupos não desperta tanta atenção e empatia como o sofrimento de outros. Algumas pessoas, afinal, por variados motivos, encontram-se mais expostas a danos e à violência210.

Entre os fatores que atuam na demarcação dessa linha que separa as "vidas que valem das que não valem a pena", é notória a influência de preconceitos e dos esquemas de pensamento que organizam hierarquicamente a existência humana. É a partir desse viés, portanto, que se procederá à análise da homossexualidade no mundo do trabalho contemporâneo.

2.2 A homossexualidade na organização contemporânea do trabalho: da