final da década de 2000, o então estudante Lukas Kraus compartilhou das ideias e participou assiduamente dos eventos organizados pelo coletivo Intervozes. Ainda que não tenha atuado
na linha de frente da entidade, ele se considerava parte ativa do movimento que ganhou corpo na sociedade civil naquele momento, quando se empunhava a bandeira da democratização da comunicação e se batia pela implantação de uma emissora de televisão pública federal, que gerisse e formasse rede com as televisões educativas e universitárias espalhadas pelo país.
Pouco tempo depois da formatura o jornalista não teve dúvidas: saiu de São Paulo e foi para Brasília, onde fez concurso e ingressou na Empresa Brasil de Comunicação, em 2013. Na Empresa estatal trabalhou por oito meses na produção do programa A Voz do Brasil e, logo em seguida, como editor por outros seis meses no canal de televisão NBR, responsável pela cobertura das ações do Governo Federal. Ao participar de seleção interna da EBC, foi chamado para o posto de editor de texto da TV Brasil, mais especificamente para compor o time de profissionais do principal telejornal noturno da emissora.
Os ideais herdados do Intervozes e por todos os desafios que já ajudara a superar em termos de comunicação na EBC, serviram de referência para o editor argumentar que no terreno da TV pública o Governo Federal segue o que rege a Constituição de 1988. Ou seja, além de estar respaldado legalmente, desenvolve uma atividade que se iguala a de outros países do mundo, notadamente da Europa, continente no qual o percentual de emissoras públicas chega a 40% do espectro de transmissões televisivas.
Lukas Kraus pondera que a principal ameaça contra o conteúdo transmitido pela televisão pública mora na influência que o partido político provisoriamente no poder Executivo pode exercer, por exemplo, na elaboração do telejornal Repórter Brasil. A atração dura apenas 30 minutos e quando se dá muito espaço para os acontecimentos ligados ao governo, reduz-se o tempo para outros temas voltados para o interesse dos cidadãos. Para ele é de fundamental importância que na televisão pública se busque o equilíbrio de pautas, dando preferencia àquelas relacionadas com o respeito aos Direitos Humanos, às questões das minorias e aos próprios horizontes da sua missão.
Quanto ao tratamento dos acontecimentos das ciências, tecnologias e inovações o editor de texto do Repórter Brasil lamenta que não se dê tanta importância à produção acadêmica da sua própria área de procedência, isto é, das Ciências Sociais Aplicadas e das Humanas. Não que os administradores, os historiadores, os sociólogos, os filósofos, os jornalistas e os cientistas políticos não sirvam para dar entrevistas quando a televisão busca explicações concisas para algum acontecimento de grande repercussão social da realidade cotidiana.
Muito pelo contrário, cada vez mais e mais especialistas dessas modalidades de conhecimento surgem nas telas das TVs, principalmente quando associam à sua imagem...
Uma consciência permanentemente tranquila, a ausência de dúvidas sobre a capacidade de dizer qualquer coisa sobre tudo, tom competente, muitas vezes alarmista e crítico a fim de provocar no público a sensação de pertencer a um conjunto mais lúcido e clarividente do que o comum dos mortais (WOLTON, 1990, p. 216).
Segundo as observações do editor do Repórter Brasil, os noticiários geralmente são mais generosos com a demonstração de experimentos das Ciências Exatas e da Saúde, notadamente quando apresentam resultados de pesquisas que trazem a possibilidade de benefícios palpáveis a serem disponibilizados de imediato para a população como um todo.
Além disso, no caso da TV Brasil, a cobertura jornalística fica concentrada no eixo Rio de Janeiro/São Paulo/Brasília não apenas por sediar em maior número os grandes laboratórios de empresas privadas e de universidades públicas do país, como também pela especificidade cômoda da EBC possuir nessas praças sucursais dotadas de equipamentos e equipes de jornalistas em prontidão.
Por dispor da mesma logística em São Luís, no Maranhão, os acontecimentos correlacionados às ciências ocorridos naquela cidade e em outras capitais nordestinas como Natal, Fortaleza e Recife, também gozam da possibilidade de obter um espaço maior nos telejornais da emissora.
Particularmente no que se refere ao seu ofício de editor de textos e imagens que compõem uma reportagem televisiva, Lukas Kraus pondera que nem sempre é possível mostrar no tempo exíguo de dois minutos que o resultado de uma pesquisa científica está associado a uma metodologia desenvolvida por uma rede de pessoas e equipamentos voltados para aquele fim.
Entretanto, para ele esse é o desafio diário ao qual se impõe nas “ilhas de edição”, ou seja, tentar estender o olhar sobre o máximo de informações colhidas pelos repórteres e cinegrafistas, com o intuito de iluminar os detalhes mais evidentes e compor uma história que se torne um produto palpável e de fácil compreensão para o telespectador em frente ao seu aparelho de televisão. Nesse processo, lembra que se faz indispensável pensar sobre qual é o público a ser beneficiado pelas ciências e a que classe social pertence, a fim de tornar a reportagem nítida, didática e de pronta assimilação.
Na parte que lhe cabe do processo de produção da notícia, Kraus atribui aos cientistas o total poder da palavra notadamente nas questões embrionárias quando, por exemplo, uma pesquisa desenvolvida por uma instituição de respaldo internacional está no começo, nos resultados iniciais. Neste caso, o espaço é dado aos especialistas sem grandes contestações, até porque os jornalistas ainda não tiveram acesso a dados sobressalentes, que lhes permitam
tecer maiores questionamentos sobre o assunto em questão. Para isso é preciso dar tempo ao tempo, ter acesso a estudos paralelos e entrevistar outros pesquisadores.
Por outro lado, ele acredita que é obrigação do jornalista se inteirar dos detalhes das ocorrências e questionar os cientistas todas às vezes quando a condução ou resultado de pesquisas científicas são contestados por outros grupos de especialistas da área, pela Justiça ou por segmentos da população que sofrem reveses no uso de uma vacina ou de um artefato tecnológico de qualquer natureza.
Contudo, diante do tempo sempre restrito e da urgência latente imposta pela cobertura telejornalística de acontecimentos factuais, o editor de textos do Repórter Brasil reconhece que resultados de pesquisas científicas provenientes de determinadas equipes da Universidade de São Paulo, da Universidade de Brasília, da Unicamp, da Fiocruz e da Universidade Federal de Minas Gerais são assiduamente transformados em pautas inquestionáveis e de grande relevância para o jornalismo sobre ciências na TV Brasil.