Os pesquisadores não chegaram a um consenso sobre a terminologia. Wenden e Rubin (1987) falaram de “estratégias de aprendiz”; O’ Malley e Chamot (1990) de “estratégias de aprendizagem” e Oxford (1990) de “estratégias de aprendizagem de línguas”. Na literatura também não há uniformidade quanto aos termos que identificam o que as estratégias são. Wendem (1987, p.07, 1998, p.18) comenta que são chamadas de “técnicas”, “táticas”, “planos potencialmente conscientes”, “operações empregadas conscientemente”, “habilidades de aprendizagem”, “habilidades básicas”, “habilidades funcionais”, “habilidades cognitivas” e “procedimentos de resolução de problemas”.
Para Cook (1990) as estratégias são “escolhas”. Chamot (1987) as entendeu como “abordagem”. Cohen (1998) também usou o termo “abordagens” como sinônimo de “estratégias gerais” em oposição à sub-estratégias. Ele cita Lansen-Freeman e Long (1991) que fazem uma divisão entre “macro-estratégias e “micro-estratégias” e Sarig (1987) que as considera “movimentos”. Cohen sugere que o termo “estratégia” seja usado para abranger todos os outros em qualquer nível de abstração.
Há ainda muitos olhares conflitantes ou simplesmente diferentes em relação a aprendizagem de L2 e as estratégias de aprendizagem. No entanto para Oxford e Crookall (1989) o que importa não é que as pesquisas se refiram as estratégias como “técnicas”,
31 “Language learning strategies are specific actions or behavior accomplished by students to enhance their
learning.(…)These actions are naturally influenced by the learners’ more general characteristics or traits ,such as learning style”
“comportamentos”, “ações” ou “aprendizagem para aprender”, “solução de problemas”, “habilidades de estudo”; e sim, que as estratégias podem tornar a aprendizagem mais eficaz e efetiva.
Os pesquisadores não negam esta capacidade de melhorar a aprendizagem atribuída as EALs. Entretanto as muitas visões diferentes em relação à aprendizagem, ou até mesmo com relação a termos básicos, dificultam o entendimento do leitor, a clareza no uso pedagógico e o progresso das pesquisas.
Vilaça (2003) desenvolveu um quadro com terminologias que mostra de forma clara a relação entre autores e os termos por eles utilizados. Apresentamos esta tabela, na página 45, para uma melhor visualização desta relação.
No intuito de minimizar os problemas oriundos desta diversidade terminológica, alguns termos terão um maior esclarecimento. São eles: tática, técnicas, processos, procedimentos e estilo.
Quadro 04
Tabela comparativa de termos empregados por diferentes autores nas definições de estratégias e para se referirem às mesmas
Termos Rubin (1975) O’Malley e Chamot (l990) Oxford (1990) Cohen (l998) Ellis (2001) Brown (l994) Wenden (l987) Ações Atividades Comportamentos Dispositivos Ferramentas Métodos Modos de Operação Passos Pensamentos Processos Técnicas Fonte: Vilaça: (2003)
“Táticas” é palavra usada, às vezes, no lugar de “estratégias” e vice-versa. Oxford (1990) esclarece que ambas implicam em planejamento, competição, manipulação consciente e movimento em direção ao objetivo. Enquanto as “estratégias” são comandos, as
“táticas” são ferramentas para a realização destes comandos. No contexto de ensino/aprendizagem de línguas, as estratégias têm um sentido mais amplo de planos para aprender, que adotam uma ou mais táticas para sua realização.
“Técnicas de aprendizagem”, na visão de Stern (1996, p.405), é um termo que se refere às formas específicas do comportamento de aprendizagem observável, mais ou menos conscientes empregadas pelo aprendiz. Os hábitos de estudo ou procedimentos detalhados na negociação com aspectos específicos da aprendizagem de línguas, como procurar palavras no dicionário. E as estratégias são tendências gerais ou características totais de uma abordagem empregada pelo aprendiz de línguas.
“Processos” são definidos por Brown (2000, p.113) como um conceito mais geral em relação às estratégias. Sob uma visão behaviorista os apresenta como características universalmente pertinentes a todos os seres humanos com inteligência normal ao se ocuparem de certos níveis ou tipos de aprendizagem, como associar, transferir, generalizar e reduzir; e acrescentaque todos realizam uma conecção entre estímulo-resposta e reforço.
Para Vilaça (2003, p.158) toda “estratégia” é um “procedimento”, mas nem todo “procedimento” é uma “estratégia”, pois nem todo proceder é pedagógico e tem o intuito de refletir no processo da aprendizagem.
Alguns autores utilizam “estilo” como sinônimo de “estratégia”, pois os dois termos possuem traços comuns que permitem a descrição de abordagens individuais para situações de aprendizagem. São características cognitivas, afetivas e psicológicas que indicam de forma relativamente estável como os aprendizes percebem, interagem e respondem ao ambiente de aprendizagem (Keefe,1979 apud Spolsky, (1992,p.109). Entretanto, enquanto os “estilos são características que diferenciam os indivíduos uns dos outros, as estratégias são aqueles “ataques” específicos que nós fazemos a um dado problema” (Brown,2000,p.122)32.O termo estilo de aprendizagem se “...refere a abordagem geral preferida pelos alunos quando aprendem um conteúdo, adquirem uma língua, ou negociam com um problema difícil” (Reid,1998 e Oxford,2001 apud Oxford,2003)33 e as estratégias de
32 “Styles are general characteristics that differentiate one individual from another, strategies are those specific
“attacks” that we make on a given problem.”
33“…refers to the general approach preferred by the student when learning a subject, acquiring a language, or
aprendizagem se referem a ações ou comportamentos específicos para as mesmas propostas de aprendizagem. “O estilo de aprender é um conjunto de características impostas biologicamente e pelo desenvolvimento que faz com que o mesmo ensino seja maravilhoso para uns e terrível para outros” (Dunn e Griggs,1988, apud Nam e Oxford,l998,p.52)34 É frequentemente aceito que o estilo de aprendizagem de uma pessoa é o resultado de variáveis da personalidade, incluindo a constituição psicológica e cognitiva, a bagagem sociocultural e a experiência educacional.
Em 1990, Ehrman e Oxford identificaram, através da literatura existente, 20 dimensões de estilos de aprendizagem. Por exemplo, cada indivíduo reflete dimensões de estilo sensoriais de aprendizagem (visual, auditiva e tátil); dimensões de estilo social (extrovertido / introvertido) e dimensões de estilo cognitivo (concreto-seqüencial / abstrato- intuitivo; orientado para fechamento/ orientado para abertura; com foco nos detalhes / holístico e analítico / global). Há uma combinação entre estas dimensões que caracterizam o estilo de aprender do aluno, mas ninguém é absolutamente concreto-seqüencial sem possuir também alguma característica como abstrato-intuitivo.
Muitos alunos bem sucedidos são conscientes de suas preferências por estilos de aprendizagem, os quais são, para eles, mais confortáveis e fáceis de usar (Oxford et al.,1991 apud Nam e Oxford,l998,p.53). As autoras mostram que as preferências de estilos de aprendizagem freqüentemente ajudam a construir a escolha das estratégias de aprendizagem do aprendiz. Ela explica que um aluno com um forte estilo de aprendizagem visual tende a usar estratégias de tomar notas e sublinhar, enquanto um de estilo auditivo tende a usar estratégias de gravar as aulas expositivas e ouvir a gravação após a aula ter terminado. Aprendizes que têm um estilo analítico de aprender freqüentemente gostam de usar estratégias de dividir o material em pedaços menores, enquanto os de estilo global preferem estratégias que os ajudem a captar a idéia central rapidamente sem se atentarem para detalhes.
Cohen (2003, p.283) comenta dois estudos recentes sobre a relação estilo, estratégias e a tarefa. O primeiro, de Gallin, em l999, observou a relação na compreensão de leitura e percebeu que a preferência do aprendiz por estilos de aprendizagem intuitiva versus
34“ Learning style is the biologically and developmentally imposed set of characteristics that make the same
concreta-seqüencial pode afetar as estratégias que eles usam enquanto lêem na segunda língua. O segundo pesquisou as relações entre as preferências do estilo de aprender e o uso de estratégias para ouvir e percebeu que as preferências de estilo de síntese e estratégias de resumo, de planejamento e sociais foram usadas mais fortemente.
Oxford (op.cit.) enfatiza a importância de reconhecer o estilo de aprendizagem do aluno e encontrar as estratégias que combinam com este estilo, pois o desenvolvimento de qualquer aluno na L2/LE depende parcialmente do grau de entendimento de seu estilo de aprender e a escolha de estratégias que caibam neste estilo (Ehrman, l996; Oxford et al.,l991;.Reid,l995,l997). Ela também chama atenção para o fato de que as estratégias confortáveis para um estilo de aprendizagem de uma pessoa podem não ser as melhores para determinadas tarefas de aprendizagem, e assim, uma adequação e flexibilização ao estilo pode se fazer necessária, pois alunos não bem-sucedidos necessariamente não usam menos estratégias de aprendizagem que os seus colegas bem sucedidos; eles simplesmente empregam estratégias ao acaso, que não combinam com as suas próprias preferências de estilo de aprender e a tarefa proposta.
Os estilos se incluem nas muitas variáveis que afetam a escolha das estratégias, enquanto táticas, técnicas, processos, e procedimentos têm um vínculo conceptual com as estratégias através da palavra “ação” que está implícita no significado de todos os termos. Indiferente de estarem inseridos ou não no contexto da aprendizagem de línguas, o sentido geral destes termos aponta para entendimento de que são “ações que se realizam”, como pode ser observado nas definições dos dicionários que usam estes quatro termos, por vezes, como sinônimos entre si.
Os autores cujas pesquisas têm enorme relevância ao entendimento das EALs têm se utilizado com freqüência dos termos “pensamentos” e “comportamentos” (a tabela 5 permite uma visão clara desta terminologia). Este último parece abarcar todos os sentidos, pois significa maneira de proceder, de agir. Na esfera da psicologia, é um conjunto constituído pelas reações do indivíduo aos estímulos. Giordani (2004, p.30) exemplifica como as estratégias comportamentais envolvem também a esfera mental. “... o uso da estratégia de criação de imagens mentais ao ouvir uma estória, com o objetivo de tentar encontrar um contexto e visualizá-la, é estritamente mental, e não é possível sua observação. Por outro lado, olhar gravuras que ilustram uma estória, antes de ouvir a sua narração, é uma
estratégia comportamental e, portanto, possível de ser observada em sala de aula, mas nem por isso ela deixa de ocorrer em nível mental. Em outras palavras, as estratégias comportamentais são também mentais.”
Para uma melhor visualização, apresentamos, no quadro 05, na próxima página, as várias conceituações de estratégias, algumas já mencionadas anteriormente neste trabalho e outras de autores ainda não citados.