A Nakba, representada pela criação do Estado de Israel, pela expulsão de milhares de palestinos de suas terras e de seus lares e pelo fim do sonho palestino de construírem um País independente, não apenas retomou o fluxo de novos imigrantes para o Brasil como também marcou o início da terceira fase da imigração, quando muitos palestinos que procuravam fugir da guerra refugiaram-se em países vizinhos ou emigraram para outros continentes. Nessa ocasião, numerosas famílias palestinas, sobretudo as que já tinham parentes residindo no País, aproveitaram o fato de que o fim do Estado Novo havia afrouxado as restrições à entrada de estrangeiros e voltaram a emigrar para o Brasil em busca de segurança e de melhores condições de vida. Em seu relato Tânia Bechara Asfora diz:
[...] eles saíram na primeira oportunidade que tiveram [...], o lugar que dá para entrar mais fácil... Eles vieram porque eles fugiam da Guerra. Eles vieram não em busca de trabalho, para procurar melhoria, vieram realmente pra não morrer, porque estavam fugindo da Guerra.
Carmem Frej Hazineh ainda vivia na Palestina na ocasião em que foi criado o Estado de Israel e quando eclodiu a guerra entre árabes e judeus. Em entrevista realizada durante o meu trabalho de campo ela narrou:
Nós viemos aqui quando foi decretado o Estado de Israel, quando foi partilhada a Palestina, nós viemos em 49. Eles começaram a invadir, chegados do exterior, de todos os países, e começaram a invadir a Palestina. Eles não chegavam por bem não. Eles vinham e tiravam as pessoas das casas. Tiravam. Muitas vezes eles matavam as pessoas. Por exemplo, meu pai tinha uma tia que ela morava sozinha eles enfiaram uma peixeira na barriga dela. Não só foi na dela não foi na de muita gente. Eles matavam para tomar as casas. [...] Nós chegamos aqui em 49, eu tinha 10 anos. Nos quatro ou cinco anos, quando foi decretado o Estado deles [Israel] foi que a coisa ficou mais complicada. Nós éramos sete. Cinco irmãos e meus pais. Depois de um tempo veio minha tia e meu avô, da família Alliz. [...] Foram expulsos milhares de palestinos. E os que ficaram, à noite, ninguém acendia as luzes não. Ou botava uma cortinas escuras ou ninguém acendia a luz. Em noite de lua cheia, não eram todas as noites não. Lá em casa mesmo, em noite de lua cheia, minha mãe colocava umas cortinas escuras pra não ficar escuro dentro de casa, não é? Por que os aviões ficavam rodando para jogar bombas. Para eles matarem, para jogar bombas para invadir as casas.
O relato de Carmem Frej Hazineh é complementado pelo de seus filhos, André e Marcelo, que e nasceram em Recife. Na entrevista, eles deram o seguinte depoimento:
Ele [o pai] ainda permaneceu lá, foi escoteiro. Ela [a mãe] veio na frente com a Família [em 49] e meu pai veio sozinho em 52. [...] Ele foi escoteiro lá, na infância e trabalhava com nosso avô por parte de pai que era carpinteiro. Tanto é que meu pai tinha habilidades manuais, inclusive meu papai trabalhou depois em fábrica de tecelagem. Foi nos momentos finais, depois, partiu da Palestina. Em 52, com todas as consequências da invasão, da ocupação, ele veio pra cá. Veio porque ele trabalhava numa fábrica, perdeu o emprego, não arrumou mais serviço depois que os judeus invadiram e foi decretado o Estado de Israel, aí não tinha mais emprego pra ninguém. Aí, minha tia, que morava aqui , mandou buscar ele.
Nos primeiros meses da guerra com Israel, em dezembro de 1948, um pequeno grupo de nacionalistas palestinos se reuniu na cidade de Jericó e decidiu a favor da anexação da Cisjordânia e Jerusalém Oriental à Transjordânia, formando o Reino Hashemita da Jordânia58 (mapa 12). “A faixa de Gaza ficou sob a tutela egípcia” (SAFIEH, 2001). Esse foi um período em que muitos imigrantes cristãos que ainda estavam em Belém, Jerusalém, Ramallah e em outras cidades palestinas ainda imigraram para o Recife. Em minha entrevista, Helen Khouri Asfora, uma palestina cristã nascida em Jerusalém Oriental após a anexação dessa pela Jordânia, dá o seguinte depoimento:
Chegamos ao Brasil em dezembro de 1960. [Cheguei] com nove anos. A gente não veio como palestinos porque a Palestina já não existia. A gente veio como jordanianos. Meus pais são palestinos. [...] Quando houve a Guerra em 48, os palestinos foram retirados [...] de uma parte que hoje é Israel e levados para outra parte. [...] Então eles que perderam documentos e tudo, tiveram que criar novos documentos, criar tudo novamente como jordanianos. Eu nasci em Jerusalém, mas já era Jordânia, pertencia à Jordânia, ainda não pertencia a Israel. Só passou a pertencer a Israel em 1967, depois da Segunda... [guerra, a Guerra dos Seis Dias]. Foi onde os palestinos tinham ficado entre 48 e 67.
Mapa 12: O Reino Hashemita da Jordânia, de 1948 até 1967 Fonte: Para falar de História. Acesso em 11.07.2016. Disponível em:
https://sites.google.com/site/parafalardehistoria/arqueologosdaeja/hebreus
Antes de minha pesquisa de campo as informações preliminares indicavam que quase todos os palestinos cristãos haviam chegado nas duas fases iniciais da imigração, isto é, até a
58 A intenção era preservar em mãos dos árabes o que restara do território palestino que ainda não havia sido
criação de Israel. Contudo, o ‘campo’ demonstrou o contrário e além de Hellen e de Carmem, cujas narrativas foram apresentadas acima, eu pude entrevistar muitos outros cristãos que chegaram nessa fase tardia da imigração. Segundo Hanna Safieh:
Por exemplo, Hissa Hasbum veio nessa vaga, porque os tios dele, os filhos de Abdala Asfora, João Asfora, Hissa Abdon Asfora, estavam bem estabilizados lá [em Recife], certo? A mãe de Hissa é irmã de João, é filha de Abdala. Aí chegou para os tios aqui e começou a trabalhar com os tios que eram comerciantes. Os tios ficaram sócios com ele e abriram um supermercado em Recife. [...] abriram 22 supermercados. Resultado, quando estabilizou um pouco, trouxe os irmãos, um que já era casado, trouxe as duas irmãs dele, depois chegou a terceira irmã dele... O estilo da imigração palestina.
Nessa terceira fase da imigração os muçulmanos passaram a ser maioria e as regiões Sul e o Sudeste passaram a ser as preferidas como destino final. Vale salientar que grande parte desses imigrantes muçulmanos não veio diretamente da Palestina para o Brasil. Muitos já haviam emigrado para outros países do Oriente Médio, do Norte da África ou da América ou viviam em campos de refugiados dispersos por alguns países da região, como Jordânia, Líbano, Kuwait e Egito. Conforme o relato de Hanna Safieh:
Aí, a maior parte da população [palestina] foi expulsa, 78% da Palestina foi ocupado pelo Estado de Israel. [...] logo após isso vai ter outra vaga de emigração. [...]. Nós estávamos falando aqui que essas vagas eram quase todas cristãs, mas a de 48 não, na de 48 chegaram cristãos aqui mas também começaram a chegar os muçulmanos, em número grande e chegara aqui como nos Estados Unidos e outras partes do mundo.
Os anos seguintes continuariam conturbados e seriam marcados por grandes transformações políticas e pelo crescimento do movimento nacionalista árabe. Em 1956 o presidente Nasser, do Egito, anunciou a nacionalização do Canal de Suez. Em represália, Inglaterra, França e Israel assinam um acordo secreto em Sevres para atacar o Egito e logo em seguida invadem e ocupam a região do canal. No mesmo ano, em Assembleia Geral, a ONU votou pela retirada das forças estrangeiras do território Egípcio, o que foi feito ainda em 1956 pelos ingleses e franceses, mas não por Israel, que “só se retirou em março de 1957 depois de uma exortação dos Estados Unidos ameaçando Israel com sanções internacionais”. A Vitória dos árabes na Guerra do Suez fortaleceu ainda mais o movimento nacionalista árabe “e Nasser ficou consagrado como o líder máximo do mundo árabe”.
Em 1967 Israel voltou a atacar os países vizinhos e a conquistar novos territórios no confronto que ficou conhecido como Guerra dos Seis Dias. Agindo secretamente, a aviação israelense invadiu o espaço aéreo do Egito e da Síria e destruiu praticamente todas as aeronaves em solo. “Ao fim de seis dias, Israel havia ocupado toda a Península do Sinai no Egito, a Cidade Velha de Jerusalém, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza
[até então territórios palestinos sob controle jordaniano ou egípcio] e as colinas sírias de Golã”.59
(SAFIEH, 2010).
Os anos que se seguiram à Guerra dos Seis Dias também foram anos de medo e de muita opressão sobre as populações palestinas remanescentes que ainda viviam na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, agora ocupadas por Israel e como em épocas passadas, testemunharam mais um grande movimento migratório de palestinos para o Brasil. Hanna Safieh que nessa ocasião morava na Bélgica relata a sua vinda para o País:
A outra imigração foi em 67, depois da Guerra dos Seis Dias. [...] Essa de 67 teve dois tipos de migrantes, os imigrantes forçados, que se encontravam fora da Palestina, por exemplo, eu, que estava estudando na Universidade [na Bélgica]. Igual a mim tinham outros. Quem não estava naquele local [na Palestina], não foi registrado, acabou, ‘morremos’ [não poderia mais retornar à Palestina]. Eu e meu irmão, Afif, que é embaixador da Palestina, estávamos na Bélgica. Nós recorremos a ONU para poder visitar nossos parentes, nossos pais. Nós tivemos direito a um mês e não podia ser os dois no mesmo mês [...]. Só conseguimos entrar para visitar nossos pais em 68[...]. Meu irmão foi em julho, eu fui em agosto. Todo esse processo levou um ano para poderem nos dar um Laissez-passer para podermos entrar e visitar os pais.
Catarina Frej Hazin é filha de palestinos cristãos nascidos no Brasil e viajou à Palestina em 1972 com a sua mãe para conhecer a família dela que ainda morava lá. Apesar de muito jovem naquela ocasião (dez anos), guardou na memória os momentos de tensão que ainda prevalecia na palestina:
Era onde tio Chucre, tio de mamãe morava, irmão de vovó Afif tinha casa e a gente ficou hospedada na casa deles. E aí, quando a gente saía para jantar na casa do povo, de noite, da família, dava nove horas da noite eles ficavam ‘atacados’ pra voltar pra casa porque podia ser que a gente voltasse e encontrasse a casa invadida pelos judeus. A gente escutava os bombardeios, [...] eu me lembro perfeitamente. Eu lembro que escutei bombardeios, lá no além, a gente escutava.
Nesta terceira fase da imigração iniciada depois da Nakba em 1948, o perfil do imigrante palestino mudou substancialmente, e não apenas no tocante à religião, que deixou de ser predominantemente cristã. Mudou também a origem dos imigrantes, que não era mais necessariamente de Belém ou Jerusalém ou de alguma aldeia palestina, mas quase sempre de um campo de refugiados localizado na própria Cisjordânia ou em outros países vizinhos, como Jordânia e Líbano principalmente. E finalmente, mudou escolha do destino no Brasil. O Nordeste, preferido pela maioria dos palestinos nas duas primeiras fases da imigração, perdeu espaço para algumas capitais do Sul e do Sudeste do País e para algumas regiões de fronteiras,
59 Nessa ocasião Israel anexou o que restava da Cidade de Jerusalém ao seu território e ocupou militarmente as
colinas sírias de Golã, a Península egípcia do Sinai, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A Península do Sinai foi devolvida ao Egito em 1982 e a Faixa de Gaza em 2005, embora permaneça bloqueada por terra, mar e ar até os dias atuais.
como as cidades de Foz do Iguaçu no Paraná, Chuí no Rio Grande do Sul ou Corumbá no Mato Grosso do Sul. O Recife continuou a receber imigrantes palestinos durante todo esse período, sempre cristãos, mas depois da Guerra dos Seis Dias, os números são pouco expressivos, principalmente se comparados com os imigrantes que chegaram durante a segunda fase da imigração ou mesmo dos que chegaram na terceira fase, mas escolheram outras regiões do País. Segundo Hanna Safieh “essa vaga que chegou ao Brasil era mista, tinha muçulmanos e tinha cristãos, mas era mais muçulmana e essa vaga chegou. Não para o Nordeste, chegou mais para São Paulo e de São Paulo foi descendo [...]”. E para Alberto Asfora, um recifense neto de palestinos belenenses,
Os muçulmanos vieram mais quando a guerra atingiu os libaneses [a Guerra Civil libanesa]60, aí eles vieram pra cá, vieram muitos palestinos [No Líbano, muitos moravam em campos de refugiados]. Por exemplo, em São Paulo mesmo, a gente tinha lá um clube, eu era até diretor do Clube Árabe, não é [...], eu ia lá pra divulgar e a gente fazia uma festinha todo sábado e a gente via a presença maciça de palestinos muçulmanos.
O último grande movimento migratório árabe para o Brasil esteve diretamente associado à Guerra Civil Libanesa, pouco depois que as diversas organizações paramilitares da Palestina, entre elas a Frente Popular para Libertação da Palestina - FPLP e a própria OLP61 entraram em confronto com os exércitos jordanianos e foram expulsos do País em setembro de 1970, no episódio que ficou conhecido por Setembro Negro. Depois disso a OLP transferiu suas milícias para o Líbano, de onde continuou sua luta contra Israel para a libertação da Palestina. O conflito no Líbano que durou aproximadamente 15 anos (de 1975 a 1990) tinha suas raízes no sectarismo religioso libanês que já se delineava desde o período da dominação otomana, mas que foi bastante estimulado pela chegada ao País de milhares de refugiados palestinos desde a ‘Nakba’ em 1948 e sobretudo pela Guerra dos Seis Dias com Israel em 1967 e pelo o episódio Setembro Negro em 1970 com a Jordânia. Durante os quinze anos de Guerra Civil o País foi abalado por uma série de atrocidades cometidas pelas diversas partes envolvidas no conflito (palestinos, israelitas e libaneses principalmente), culminando com os massacres de Damour onde os palestinos mataram dezenas de libaneses e os de Sabra e Chatila, quando os maronitas cristãos do Líbano massacraram três mil palestinos que estavam em campos de refugiados.
60
A Guerra Civil Libanesa durou 15 anos (1975 a 1990). Nesse período, muitos palestinos que ainda viviam em campos de refugiados no Líbano imigraram para o Brasil.
61 A FPLP - Frente Popular para Libertação da Palestina comandada por George Habash e a OLP - Organização
para Libertação da Palestina, comandada por Yasser Arafat, eram as mais fortes organizações paramilitares da Palestina que lutavam contra Israel a partir da Jordânia e depois de sua expulsão pelo rei Hussein, transferiram suas milícias para o Líbano.
Meu informante Hanna Safieh e sua esposa brasileira sentiram ‘na pele’ as consequências Guerra dos Seis Dias, quando eles estudavam na Bélgica e ficaram impedidos de retornar à Palestina, e depois, durante o episódio do Setembro Negro, quando os dois estavam na Jordânia na ocasião em que os palestinos foram expulsos do País. Sua narrativa é de discriminação étnica, nem tanto pelo jordaniano, mas principalmente por parte do Libanês:
A primeira vez que eu senti discriminação foi quando eu terminei o colégio em 1960 e fui para o Líbano fazer matemática. E foi nos Jesuítas. É certo que eu vivi num ambiente palestino, porque quando você fala Jordânia, naquela época, era Palestina, 80 a 90% da população da Jordânia era palestina [...]. Resultado, eu nunca senti uma discriminação porque sou palestino. Chego no Líbano, e percebo o desprezo com que o libanês fala do palestino. [...] A primeira vez que eu vi a palavra ‘palestino’ como sendo pejorativo. Eu estava num ambiente da escola Jesuíta, imagine. [...] Foi onde eu enfrentei a realidade palestina. Quando vi essa discriminação contra os palestinos, não estou falando dos palestinos ricos [...], não eram esses que eram discriminados. Eram aqueles que estavam como refugiados. Isso que me rebelou. O que foi que fiz, eu fui visitar os palestinos nos acampamentos [...]. Foi lá que conheci o verdadeiro sofrimento do povo palestino, o que significa o refugiado palestino. [...] É impressionante, quando as pessoas passam a ser ricas começam a esquecer sua cultura, sua história e começam a ser arrogantes. Eu não estou falando dos cristãos libaneses, estou falando dos libaneses, quer sejam cristãos, muçulmanos, não sei o que lá... E a discriminação do palestino lá era geral. Pra eles, o palestino é aquele refugiado que está lá, a quem não deram permissão de trabalho, não deram nacionalidade, ficava lá no acampamento fazendo biscate aqui e dependia da ONU (Fotografias 34 e 35).
Durante a Guerra Civil Libanesa, muitos desses palestinos que se encontravam em campos de refugiados no Líbano imigrariam para o Brasil com o objetivo de começar uma nova vida. Porém, como já dissemos, diferentemente das levas anteriores, a maioria desses imigrantes era pobre e quase todos eram muçulmanos. Os palestinos cristãos já não emigravam mais para o Brasil e como explicou Safieh, desde a Guerra dos Seis Dias, a maioria escolheu a Austrália.
Fotografias 34 e 35: Campos de refugiados palestinos em países do Oriente Médio Fonte: UNRWA (Nações Unidas). Acesso em 12.07.2016. Disponível em: http://unrwa.org.br/umalongajornada/