Um dos rituais de extrema importância para a reprodução cultural deste povo, segundo Zannoni (1995), é a chamada “Festa do Moqueado”, que se pratica na passagem da puberdade para a idade adulta das adolescentes Guajajara.
Tal ritual, conforme os relatos dos autores que pesquisaram o tema, vem sofrendo alterações ao longo dos anos. Pesquisas mais antigas, como as de Wagley e Galvão (1955), relatam que antigamente, após a primeira menstruação, a menina moça ficava reclusa em pequenas “tocaias” distantes da aldeia cerca de 50 metros, já Silva (1995) e Zannoni (1995) descrevem a reclusão dentro da casa do pai improvisada com palhas.
Todos são unânimes ao afirmar que elas têm seus corpos pintados com jenipapo, que ficam reclusas e com abstinência alimentar de carnes de caça, que se prolonga até o dia da festa, a qual pode variar de meses a anos, a depender da quantidade de caça obtida. Zannoni (1995) afirma que elas têm as franjas dos cabelos cortados após a pintura e que não podem sair nem para satisfazer as necessidades fisiológicas. Indica também que neste mesmo dia os
cantores da aldeia, contando a participação de outras mulheres, encenam com os maracás8 e cantam pedindo proteção para a jovem menstruada contra os espíritos maus.
Neste período, a menina reclusa apenas poderá beber água aquecida, deverá olhar sempre para frente e não abandonar o isolamento, mesmo que seja, como já foi dito, para satisfazer necessidades fisiológicas. Caso saia, deverá ir acompanhada por uma criança da família, para evitar assombrações. Sob sua rede é colocada uma esteira de palha de coco babaçu, para evitar que pise no chão. Neste período ela não poderá coçar os olhos, nem a cabeça, com as unhas, evitando dessa forma, a cegueira nos olhos e, na cabeça, as caspas (SILVA, 1995).
Durante esse período, também não pode tomar banho, porque o espírito da água gosta, particularmente, de moça pintada e pode levá-la. Assim, a partir do segundo dia ela é asseada pela avó, da cintura para baixo, com água morna, visto que água fria é considerada para eles água viva. A comida é sempre aquecida para não fazer mal durante esse resguardo e um beiju quente é colocado em sua cabeça afim de não criar cabelos brancos (ZANNONI, 1999).
Passado os sete ou dez dias, o fim do isolamento é marcado por um banho depois de ser instruída pelas mulheres mais velhas (mães e avós) sobre a vida adulta. Antes de sair da reclusão, a moça é avisada com uma batida na parede do quarto por um jovem com uma palha, rompem-se umas tripas de cutia que estão atravessadas na porta e inicia uma corrida perseguida pelos rapazes até o local onde será banhada com água dormida contendo folhas de batata doce (ZANNONI, 1995).
Após o banho volta para casa, onde terá que realizar algumas atividades domésticas específicas das mulheres adultas, demonstrando que é bem disposta ao trabalho. A primeira delas é servir o mingau para os participantes do ritual, posteriormente começa a ralar a mandioca para tirar goma, quando o dia amanhece varre a casa e faz outras atividades domésticas (ZANNONI, 1999).
Daí em diante, o pai da moça convida os homens da aldeia para saírem para caçar e trazerem carne suficiente para a refeição formal, que tem lugar diante da cerimônia. A carne de caça é conservada através do sistema de moqueado, que consiste em colocar a carne em cima de um jirau onde há fumaça contínua que, ao mesmo tempo, espanta insetos, desidrata e conserva a carne (SILVA, 1995).
Zannoni (1995) explica que há todo um ritual para os caçadores irem à mata efetuar a caçada: “Se pintam de urucum e jenipapo, e cobrem a cabeça de folhas do mato, cantam e tocam buzinas e apitos,” o que serviria para pedir permissão aos espíritos da floresta. A cerimônia costuma ser iniciada na lua cheia, porque assim se pode enxergar a noite e proteger a moça e os cantadores. A lua cheia é considerada lua sadia, lua gorda, lua redonda, na qual a moça tem que se orientar para ser formosa, robusta e ter bons partos (ZANNONI, 1999).
No dia da cerimônia, bem cedo, os parentes mais próximos cuidam da decoração das jovens que vestirão uma saia longa por cima dos corpos totalmente pintados com jenipapo e ornados de penas de pássaros, grudadas ao seu corpo da cintura para baixo e usam uma franja de penas sobre a fronte (SILVA, 1995; ZANNONI, 1995).
Os demais jovens recebem uma faixa de tecido de algodão, tingida de vermelho com urucu, que será amarrada em seus braços e pernas. O corpo também é pintado com jenipapo e todos usam cocar e colares, além desses ornamentos, levam também a haste decorada de uma flecha (SILVA, 1995).
À tarde a carne é retirada do jirau e são cozidas em pedaços em água sem sal. Ela será trocada várias vezes. As primeiras que contêm a fuligem são desprezadas enquanto as demais são usadas para serem misturadas com a farinha, para ser consumido durante a festa (ZANNONI, 1995).
Os convidados das demais aldeias ao se aproximarem do local da festa dão salvas de tiros avisando, assim, que estão chegando. A cerimônia se inicia com o toque do maracá. A partir daí começam os cantos e as danças, que se prolongam por toda a noite, durante a qual uma parte do moqueado é consumida ficando outra parte para o final da festa, quando se distribui a carne cozida na água durante toda a noite, junto com a farinha de mandioca (SILVA, 1995).
Uma mudança atual referida por Zannoni (1995) é o fato de atualmente as moças serem retiradas por volta das 22 horas para descansar até antes do amanhecer, quando voltam para a cantoria que só finaliza por volta de oito e trinta da manhã, momento em que as jovens são colocadas sentadas em esteiras e comem um pedaço de carne oferecido geralmente pelo cantor.
Antes de oferecer a carne para a moça o cantor principal ajoelha-se frente a ela e passa um pedaço da carne nas articulações dos braços e das pernas dizendo:
Esse daqui estou passando para não dar dor de cabeça, não dar convulsão, não dar epilepsia, não dar eclampsia, pra você quando parir não variar, não perder a mente.
Você vai ter o direito de comer tudo sem inchar a barriga pode comer farinha de puba, carne de porco, carne de gado e não vai ter nada. Pode comer tudo que tiver direito. (ZANNONI, 1999, p. 75).
O fim do ritual simboliza não somente o momento no qual a moça está liberada para comer as carnes antes ditas como “remosas”, mas principalmente a introdução da moça na fase adulta, na qual está liberada para casar, ter filhos e, assim, contribuir para o aumento da família, o que gerará braços para o sustento econômico (ZANNONI, 1995).