DISCIPLINE : MATHS CLASSE : 6EME
PARTIE 1 : ACTIVITÉS NUMÉRIQUES
O terceiro elemento formador da identidade árabe e indissociável de sua fé e de sua localidade de origem é a sua família. Cada cidade ou aldeia possuía uma ou algumas famílias importantes cuja influência, não raramente se contrapunha ao das autoridades religiosas ou políticas. “A identificação dos moradores das aldeias com seu respectivo líder e grupo era completa e carregava o mesmo sentido de honra e orgulho encontrados em outros elementos da identidade”. Na Palestina do final do século XIX e do início do século XX, cada indivíduo adquiria desde muito cedo um forte sentimento de pertencimento a sua própria família e ainda criança, aprendia a honrá-la e respeitá-la. “O sentimento de honra, cuja origem, num passado distante, foi o pertencimento a tribos, tem hoje como fonte primária a família ampliada, capitaneada pelo patriarca, o responsável pela renda e riqueza da família”. (TRUZZI, 2008, p. 33-35).
Segundo Elali, a ocupação inicial do local onde está situada a cidade de Belém e os distritos de Beit Jala e Beit Sahur se deu com a chegada à região de duas tribos rivais, que dividiram o território e lá se estabeleceram44. “Acredita-se que a tribo de Qais veio do Hijaz, no Norte da Península Arábica e que a de Yaman proveio do Iemen, ao Sul da Península
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Na falta de uma igreja ortodoxa em Recife, religião professada pela maioria dos imigrantes, a conversão ao catolicismo se dava de forma quase automática.
Arábica”. Segundo ele, os conflitos teriam continuado mesmo nos territórios conquistados pelas duas tribos:
As tradições orais ainda em voga afirmam que Belém e Beit Sahur são Yaman e que Beit Jala é Qais. Cada tribo tem sua própria cor. O vermelho era a cor de Qais e o branco a de Yaman. A cor tribal aparecia na bandeira, era usada por todos os membros, aparecia também nos véus das mulheres e mesmo no véu e grinalda das noivas. Quando usavam o vermelho, as de Qais eram proibidas de cruzar a região dos Yaman durante o cortejo nupcial. Do mesmo modo, se uma noiva de Yaman tivesse de cruzar a região dos Qais, teria de trocar suas roupas brancas por outras vermelhas (ELALI, 1995, p. 193).
Até hoje, a cidade de Belém é dividida em quarteirões tribais que foram criados há muito tempo atrás quando as grandes famílias ou parentelas se reuniram em grandes complexos residenciais.
Cada quarteirão tinha um pátio (casa de hóspede) onde os homens do quarteirão se reuniam para discutir os afazeres do dia-a-dia, negócios e assuntos privados... Cada quarteirão tinha um sheik (o decano do quarteirão) que cuidava dos seus interesses. Os sheiks se reuniam para discutir muitos assuntos, tais como a defesa da cidade contra qualquer agressão ou injustiça. Por exemplo, o sheik da tribo Khamasah (tribo muçulmana que veio de Wadi Musa, na Transjordânia) era muito hostil ao povo da cidade e chegou a invadir algumas dependências do Convento Ortodoxo Grego, e ali residiu. Ele começou a impor o seu domínio com arrogância, injustiça e abuso. Em respeito, os sheiks dos seis quarteirões cristãos e do (sétimo) quarteirão muçulmano, Fawagrah, reuniram seus homens para defender a honra deles e da cidade45. Planejaram uma emboscada no dia das núpcias dos três filhos do sheik, no pátio da Igreja da Natividade. Atacaram e mataram o sheik e alguns dos seus amigos. Os demais fugiram e nunca mais retornaram. Isso aconteceu em meados do século dezoito” (ibidem, p. 58 e 59).
No século XIX o governo turco decidiu mudar a constituição e restabelecer a sua autoridade, supervisionando a nomeação dos chefes dos quarteirões e do conselho municipal:
Primeiro ocorreu a aprovação da nomeação de um ‘Mukhtar’, um chefe de quarteirão para cada um dos sete quarteirões, que seria ‘o melhor de seu povo’. Cada quarteirão escolhia o seu chefe e submetia o seu nome às autoridades a fim de que fosse ratificado e assim, habilitado a usar o carimbo do seu posto. Seus deveres incluíam cuidar dos interesses de seu quarteirão e da cidade... Ele era o elo entre o quarteirão e as autoridades constituídas. Ele se apresentaria se a polícia vasculhasse alguma casa, de modo a proteger os interesses do proprietário da casa (ibidem, p. 59 e 60).
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Os sete quarteirões eram: 1. Farahiyya, assim chamado por causa de seu antepassado Farah, que veio de Wadi Musa no ano 600; 2. Najajrah. Vieram de Najran, em Al Yaman, lar da cristandade da Península Arábica, no ano 635; 3. Anatrah, procedentes de Tal Antar, ao sul do castelo de Herodes, no ano 170; 4. Hraizat, vieram de Um Tuba, ao Sul de Jerusalém; 5. Qawawsah, procedentes de Tekoa, na atual Turquia; 6. Tarajmah, remanescentes dos Cruzados; 7. Fawagrah, o único dos sete quarteirões remanescentes que é muçulmano. Veio do vilarejo de Fagur, ao sudoeste das Piscinas se Salomão.
Ao se referir aos sírios e libaneses, Oswaldo Truzzi explica que “a religião e a aldeia (ou cidade) definiram os laços básicos de lealdade entre os aqui chegados. A unidade sustentadora de tais laços foi a família ampliada” (TRUZZI, 2008, p.33). Tudo isso ajudou a moldar o sentimento de devoção do povo árabe à família a qual ele pertence. Essa devoção, por sua vez, marcaria definitivamente o modelo de inserção que foi adotado no Brasil. Como veremos nos capítulos seguintes, grande parte do sucesso da empreitada imigrantista estaria condicionada ao estabelecimento e funcionamento de uma rede de solidariedade étnica que existiu nos primórdios da imigração e que em Recife, mais do que em outros destinos da imigração árabe no Brasil, baseou-se na homogeneidade de religião, na aldeia de origem e, sobretudo, na pertença familiar.
3 FATORES QUE DEFLAGRARAM A IMIGRAÇÃO
Toda imigração, mesmo a dos pioneiros mais entusiastas, é uma experiência inevitavelmente dolorosa, e muitas vezes, tão traumatizante que seus efeitos são ressentidos indiretamente por várias gerações consecutivas.
Slimane Zéghidour
Ao embarcarem para o Brasil há mais de cem anos, os primeiros imigrantes palestinos deixavam para trás não apenas as suas casas, seus bens e seus amigos, sua cultura e o seu modo de vida. Deixavam também suas próprias famílias, que como vimos acima, era um dos pilares de sua identidade e um dos elementos mais importantes de sua própria existência. Sós ou na companhia de um irmão, de um tio ou de um primo qualquer enfrentavam uma aventura rumo ao desconhecido em terras distantes e inóspitas para conviver com pessoas e costumes desconhecidos. O que levaria tantos imigrantes árabes a decidirem pela emigração, mesmo diante de tantas incertezas?
Em geral, as teorias das migrações indicam que causas econômicas e políticas estão quase sempre por detrás da decisão de emigrar, mas no caso dos imigrantes árabes de todas as nacionalidades que vieram para o Brasil, isoladamente, as causas econômicas e políticas talvez não sejam suficientes para explicar um fluxo imigratório espontâneo tão intenso e duradouro, sobretudo para o sul e sudeste do Brasil. Nesse capítulo, portanto, pretendo fazer uma reflexão sobre as possíveis causas que deflagraram e sustentaram por tanto tempo a imigração palestina no Recife, que em muitas ocasiões era motivada por fatores completamente diferentes das demais imigrações árabes provenientes de outros países e que na mesma ocasião chegavam a outras regiões do Brasil.