No Brasil, a história das bibliotecas passou a acompanhar a história da universidade a partir de 1945, momento em que ocorreu um profundo crescimento das universidades no país, além da consolidação do ensino privado, a exigência do mercado de trabalho no que diz respeito a ciência e tecnologia e a criação de bibliotecas ligadas às universidades. A princípio, essas bibliotecas eram nomeadas como “Biblioteca Central” de determinada universidade ou, em alguns casos, tais nomes eram ligados às faculdades que formavam o nome das universidades (CUNHA; DIÓGENES, 2016).
Fazendo um breve panorama histórico das raízes de todo o contexto envolto às bibliotecas universitárias, Nunes e Carvalho (2016, p. 183) recorrem à evolução educacional no Brasil, para explicar que a mesma é “marcada pela influência advinda da colonização portuguesa, assim como das correntes pedagógicas que se adaptaram à realidade educacional da sociedade brasileira ao longo do tempo”. Com efeito, esses autores relatam que as bibliotecas começaram a ser criadas no Brasil a partir do período colonial nos colégios jesuítas. Além disso, é a partir da chegada das ordens religiosas dos franciscanos, jesuítas, beneditinos e carmelitas que se inicia no país o processo de instrução. Mais adiante, pode-se constatar que
Ao longo do século XX várias outras iniciativas surgiram visando a elevar o nível educacional brasileiro como um dos projetos da Nova República que se instala em 1889. Assim, empreendem-se reformas educacionais que visam aumentar o nível de instrução da população e para isso criam-se as primeiras universidades, a exemplo da Universidade de Manaus em 1909 e da Universidade do Rio de Janeiro em 1920, a qual passa a denominar-se Universidade do Brasil em 1937, e a Universidade da Bahia em 1946, e com elas a criação das bibliotecas universitárias (NUNES; CARVALHO, 2016, p. 185).
Certamente, diante de todas as experiências vivenciadas com o tempo, as bibliotecas universitárias – e seus respectivos bibliotecários e profissionais responsáveis – obtiveram sucesso e dificuldades com o decorrer dos anos. A formação do acervo, a disponibilização de ferramentas de pesquisa, as barreiras tecnológicas, etc. são exemplos de situações pelas quais essas bibliotecas podem ter passado no período de implementação no Brasil, bem como (algumas) ainda passam até hoje, por conta do fruto de um possível mal planejamento organizacional. A priori, as bibliotecas universitárias devem otimizar seus esforços para concatenar as ações de ensino, pesquisa e extensão universitária, com a finalidade de manter- se alinhada aos objetivos da instituição mantenedora.
Convergente a essa situação, no final do século XX, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) em 1996, ocorreu o encorajamento do trabalho de pesquisa e investigação científica visando ao desenvolvimento da ciência e tecnologia, além da difusão da cultura. Destarte, para que isso se tornasse possível, os estabelecimentos de ensino superior – tanto público quanto privado – deveriam organizar suas bibliotecas, propiciando material e acesso à comunidade acadêmica e contribuindo diretamente para a missão das universidades. Dessa forma, é possível verificar que as bibliotecas assumem um importante papel na disponibilização e difusão do conhecimento, além de corroborar para a ampliação do acesso à informação e no apoio ao ensino e pesquisa (NUNES; CARVALHO, 2016).
A importância das bibliotecas nas universidades foi sendo reconhecida com o passar dos tempos e, diante de cada contexto e fase, foi necessário que essas organizações reconhecessem o momento e se adaptassem a cada época, sempre satisfazendo a necessidade real de seus usuários. Assim, é interessante que se faça uma breve explanação da perspectiva história do surgimento das bibliotecas universitárias no Brasil, com a finalidade de conhecer alguns marcos nesse contexto e aprofundar nas discussões futuras. Sendo assim, a partir do estudo levantado por Cunha e Diógenes (2016), temos:
• 1945 – Surgimento da Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tendo seu Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ criado em 1989 e implantado em 1990;
• 1947 – Criação da Biblioteca Central da Universidade Federal de São Paulo (USP), tendo instituído seu Sistema de Bibliotecas (SIBIUSP) em 1981;
• 1949 – Surgimento da Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), universidade esta que surgiu da união de diversas escolas e faculdades que, por sua vez, já possuíam seus acervos;
• 1957 – Criação da Biblioteca Central da Universidade Federal do Ceará (UFC), com subordinação direta à reitoria, porém – apesar do nome – não exercia a função centralizadora, sendo extinta em 1959 com a criação do Serviço de Bibliografia e Documentação, momento em que todo seu acervo foi disperso e distribuído nas bibliotecas das diversas áreas.
• 1959 – Criação do Serviço de Informações Bibliográficas (SCIB), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por força do convênio assinado entre a universidade e o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Porém, foi somente em 1971
que a Biblioteca Central da UFRGS foi institucionalizada como órgão suplementar na universidade;
• 1959 – A Biblioteca da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi devidamente autorizada a funcionar, por intermédio do Conselho Universitário. Contudo, foi em 1974 que essa biblioteca passou a denominar-se como Biblioteca Central, sendo subordinada diretamente à reitoria, funcionando como um órgão suplementar dessa universidade;
• 1962 – Criação da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB), implantando no país um conceito de Biblioteca Universitária com centralização total;
• 1968 – Nesse ano foi criada a Biblioteca Central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tendo em 1976 a inauguração do prédio dessa biblioteca e, a partir de 1977, ocorreu o início do processo de centralização e organização do acervo para a biblioteca;
Cumpre ressaltar que os exemplos supracitados são apenas algumas das iniciativas ocorridas no Brasil, tendo então – após esses momentos – uma grande difusão e criação de bibliotecas universitárias no país. A Biblioteca Central da Universidade Federal do Pará (biblioteca do escopo dessa pesquisa), foi fundada em 1962, no dia 19 de novembro, porém, a devida explanação sobre essa biblioteca será trabalhada no próximo tópico desse trabalho. Antes disso, algumas discussões a respeito do desenvolvimento das BU’s no Brasil precisam ser mencionadas e serão esclarecidas a seguir.
Ao falar em Bibliotecas Universitárias, é inevitavelmente importante falar do contexto das tecnologias da informação e comunicação. O investimento em novas formas de interagir e de disponibilizar produtos e serviços é de suma importância para que a biblioteca não caia na obsolescência e, consequentemente, não impacte no desuso do espaço físico por parte dos usuários. No Brasil, essa relação se torna mais peculiar ainda, pois vivência esse contexto diante de um aspecto paradoxal, onde coexiste a falta de investimento em infraestrutura, bem como (quase que ao mesmo tempo) isso é também almejado pelos usuários. Dentro de um entendimento de que a biblioteca também é um espaço de democratização da informação, o uso das tecnologias proporciona com que os usuários desfrutem melhor (em custo benefício) do que está sendo ofertado. À exemplo disso, tem-se os e-books ou revistas digitais, que por sua vez proporcionam o livre acesso aos acadêmicos sem maiores gastos e com facilidade e eficiência no uso. Certamente o livro impresso não deixará de existir, porém, é interessante que as
bibliotecas universitárias passem a adotar práticas híbridas, proporcionando viabilidade física e virtual para o acesso às informações e conhecimentos.
Frente a isso, Morigi e Pavan (2004) realizaram uma pesquisa para avaliar três aspectos sobre as percepções dos bibliotecários com relação ao uso das tecnologias da informação, a saber: i) a interferência das tecnologias de informação e comunicação entre as relações do bibliotecário e usuário; ii) uso da comunicação direta entre bibliotecário e o usuário; iii) o grau de autonomia do usuário em relação ao uso das tecnologias da informação e comunicação. Portanto, com relação ao primeiro tópico, os autores relataram que 73% dos entrevistados na pesquisa responderam que a tecnologia interfere na sua relação com o usuário, bem como 22,7% reconheceram que que não há interferência da tecnologia no que diz respeito a essa interação com o usuário.
Quanto a interação face a face, 54 % dos bibliotecários entrevistados afirmaram que a comunicação desse tipo aumentou19, enquanto 22,7% afirmaram que a interação face a face diminuiu com o advento das novas tecnologias. Com relação ao terceiro ponto (autonomia dos usuários), os autores Morigi e Pavan (2004) concluíram que 50% dos bibliotecários entrevistados percebem que os usuários estão cada vez mais autônomos, além de que 22,7 % reconhecem que os usuários estão parcialmente autônomos e, por fim, 27,3% reconhecem que eles não são autônomos. Cumpre ressaltar que essa autonomia diz respeito às buscas de informações, corroborando assim para a mudança de comportamento dos usuários com relação ao uso das bibliotecas e das fontes de informação. Convergente a isso, Cunha (2000, p. 75) reflete que
Os estudantes hoje são membros de uma geração digital. Eles gastaram grande parte de suas vidas rodeados de mídia, eletrônicos, MTV, computadores pessoais e videogames. Diferente da maioria daqueles que foram criados em uma era de meios de comunicação passiva – como rádio e a televisão –, os universitários esperam e têm desejos de maior interação. Tal como a atual tecnologia de microcomputadores, para eles o enfoque do aprendizado deveria ser uma experiência plug and play, porque nem sempre estão inclinados a ler sequencialmente um manual e desejam aprender por meio de participação e experimentações diretas e interativas. Enquanto não surge uma didática específica para esse tipo de aprendizado, o enfoque o currículo da universidade tradicional pode ser bem mais efetivo para essa geração, se complementado com recurso de diversas mídias.
19 Vale ressaltar que os próprios autores afirmaram que esse dado se apresentou um tanto quanto contraditório, pois em tese o aumento do uso das TIC’s diminuiria a interação direta (face a face) entre bibliotecários e usuários. Além disso, outro aspecto a ser ressaltado é que a pesquisa foi realizada no ano de 2004, já se passando 14 anos dessa época até os dias de hoje. Portanto, acredita-se que hoje essa porcentagem seria maior, pois há uma maior tendência em se reconhecer que as formas de interação nas bibliotecas mudaram significativamente.
Diante do exposto, Cunha (2000) ainda percebe que os professores assumem um papel importante nesse processo, porque entende que o docente no século XXI precisa reduzir os seus papéis como professores e devem se transformar em desenvolvedores de experiências de aprendizado. Assim, nota-se que a biblioteca universitária no Brasil não pode ser compreendida de forma isolada, tendo que se levar em consideração diversos contextos. Dentre eles, está o usuário – foco principal de qualquer serviço e produto disponível por uma biblioteca, seja ela qual for o tipo. Com a mudança do perfil desses usuários, vem também a mudança do perfil dos bibliotecários – que, por sua vez, devem fazer uma leitura e interpretação desse contexto, com a finalidade de aplicar boas práticas e obter melhores resultados. Sendo assim, os nativos digitais nascem com uma nova percepção de vida e de experiência, impulsionando, então, as bibliotecas universitárias para uma nova perspectiva diante das novas tecnologias da informação e comunicação.
Com relação a isso, Cunha e Diógenes (2016, p. 109) corroboram com essa perspectiva afirmando que “as BU’s brasileiras que, ao longo do tempo, vêm se adaptando às mudanças das políticas globais de Estado, da educação superior, às mudanças tecnológicas, realizando desenvolvimentos conceituais e práticos [...]”, porém, essas bibliotecas vêm convivendo com alguns problemas, tais como: de qualificação de pessoas e número de funcionários, redução do orçamento, dificuldade de realizar inovação das atividades tradicionais, além de ainda não atender totalmente as demandas da universidade com relação ao seu papel pedagógico. Segundo os autores, esses problemas são reflexos das profundas mudanças no campo da educação superior e da tendência que se intensifica a partir do uso das tecnologias de informação por intermédio da web.
Diante disso, observa-se que a aplicação das redes sociais são oportunidades importantes a serem aplicas junto as bibliotecas universitárias. O conceito de “Biblioteca 2.0” não se resume apenas em aplicar determinadas tecnologias ou processos, mas sim diz respeito a uma mudança geral de atitude, contribuindo para a formação de uma nova maneira de se relacionar, interagir e se comunicar com os usuários, bem como oferecer produtos e serviços informacionais no contexto da biblioteca (AGUIAR; SILVA, 2013). Afinal, os usuários são o escopo central de todos os processos realizados em uma unidade de informação.
Reforçando essa ideia, Santos Neto e Almeida Júnior (2015) afirmam que as bibliotecas universitárias precisam estar próximas de seus usuários, conhecendo bem o seu público alvo para que, através da internet – em especial as redes sociais – essas bibliotecas possam realizar a mediação da informação, aproximando-se dos próprios usuários e da comunidade, além de torná-los em usuários reais da biblioteca. É interessante que os usuários se sintam parte desse
processo de atuação da biblioteca, sabendo que a sua opinião é importante e pode impactar até mesmo no gerenciamento de produtos e serviços. Com relação à mediação da informação, eis um processo que também deve ser dado a devida atenção nas bibliotecas universitárias, pois é a partir daí que o usuário poderá explorar o universo informacional disponível. Não se trata apenas de mediação “tradicional”, mas também da mediação das plataformas digitais, através das próprias redes sociais – como mencionado anteriormente.
Por sua vez, as bibliotecas universitárias precisam saber explorar as funcionalidades disponíveis nas redes sociais, ainda mais com relação ao Facebook – escopo desse estudo. Os trabalhos de marketing digital a serem explorados nessas organizações devem priorizar não somente os aspectos relacionados à divulgação de informações básicas, mas também devem se preocupar com a geração de conteúdos que possibilitem maior interação por parte dos usuários e, paralelamente, sirvam como ações de mediação da informação. Sendo assim, essas bibliotecas devem atuar de forma dinâmica, se reinventar a todo momento, aperfeiçoando e customizando a disponibilização de produtos e serviços levando em consideração as diferentes necessidades informacionais e os diversos momentos (SANTOS NETO; ALMEIDA JUNIOR, 2017).
Por fim, levando em consideração todo o arcabouço teórico trabalhado no tópico de “Bibliotecas Universitárias”, observa-se que a Biblioteca Central da UFPA (lócus dessa pesquisa) tem proporcionado ao usuário a possibilidade de participar do processo de construção e evolução dos preceitos dessa biblioteca, interagindo e se relacionando cada vez mais – virtual e presencialmente –, além de propor novos desafios aos profissionais que ali trabalham. Portanto, torna-se relevante explorar um tópico reservado a um breve histórico da Biblioteca Central da UFPA, com o objetivo de evidenciar seu surgimento e desenvolvimento, bem como disseminar as ações que foram desenvolvidas com o passar do tempo – já que essa biblioteca se constitui como uma referência da Região Norte do Brasil. No próximo tópico também serão disponibilizados os serviços e produtos da biblioteca com o objetivo de revelar essas atividades e, posteriormente, trabalhar essas vertentes nos resultados e na discussão do estudo.