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B.1. Extended Forms of Validation Data

B.1.1. CAdES-X Long

Somos da opinião de que há uma estreita relação entre língua e meio social; sendo assim, a realidade lingüística reflete a realidade social. Ao longo desse capítulo, apresentaremos alguns pressupostos defendidos pela Sociolingüística Variacionista, dentre os quais a questão da variação e da mudança na língua, que nos servirão de fundamento teórico em nossa análise lingüística; ao lado disso, abordaremos o conceito de transmissão lingüística irregular como fundamental para explicarmos as variações ocorridas no português afro-brasileiro e o princípio da saliência fônica, que utilizaremos também na análise dos corpora das comunidades de fala de Cinzento, Helvécia, Barra/Bananal e Sapé.

3.1 A LÍNGUA SOB UMA PERSPECTIVA SOCIAL

A compreensão da língua como fato social apenas recentemente passa a fazer parte dos estudos e da pesquisa lingüística, com a advento da Sociolingüística. No entanto, desde o inicio do século XX, muitos estudiosos vêm discutindo questões acerca do caráter social da língua e podemos citar, como um dos precursores, Antoine Meillet (1866-1936), que enfatiza, no tratamento das questões lingüísticas, a associação entre língua e fato social, apresentando uma ‘‘convergência de uma abordagem interna e de uma abordagem externa dos fatos da língua e de uma abordagem sincrônica e diacrônica desses mesmos fatos’’ (CALVET, 2002, p. 15).

Nesse sentido, as idéias de Meillet vão de encontro à posição de que ‘‘a lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma’’ (SAUSSURE, 2003 [1916], p. 271), frase atribuída a Saussure e que encerra o Curso de Lingüística Geral. Na verdade, Meillet, em uma resenha que faz desse livro, declara que, ‘‘ao separar a variação lingüística das condições externas de que ela depende, Ferdinand de Saussure a priva de realidade; ele a reduz a uma abstração que é necessariamente inexplicável’’ (MEILLET, 1921

apud CALVET, 2002, p. 14).

Para Meillet, é essencial que se faça referência à diacronia, à história a fim de que se compreenda o fenômeno lingüístico; além disso, afirma que, por ‘‘ser a língua um fato social, resulta que a lingüística é uma ciência social, e o único elemento variável ao qual se pode recorrer para dar conta da variação lingüística é a mudança social’’ (MEILLET, 1921 apud CALVET, 2002, p. 16).

Meillet entende assim que a língua deve ser concebida como um fenômeno social e, portanto, pode receber influência dos fatores externos. Este estudioso reconhece ainda que há certa correlação entre a mudança lingüística e seu contexto externo, pois ‘‘tout fait de langue manifeste un fait de civilisation’’ (MEILLET, p. 1965 [1921], p. 168).

No entanto, durante muitas décadas do século XX, a concepção imanentista, consolidada com o estruturalismo, direcionou os estudos lingüísticos e explicava a mudança na língua principalmente a partir de fatores internos. Tendo isso em vista, o sistema lingüístico deveria ser estudado por suas relações estruturais, sem interferências do contexto social. Os fatores externos, por sua vez, apenas eram aceitos na interpretação da mudança na língua depois de esgotadas

todas as possibilidades imanentistas e, de certo modo, os estudos lingüísticos se limitavam às questões e às condições internas. Diante disso, Martinet (1978) esclarece que:

Sem nunca desprezar dados históricos de qualquer natureza, o diacronista só os fará intervir por último lugar, uma vez esgotados todos os recursos explicativos que o exame da evolução própria da estrutura e o estudo dos efeitos de interferência lhes proporcionam (MARTINET, 1978, p. 212).

Na verdade, durante a primeira metade do século XX, a dicotomia saussureana entre

langue e parole permeou os estudos lingüísticos. Nesse período, vigorou, grosso modo, uma

concepção de língua que consistia num sistema abstrato e uniforme a todos os falantes. Esta concepção, de certa forma, foi retomada por Chomsky em meados desse mesmo século.

O aspecto social da linguagem não era reconhecido diante do caráter uniforme da língua, que, por sua vez, era preservada pela concepção estruturalista como um sistema fechado, abstrato e homogêneo. Havia, nesse sentido, uma identificação entre homogeneidade e estrutura. Porém, na segunda metade do século XX, pelo menos uma parte dos estudos lingüísticos passa a dar ênfase a uma maior integração entre o fator social e a língua, de modo a destacar a variação e a heterogeneidade, como inerentes ao sistema lingüístico. Assim, ao se estabelecer uma correspondência entre língua e fatos sociais, passa-se a reconhecer a heterogeneidade e a diversidade lingüística.

Em 1964, William Bright organiza um encontro, em Los Angeles, entre vinte e cinco pesquisadores, para uma conferência sobre Sociolingüística, abordando temas variados, tais como: as línguas veiculares, a etnologia da variação lingüística, a hipercorreção como fator de variação, dentre outros. Em sua introdução, nas atas do Congresso, Bright esclarece que a sociolingüística visa a ‘‘demonstrar a covariação sistemática das variações lingüística e social. Ou seja, relacionar as variações lingüísticas observáveis em uma comunidade às diferenciações existentes na estrutura social desta mesma sociedade’’ (BRIGHT, 1966 apud ALKMIM, 2001b, p. 28).

Bright observa que é difícil definir com precisão a Sociolingüística, mas atenta para o fato de que não há variação ou diversidade livre, pois a variação está correlacionada às diferenças sociais e, sendo assim, a diversidade lingüística é o objeto de estudo da Sociolingüística. Além do mais, apresenta alguns fatores que supostamente estão relacionados com a diversidade na língua, tais como identidade social do falante, a identidade social do destinatário e o contexto social. Na

verdade, estes fatores representam, segundo Bright, três dimensões da sociolingüística, que são seguidas por mais quatro outras dimensões:

(i) a oposição sincronia/diacronia;

(ii) os usos lingüísticos e as crenças a respeito dos usos;

(iii) a extensão da diversidade com uma tríplice classificação: diferenças multidialetal, multilingual ou multisocietal;

(iv) as aplicações da sociolingüística, com mais uma classificação em três partes: a sociolingüística como diagnóstico de estruturas sociais, como estudo do fator sócio- histórico e como auxílio ao planejamento (BRIGHT, 1966 apud CALVET, 2002, p. 30). Para Calvet (2002), a conferência de 1964 marca o nascimento da Sociolingüística. No entanto, ‘‘Bright só pode conceber a sociolingüística como uma abordagem anexa dos fatos de língua, que vem complementar a lingüística ou a sociologia e a antropologia. É essa subordinação que vai pouco a pouco desaparecer com Labov’’ (CALVET, 2002, p. 30-31).

O lingüista americano William Labov, durante muitos anos, resistiu ao termo sociolingüística, ‘‘(...) pois implica que pode haver uma teoria ou prática lingüística que não seja social’’64 (LABOV, 1983, p. 23). Nesse sentido, Labov, a partir de pesquisas realizadas nos Estados Unidos, tenta demonstrar que há correlação entre as variantes lingüísticas e as variantes sociais e, conseqüentemente, entre língua e sociedade, o que possibilita que a variação existente naquela pode ser sistematizada. Para tanto, os dados coletados por Labov receberam um tratamento estatístico e, devido a isso, o modelo de análise laboviano foi rotulado de Sociolingüística Quantitativa.

Labov, assim como Meillet, concebe a língua como um fato social e desenvolve suas pesquisas tendo como objeto a língua falada, relacionando-a com os fatores externos. Daí a grande contribuição de Labov aos estudos lingüísticos, uma vez que, a partir de seus trabalhos, muitos lingüistas passaram a considerar a língua sob uma perspectiva social, encarando a diversidade, a variação como inerente ao fenômeno lingüístico, podendo ser estudada, sistematizada e regularizada. Além disso, Labov elaborou um modelo de analise quantitativa dos dados lingüísticos, dando a estes um tratamento estatístico, de forma a testar a correlação entre condicionamentos sociais e variáveis da língua.

3.2 A SOCIOLINGÜÍSTICA VARIACIONISTA: ESTUDOS SOBRE A

VARIAÇÃO E A MUDANÇA NA LÍNGUA

Em 1963, Labov realiza um primeiro estudo tendo como objeto a língua falada e sua relação com o contexto social e, portanto, de cunho sociolingüístico. A comunidade estudada é a da ilha de Martha’s Vineyard, no Estado de Massachusetts, costa leste dos EUA, onde analisa a variação entre ditongos. Empreende estudos também sobre o inglês falado em Nova Iorque, analisando a estratificação social do /r/, com amostras de fala colhidas em grandes lojas de departamento e o inglês vernáculo dos negros do Harlem (a língua do gueto), além de outras pesquisas de base sociolingüística na Filadélfia. De forma geral, podemos considerar Labov o mais importante representante do modelo teórico da Sociolingüística Variacionista.

Nesta pesquisa, pretendemos fazer uso dos pressupostos da Teoria Variacionista, uma vez que esta focaliza a variação como objeto de estudo, entendendo-a como um fenômeno passível de ser sistematizado e descrito. De acordo com esta teoria, toda variação é motivada, controlada por fatores e pode ser previsível. Portanto, nesse modelo, a aleatoriedade no uso da língua está fora de cogitação.

Para sistematizar a variação, temos de delimitar o que pretendemos analisar: a variável dependente65 e os fatores que a condicionam (variáveis independentes). Estes se referem tanto a fatores internos, quanto a fatores externos à língua.

O objeto de estudo da Sociolingüística é o vernáculo, a língua falada, utilizada em situações cotidianas e informais. Podemos conceituar o vernáculo como a língua falada em situações concretas de uso. Portanto, o objeto da análise variacionista é a variável lingüística, definida como o conjunto de diferentes formas de se dizer a mesma coisa, em um mesmo contexto, tendo o mesmo significado referencial ou denotativo.

O programa laboviano estuda a língua em uso, ressaltando seu caráter social, ou seja, para Labov (1983) há relação entre fatos lingüísticos e fatos sociais. Nesse sentido, a Sociolingüística busca estabelecer correlações entre as variáveis da língua e as variáveis sociais, como nível de escolaridade, faixa etária, sexo etc., concebendo a variação como inerente ao fenômeno lingüístico e não mais como exterior a este. Dessa sorte, a heterogeneidade lingüística passa a ser observada e analisada e a variabilidade da língua deixa de ser considerada livre ou aleatória,

sendo controlada por motivações sociais; diante disso, há uma correlação entre sistema lingüístico e meio social, de forma que se encara a variação da língua como alvo das pressões externas. O falante, dessa forma, utiliza certas variedades lingüísticas conforme determinados fatores, como estratificação, escolarização, idade etc.

Weinrich, Labov e Herzog (1968) afirmam que há sistematicidade e ordenação na variação e argumentam que a heterogeneidade é essencial ao fenômeno lingüístico, pois:

Parece-nos completamente inútil construir uma teoria da mudança que aceite como entrada descrições desnecessariamente idealizadas e contrafactuais de estados de língua. Muito antes que teorias preditivas da mudança lingüística possam ser buscadas, será necessário aprender a ver a língua, quer de uma perspectiva diacrônica, quer de uma perspectiva sincrônica, como um objeto possuindo heterogeneidade sistemática.

(...)

Um dos corolários de nossa abordagem é que, numa língua servindo a uma comunidade complexa (isto é, real), é a ausência de heterogeneidade estrutural que seria disfuncional’’ (WEINRICH, LABOV, HERZOG, 1968, p. 100-101).66

De fato, o caráter heterogêneo e variável da língua possibilita a sua plena funcionalidade dentro de uma comunidade também heterogênea. Nesse sentido, a Sociolingüística busca demonstrar que há uma interpenetração entre os aspectos externos e internos da linguagem e, assim, a variação da língua está em função tanto dos fatores extralingüísticos, quanto lingüísticos.

O modelo variacionista apresenta uma diferente concepção de objeto, pois busca estudar a língua falada. A variação, antes considerada aleatória, passa a ser essencial ao sistema lingüístico, sendo estudada de forma sistemática, pois faz parte do funcionamento da língua, contribuindo para os processos de mudança. Daí o modelo variacionista conceber a língua como um sistema heterogêneo e variável.

O programa laboviano visa a sistematizar a natureza da variação, rompendo com a dicotomia saussureana langue/parole, relacionando a heterogeneidade lingüística observável na

parole e o sistema homogêneo e abstrato da langue. Apresenta, assim, o princípio da regra

variável, que, diferentemente das regras categóricas da gramática gerativa chomskyana, pode ou não se aplicar.

66 ‘‘It seems to us quite pointless to construct a theory of change which accepts as its input unnecessarily idealized

and counterfactual descriptions of language states. Long before predictive theories of language change can be attempted, it will be necessary to learn to see language -whether from diachronic or a synchronic vantage- as na object possessing orderly heterogeneity. (...). One of the corrollaries of our approach is that in a language serving a complex (i.e., real) community, it is absence of structured heterogeneity that would be dysfunctional’’ (Tradução nossa).