Quando estava na primeira série fiquei fascinado pela professora. Tão fascinado que decidi que queria ser professor. Então, enquanto os meus amigos pediam uma bola ou um vídeo game para os pais, eu pedi “pai, compra uma lousa com giz para mim?”. E assim foi. Minha primeira aluna? Minha mãe.
A profissão de intérprete de LIBRAS por muito tempo foi vista como algo voluntário. Afinal, era uma caridade fazer “mímicas” para que os “surdos-mudos” entendessem o que estava sendo dito. Hoje, a “mímica” finalmente é reconhecida como língua e os surdos deixaram de ser mudos. Surge, então, uma oportunidade para aqueles que são nativos da LIBRAS e são ouvintes. Recentemente, a profissão de intérprete foi reconhecida em 2010, pela Lei 12.319:
Art. 1º Esta Lei regulamenta o exercício da profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS. Art. 2º O tradutor e intérprete terá competência para realizar interpretação das 2 (duas) línguas de maneira simultânea ou consecutiva e proficiência
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em tradução e interpretação da Libras e da Língua Portuguesa. (BRASIL, 2010 )24
Hermione chegou a exercer a profissão de intérprete de LIBRAS. Inclusive foi justamente no ambiente de trabalho que a conheci. Porém, não era uma opção, mas algo que surgiu por conta da necessidade dela, após o falecimento de seu pai.
Quando meu pai morreu, eu não sabia que meu pai estava perguntando e pedindo para uma outra moça que é filha de pais surdos emprego pra mim como intérprete. Quando ele morreu, ela me chamou e disse que ia realizar um desejo de meu pai. Ela me ofereceu pra trabalhar na ONG como intérprete. Na época ela perguntou pra mim se eu queria receber uma bolsa de estudo do curso que a gente estava fazendo que na época era Ciências da Computação ou se eu queria receber salário... Na minha situação...meu pai tinha acabado de falecer. Eu precisava de dinheiro. Eu precisava sustentar minha casa, disse pra ela que preferia o dinheiro...Quando consegui ir pra uma outra escola, outra faculdade foi a Unisantana que eu fui registrada com meu salário e mais a faculdade de graça. Eu queria fazer fonoaudiologia, meu sonho até hoje é fazer fono. Provar para esses fonos que é mentira que o surdo não consegue ser oralizado e ter a Libras ao mesmo tempo. Eles acham que é uma coisa ou outra
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Eu gosto porque ser intérprete você se sente útil, sente que está ajudando alguém esse é um ponto. Outro ponto: eu me sinto um gravador repetindo sempre o que o professor está falando. São dois pontos: não posso falar eu não gosto. Também não posso falar gosto 100%. Eu gosto porque me sinto útil e estou ajudando alguém, não gosto por me sentir um gravador. Então se eu puder escolher por ser instrutora ou ser interprete? Eu vou escolher ser instrutora, mas isso em faculdade você acompanhar todas as aulas interpretando tudo, e você verifica muitas pessoas não estando nem ai para os surdos. Eu acho que já passou minha época de estar ali discutindo, brigando. Não consigo ver um surdo não estar entendendo. (Hermione)
Ela demonstra uma inquietação com o não entendimento do surdo naquilo que está sendo interpretado e também do descaso de alguns professores. Esse é o dilema da maioria dos intérpretes que querem realizar um bom trabalho, saber se realmente aquilo que está sendo passado para os surdos em língua de sinais está sendo compreendido. Como já foi discutido anteriormente, apenas colocar o intérprete de LIBRAS em sala de aula não garante toda a acessibilidade do surdo.
Simas, por outro lado, abriu uma empresa que presta serviços de interpretação em LIBRAS para empresas que tem surdos no seu quadro funcional.
...eu não sei se isso é vantagem, mas, por exemplo, como eu trabalho com isso e sou intérprete de LIBRAS isso daí às vezes, e até bom porque você chega a um lugar assim ai a pessoa fala “ah esse ai e filho de surdos ele manja, ele sabe, cuidado que aquele convive com surdo desde criança, ele
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Disponível em http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2010/lei-12319-1-setembro-2010-608253- publicacaooriginal-129309-pl.html acesso em 02 de novembro de 2012
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não aprendeu ontem, há dez anos atrás”, ele sabe então daí você tira um pouco de vantagem sim.
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...assim, graças a Deus eu consegui muita coisa trabalho sabe, e criar uma empresa que ajuda deficientes, pela minha avó e pelo meu avô, pela educação que eles me deram, de ser uma pessoa honesta por eles, porque eles sempre foram então assim a minha avó sempre falava se você comprar alguma coisa para alguém sempre devolve até os centavos de troco, eu sempre fiz isso então a minha avó me dava o dinheiro para eu comprar alguma coisa eu ia com um centavo de troco e dava para ela e ela sempre gostou disso. Isso que ela me ensinou a ser honesto,a sempre ser educado.
(Simas)
Mas ser filhos de surdos não nos torna, necessariamente, intérpretes de LIBRAS.
Não é verdade que o fato de ser filho de pais surdos seja suficiente para garantir que o mesmo seja considerado intérprete de língua de sinais. Normalmente os filhos de pais surdos intermediam as relações entre os seus pais e as outras pessoas, mas desconhecem técnicas, estratégias e processos de tradução e interpretação, pois não possuem qualificação específica para isso. Os filhos fazem isso por serem filhos e não por serem intérpretes de língua de sinais. Alguns filhos de pais surdos se dedicam a profissão de intérprete e possuem a vantagem de ser nativos em ambas as línguas. Isso, no entanto, não garante que sejam bons profissionais intérpretes. O que garante a alguém ser um bom profissional intérprete é, além do domínio das duas línguas envolvidas nas interações, o profissionalismo, ou seja, busca de qualificação permanente e observância do código de ética. (QUADROS, 2004, p. 30)
Para poder exercer essa função, fiz um curso de LIBRAS em uma igreja em minha cidade. Muitos CODAs, no entanto, optam por outras profissões e não têm interesse em tornarem-se intérpretes, tanto que Colin, em seu depoimento, não manifesta interesse em sê-lo. Hermione também não exerce mais esta função, tendo uma outra ocupação, embora ainda use a LIBRAS na profissão atual.
Anos se passaram e hoje sou intérprete de LIBRAS e professor universitário. A língua de sinais, tão rejeitada pela sociedade durante anos e que os meus parentes ouvintes acharam que prejudicaria a minha educação, foi justamente ela que me trouxe a docência. Agora posso ensinar aos outros essa língua tão bela e expressiva, que aprendi naturalmente no seio de minha família.
É claro que há diferenças entre ser filho de pais surdos e ser filho de pais ouvintes. Em primeiro lugar, diferente da maioria das outras crianças neste país, a formação destes indivíduos será bilíngue. Em segundo, ele terá que conviver com os estigmas e preconceitos que ainda permeiam a surdez, embora o acesso à
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informação seja atualmente bem mais amplo do que anos atrás. Porém, vez ou outra ouvimos alguns absurdos cometidos contra os surdos, no que diz respeito a não aceitação da condição da surdez. Ainda se vê muitos pais ouvintes, cujos filhos são surdos sequer conhecerem o alfabeto manual para ao menos ter uma comunicação inicial com os próprios filhos surdos. Mas... ser filho de surdos é tão normal quanto ser filho de pais ouvintes.