Chapitre III : Sorption de l'uranyle
III.1.1.2. Acquisition des sauts de sorption
Sejam de índole mental ou objetos sólidos, as imagens podem estar revestidas de poder simbólico ou despojadas dele. No poder simbólico intrínseco das próprias imagens, e objetos sagrados, “… apesar da presença da alma do divino poder ser transportada consigo para todo o lado, há locais e objetos específicos que podem fazer de símbolo, ou servir de espelhos que atraem a luz” (Chetwynd, 1986, p. 115).
É o conjunto da imagem, com as suas componentes e atributos que permite aos sujeitos identificar o produto, o serviço, a organização ou a marca, no universo dos produtos similares, distinguindo-a (Andreasen & Kotler, 2013; Lovelock, 2011; Kotler, 1996; O’Shaughnessy, 1995).
O incenso (que simboliza as palavras da oração), os óleos, as ervas e os perfumes oriundos da China e do antigo Egipto surgiram, inicialmente, como símbolos mágico- religiosos adotados nos rituais sagrados. Tal como os sons, os sacramentos, os ícones e os próprios rituais constituíram-se como referências para as religiões. Sendo impossível tatear a alma, cada religião criou elementos táteis simbólicos como “… uma hóstia, o toque firme de um polegar, uma fileira de contas apertada”. Referências que também as marcas trabalharam e trabalham. A Harley-Davidson, por exemplo, criou um “… motor de dois cilindros” que se tornou um sinónimo de referência tão forte ou intenso, para os seus seguidores, como “… os primeiros acordes do órgão que anuncia a missa, para um católico devoto” (Lindstrom, 2013, p. 161).
A atividade religiosa preconizada em torno da imagem de Nossa Senhora de Fátima, e a deslocação desta para vários locais nacionais e internacionais, fomentou o estabelecimento de um vínculo entre as pessoas e as comunidades, num processo de mobilidade simbólica e de afirmação extraterritorial deste ícone.
A relação instituída entre as pessoas e a imagem conduziu à conceção desta imagem em forma peregrina. Uma imagem que nos primeiros anos efetuou um périplo por vários continentes e em Portugal, levando Fátima, e o que Fátima representa, para fora das suas fronteiras territoriais.
A partir de 1930, os alunos do Pontifício Colégio Português de Roma e a Ação Católica Portuguesa, enquanto estruturas de expansão da devoção mariana e intensificação do culto de Fátima, fomentaram a organização de peregrinações coletivas a esta localidade a nível local, regional, nacional e internacional.
91 De acordo com Cristino (2009), a Ação Católica Portuguesa e outros setores da igreja católica organizaram, em 1947 a I Peregrinação Internacional a Fátima organizada pela Juventude Católica Feminina sob a égide da paz no mundo. Por iniciativa desta estrutura e face ao pedido do Padre Demoutiez, Oblato de Maria Imaculada, da Bélgica, que pretendia levar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima ao Congresso Internacional Mariano que se realizaria em setembro de 1947, em Maastricht, na Holanda, as dirigentes da Juventude Católica Feminina traçaram a rota da primeira peregrinação internacional daquela que viria a ser a primeira viagem da imagem peregrina. Para o efeito o bispo de Leiria ofereceu uma imagem que tinha sido produzida de acordo com as indicações da irmã Lúcia.
No dia 13 de maio de 1947 após a missa dos doentes, o arcebispo de Évora coroou-a, com uma coroa de prata, tendo-se iniciado a primeira de várias jornadas que, num movimento inverso ao das peregrinações tradicionais, levou a mensagem e o culto de Fátima aos cinco continentes, num processo de internacionalização crescente.
Desta forma, a imagem peregrina (figura 6) resultou “… de uma realidade polissémica”, comportando “… uma ideia” (as aparições e a mensagem), originária de “… um lugar” (o santuário), com o suporte físico a materializar-se na imagem de Nossa Senhora de Fátima, presente na Capelinha das Aparições como “… o ícone de Fátima” (Abreu, 2005).
92
Figura 6 - Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima. Fonte: Ameal (p.9, 1955)
Numa perspetiva de comunicação, a imagem peregrina comporta um nome, reporta- se a um local sagrado e transmite uma mensagem, num processo de peregrinação contínua, desde 1947. Tal como o Reitor do Santuário referiu, as visitas desta imagem foram, desde o início, um dos grandes meios de difusão da mensagem de Fátima por todo o mundo. Uma comunicação que as autoridades do Santuário incrementaram para as massas, tendo em conta que os “… destinatários da pastoral são absolutamente todos os homens que peregrinam na Terra” (Guerra, 1991, p. 2). Uma comunicação preconizada pelas viagens da imagem peregrina, concretizando a irradiação geográfica do Santuário pelo mundo. É desta forma que Fátima se afirma como o centro de um sistema de fluxos virtuais globais, que transcendem os seus habitantes, os seus visitantes, alargando o seu espaço de influência em patamares sucessivos de integração e difusão, contínuos, nas localidades por onde passa. Com a imagem peregrina, em qualquer ponto do mundo, as pessoas, ligam-se a Fátima e fomenta-se o desejo das pessoas irem/voltarem a Fátima? É esta pergunta, e a resposta à mesma, que nos levou a desenvolver este estudo.
Mesmo que qualquer pessoa, qualquer paróquia possa adquirir uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, as paróquias, as dioceses, solicitam as peregrinações da
93 imagem peregrina. É esta a ligação que os indivíduos apreciam e solicitam às autoridades detentoras deste ícone. A imagem peregrina, oriunda do Santuário de Fátima, comporta, do ponto de vista simbólico, uma identidade que é valorizada, assumindo uma representação e marca do próprio Santuário, como referiu o Reitor. Este responsável mencionou ainda que a existência do Apostolado Mundial de Fátima, enquanto movimento internacional presente em diversos países do mundo, assim como outros movimentos e associações ligadas a Fátima, incrementam as relações espirituais com o Santuário. Estas organizações fomentam e organizam as peregrinações da imagem peregrinas, potenciando, na apreciação deste responsável, as visitas das pessoas para o Santuário.
Para a deslocação da imagem peregrina para um determinado destino, tem de existir um pedido endereçado à Reitoria do Santuário de Fátima, por parte de um bispo e/ou de um responsável de diocese ou arquidiocese. Após a respetiva autorização, e ficando ao encargo do requerente, a peregrinação assume um processo de caráter diocesano. Para assegurar toda a operação logística da viagem, a estrutura da Igreja possui, em cada diocese, os denominados “agentes da pastoral mariana”, que operacionalizam as viagens da imagem peregrina nas suas áreas territoriais.
Esta rede de dimensão mundial, em torno da imagem peregrina, faz com que existam inúmeros pedidos para que ocorram peregrinações em diversos países. Após a sua ocorrência têm sido relatadas às autoridades da Reitoria do Santuário a presença de “… multidões que acorrem à sua passagem, de participações nunca antes verificadas nas várias celebrações”, de uma “… afluência de todo o género de pessoas: crianças, jovens, adultos e idosos, de diferentes contextos sociais e mesmo confissões religiosas diversas”, como nos referiu, em entrevista, o responsável pela gestão deste ícone.
É também com este registo que as autoridades do Santuário, enquanto organização titular da imagem peregrina, a disponibiliza. Com a consciência de que esta comporta a devoção católica e espiritual para milhares de crentes e pessoas, assumindo-se como um símbolo, com uma identidade própria e ao peregrinar pelo mundo, ela materializa o local de onde é originária, comportando a espiritualidade subjacente ao mesmo.
Sobre esta prática importa recordar a posição de Silveira (2004) que referiu que quando o sagrado é transportado para um ambiente quotidiano, e intimamente ligado ao lazer sem perder a sua espiritualidade, garante-se a sua religiosidade e o seu poder.
94 Nesse sentido, e à luz da estratégia de comunicação que o Santuário desenvolve, a imagem peregrina garante a compreensão da sua missão junto de todos aqueles que assistem à sua peregrinação.
A criação desta imagem, para além de se ter constituído como uma novidade em termos de divulgação do ideário católico, assumiu a condição peregrina de todos aqueles que na época enfrentavam convulsões sociais, políticas e militares. Uma condição que se tem prolongado até aos dias de hoje, junto de todos aqueles que se encontram deslocados das suas raízes territoriais e sociais devido a questões de emprego, guerras, perseguições políticas e religiosas. As próprias comunidades portuguesas da diáspora e da emigração fomentaram e ampliaram a dimensão de Fátima, com este local a tornar-se, a partir da segunda metade do século XX, um palco de proclamações sociais e eclesiásticas de amplitude geográfica mundial, reforçada pelas viagens da imagem peregrina (Ferreira, 2009).
O Reitor do Santuário assume a importância da imagem peregrina ao “… tornar conhecida Fátima”, em termos internacionais e como “… um meio de atração de peregrinos a este lugar”. Esta assunção da função, do peso e da importância da imagem peregrina, por parte deste responsável, compreende a motivação das pessoas que se deslocam para assistir às suas peregrinações e, simultaneamente, a sua dimensão. É também neste sentido que esta imagem se pode consubstanciar num produto, ao comportar uma ideia que se materializa nas aparições e na mensagem de Fátima.
Concluímos esta análise identificando a imagem peregrina como um ícone que introduziu uma nova estética religiosa, consolidando o fenómeno de Fátima, através da iconografia mariana, promovendo, consolidando e ampliando, em termos internacionais, a veneração à imagem de Nossa Senhora de Fátima que se encontra na Capelinha das Aparições.
95
3. Os primeiros cinco itinerários da imagem peregrina de Nossa Senhora de