Propositions - Contributions
3.2 Méthode de création des modèles de simulation .1Introduction.1Introduction
3.2.3 Une approche matricielle
3.2.3.6 D’un acteur à l’autre : du modèle du produit à la simulation
A discussão sobre os critérios de seleção de casos em análises qualitativas envia-nos para as questões da “causalidade”, “representatividade” e “generalização”. A capacidade de explicação das pesquisas qualitativas é por vezes posta em causa a partir de dois argumentos - o número reduzido de casos observados e a forma de seleção dos mesmos -, algo que poderá estar relacionado com uma conceção empirista da explicação em ciências sociais e/ou com a transposição “espontânea” de critérios da análise estatística para a pesquisa intensiva76.
Esse modo particular de conceber a análise causal, embora seja em grande medida fruto de uma filosofia espontânea (Pinto, 1984; Almeida, 2007), parece inspirar-se no legado do empirismo lógico, proposto pelo Círculo de Viena nos anos 30 do século XX, sendo denominado por alguns autores como Modelo de Explicação de Hempel (Hedstrom e Swedberg, 1996 e 1998) ou Popper- Hempel (Danermark et al., 2001), modelo das leis de cobertura ou dedutivo-nomológico (Ekstrom, 1992; Lago, 2008). Nessa proposta, o padrão básico de explicação corresponderia ao modelo dedutivo- nomológico, em que explicar significaria fundamentalmente subsumir, por via dedutiva, um fenómeno a uma lei universal, isto é, de o entendermos como uma manifestação particular de uma regra geral (mesmo que probabilística).
Uma outra extensão da referida visão da explicação em ciências sociais remete para o que se pode chamar “indutivismo”. Uma das fragilidades dessa visão não é tanto, a nosso ver, o dilema clássico do “cisne negro”, mas sobretudo o facto de ser uma perspetiva que corre o risco de cair numa abordagem fenomenalista em que existe “a convicção de que não há conhecimento cientificamente relevante que se não refira de forma imediata a fenómenos apreensíveis através dos sentidos” (Pinto, 1984:6). Não se pretende com isto dizer que os dados empíricos sejam mais ou menos irrelevantes, aquilo que se sublinha é que “na sua forma imediata”, enquanto “atributos”, não conduzem de per si à explicação dos fenómenos. “Induction gives no guidance as to how, from something observable, we can reach knowledge of underlying structures and mechanisms; it is limited to conclusions of empirical generalizations and regularities. (...) Our notion is that the objects of science are not primarily empirical regularities, but structures and mechanisms.” (Danermark et al., 2001:87). Mesmo Durkheim, que nas Regras do Método Sociológico defende que a explicação sociológica
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Na obra Designing Social Inquiry: Scientific Inference in Qualitative Research (King, Keohane e Verba, 1994) é defendida a existência de uma mesma lógica de inferência nas abordagens extensivas e intensivas, no entanto, tal como vários autores têm vindo a notar, essa obra acaba por defender uma aplicação dos procedimentos de controlo das primeiras nas segundas (Munk, 2004; Ragin, 2004). Esse tipo de enfoque tende a fazer coincidir o acto de explicar com o acto de testar de hipóteses e com o acto de prever, não contemplando o objectivo de formação de hipóteses, que permitam refinamento e avanço do ponto de vista dos conceitos, na explicação de determinado fenómeno.
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deverá passar, à semelhança das ciências naturais, entre outras coisas, pela formulação de “regras gerais” e que “a concomitância constante é, pois, por si só, uma lei” (Durkheim, 2001 [1895]:154- 156). Em O Suicídio, pesquisa em que se socorre amplamente das “variações concomitantes” (a variação das taxas de suicídio segundo um conjunto variado de aspetos como países e regiões; estações do ano; dias da semana; horas do dia; estado civil; religião; etc.), não constrói a sua tipologia (suicídio egoísta, altruísta, anómico e fatalista) com base em “atributos”, mas no que refere como “causas mais remotas” (Durkheim, 2007 [1897]:147). Essas causas só poderiam tornar-se reconhecíveis por via de conceitos mais gerais, como por exemplo, aqueles de “coesão e diferenciação social”, “solidariedade mecânica e orgânica” e “anomia”.
Para além disso, considerar o “número e a aleatoriedade na seleção de casos” como critério decisivo da análise causal, revela a crença de “só ser científico o que pode ser provado, o que fosse positivamente demonstrado pela articulação de factos repetidamente observados com os enunciados abstractos da teoria” (justificacionismo) (Almeida e Pinto, 1986:65). Ainda que as teorias devam ter suporte empírico, nem sempre serão do tipo regularidades empíricas; assim como, nem todas as componentes de uma dada teoria em uso estão totalmente validados empiricamente; e, se tivermos ainda em conta o caráter pluriparadigmático das ciências sociais, podemos depreender que os mesmos dados empíricos podem justificar teorias diferentes.
Dizer que as regularidades empíricas não têm em si a explicação dos fenómenos, não é o mesmo que dizer que estas, ou que a observação empírica em geral, são cientificamente irrelevantes. Aquilo que se procurou discutir foi uma abordagem de causalidade que seja não só empiricamente sustentada (quer sejam regularidades ou outras formas de evidência empírica), mas que tenha em conta a importância de dimensões não observáveis da realidade e que carecem de elaboração teórica para se tornarem “visíveis”. Tal como alguns autores portugueses (Almeida e Pinto, 1975; Pinto, 1984; Costa, 1999; Costa, 1986), defende-se a ideia de que não existem métodos que, de per si, são “bons” para a análise causal e outros que só são adequados para a “compreensão”. Não só a adequabilidade de um método ao objetivo de explicar deve ser aferida em articulação com os objetos de estudo, como dada a complexidade dos fenómenos sociais as abordagens multimétodo ou de triangulação metodológica serão muitas vezes a opção mais adequada. Por último, não é de mais enfatizar a importância de não fazer coincidir métodos de observação – quantitativos e qualitativos – com perspetivas sobre a explicação sociológica.
Nas pesquisas qualitativas, os critérios de representatividade, portanto as condições de generalização estatística dos resultados da pesquisa, prendem-se menos com a semelhança da “amostra” face aos atributos da população geral a que diz respeito – composição etária, sexual, regional, etc. –, e com a aleatoriedade da seleção dos casos, em que todos os casos da população devem ter uma probabilidade conhecida de serem selecionados para a amostra (Bryman, 2004). Considerando a presente pesquisa, o tipo de resultado que pretendíamos (conhecer e distinguir perfis de contratendência a partir dos processos sociais que levaram à sua construção sem perder de vista o
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debate das desigualdades perante a escola), reclama uma outra conceção de representatividade, que se prende com a capacidade da seleção de casos estar articulada com parâmetros oferecidos pelas hipóteses criadas (ou convocadas) ao longo da pesquisa, aquilo a que alguns autores chamam amostragem teórica (Glaser e Strauss, 1967; Brannen, 2003 [1992]; Flick, 2005). Como refere Pais (2001:110), “em ambiências qualitativas, os critérios de seleção são critérios de compreensão, de pertinência e não de representatividade estatística. (…) As estratégias de seleção não se orientam para a constituição de amostras estatísticas, mas de amostras estratégicas que permitam atingir uma saturação informativa. (…) Em sociologia qualitativa uma amostra é representativa não a um nível morfológico (descrição superficial), mas a um nível sociológico (analítico) ”.
Os critérios de recorte dos casos variam conforme a pesquisa avança porque os resultados observados num caso suscitam a mobilização de determinados conceitos e hipóteses, que se pretendem aprofundar no caso seguinte77. Aquilo que está em causa é mais uma generalização teórica78 do que empírica, daí que vários autores tenham vindo a procurar uma designação alternativa (à dedução e indução) para o tipo de inferência aí em causa: indução analítica (Znaniecki, 1934; Bryman, 1992; Brannen, 2003 [1992]; 2005; Manning, 1991; Burgess, 1990 [1984]; Ragin, 1994); o processo inferencial subjacente à grounded theory (Glaser e Strauss, 1967; Gilgun, 2001); a abdução e retrodução, conceitos inicialmente propostos por Pierce, mas utilizados por autores contemporâneos como Danermark et al. (2001); as meta-abduções e abduções criativas (Eco, 1990). Não sendo aqui o lugar para discutir em pormenor cada uma dessas propostas, elas têm em comum um entendimento da explicação e generalização em ciências sociais enquanto (re)conceptualização empiricamente controlada.
Se através da análise estatística chegámos na presente pesquisa a uma tipologia dos trajetos de contratendência construída com base em atributos discretos, correlacionados e indicativos da posição
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Glaser e Strauss (1967) referem que a selecção de casos dá-se por terminada (ficando a sua representatividade definida) no ponto de “saturação teórica”, quando não surgem mais casos que contribuam para o desenvolvimento (por complemento ou por contradição) da teoria explicativa até então desenvolvida.É claro que colocam-se aqui questões relativas aos recursos disponíveis (económicos, humanos e de tempo), mas também questões de ordem epistemológica, parece-nos que a saturação de que esses autores falam deve ser mais imputada à pesquisa e ao investigador (cujos recursos serão sempre limitados face à complexidade da realidade social e à multiplicidade de perspetivas sociológicas e transdisciplinares existentes e que poderiam ser mobilizáveis para o aprofundar do conhecimento sobre um tema). O que parece efectivamente mais frequente acontecer não é tanto um esgotar das possibilidades teóricas e até de aprofundamento empírico, mas a construção de uma zona de observação e debate delimitada.
78“That qualitative research lacks quantitative research’s power to generalize is moreover only true if generalizability is taken to refer only to statistical inference, that is when the findings of a research sample are generalized to the parent population. Qualitative findings may be generalized in a different sense; they may be generalized to other settings or contexts or they may involve theoretical generalization, where findings are extrapolated in relation to their theoretical application.” (Brannen, 2005:175).
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social e dos resultados escolares dos estudantes inquiridos (capítulo 9), na análise qualitativa chegou- se a uma segunda tipologia, desta vez, partindo dos processos de construção desses trajetos (capítulo 10). A informação recolhida em cada uma das entrevistas foi trabalhada no que chamámos “fichas biográficas”, onde se procurou sintetizar e colocar a biografia dos indivíduos em perspetiva, a partir de dimensões analíticas que sobressaiam em cada caso e que haviam sido, pelo menos em parte, discutidas no quadro teórico. Conforme essa análise “intra-casos” foi avançando, foram-se inferindo e afinando eixos de análise mais transversais que levaram à construção de uma tipologia que parte de uma dupla-ancoragem: relativa quer a categorias teórico-analíticas de elevada generalidade, como “socialização” e “experiência social”, quer a categorias mais operatórias (ver capítulo 10). Se esses produtos analíticos, advindos da incursão qualitativa, não são generalizáveis em sentido estatístico, isto é, não podemos garantir que todos os trajetos escolares de contratendência nas classes populares apresentem as mesmas características exteriores dos casos analisados, as ferramentas analíticas utilizadas poderão ser transportadas para a análise de outros trajetos de contratendência e de outras realidades, isto é, os resultados são generalizáveis do ponto de vista analítico.