Na avaliação da eficácia clínica a longo prazo, os voluntários levaram duas formulações para casa, uma contendo o ativo e outra somente o veículo para simular o uso contínuo do produto durante 30 dias. Por esse motivo, para este documento, os resultados estão sendo apresentados com dados referentes a 10 voluntários. Houve uma desistência e temos ainda 7 voluntários com retorno agendado.
Os resultados da eficácia clínica em longo prazo estão expostos na Tabela 27. Em relação a hidratação cutânea, é possível observar que a formulação aditivada com PJ2 manteve os valores do conteúdo hídrico enquanto o veículo apresentou uma redução de 3,1% nesses valores. Resultado semelhante foi observado por Paseto; Wagemaker e Maia Campos (2017). Os autores avaliaram a hidratação do estrato córneo, TEWL e microrrelevo cutâneo de formulações aditivadas com 3,0% de extrato das raízes de Cichorium intybus após 2h, 45 dias e 90 dias e observaram que após 45 dias de uso diário das formulações, a região tratada com veículo reduziu a hidratação superficial enquanto que a região tratada com a formulação contendo o extrato vegetal manteve constante esse resultado, sendo considerado um ativo eficaz para evitar o ressecamento da pele (PASETO; WAGEMAKER; MAIA CAMPOS, 2017).
Tabela 27 – Valores de hidratação do estrato córneo, TEWL, da avaliação do microrrelevo cutâneo antes e após 30 dias de uso das formulações e suas respectivas variações percentuais.
Veículo Veículo + 3,0% de PJ2
BASAL T30 BASAL T30
Hidratação do estrato córneo (U.A.)
42,66 ± 5,39 41,34 ± 7,43 41,68 ± 4,71 41,51 ± 7,67 -3,1% -0,4% TEWL (g/cm2h) 10,10 ± 4,11 6,53 ± 2,18 9,91 ± 4,52 7,44 ± 3,00 -35,4% -24,9% Ser 1,53 ± 0,55 1,53 ± 0,53 1,51 ± 0,74 1,57 ± 0,51 0,00% +3,6% Sesc 0,61 ± 0,21 0,60 ± 0,14 0,58 ± 0,17 0,60 ± 0,17 -2,5% +2,7% Sesm 44,59 ± 6,55 47,83 ± 7,41 45,50 ± 7,61 49,38 ± 9,29 +7,3% +8,5% Sew 36,19 ± 3,85 36,65 ± 2,87 35,85 ± 3,58 36,17 ± 2,80 +1,3% +0,9%
Onde: Basal = Leitura realizada antes da aplicação dos produtos; T30 = Leituras realizadas após 30 dias
de uso diário dos produtos; TEWL = perda de água transepidermal; Ser = rugosidade; Sesc = descamação; Sesm = maciez e Sew = número e largura das rugas. Fonte: Autoria própria.
Já em um estudo realizado com formulações cosméticas sob a forma de um gel aditivado com 3,0% de uma β-Glucana originada do subproduto da indústria do etanol, foi aplicada durante 14 dias e a eficácia clínica hidratante foi avaliada por meio da corneometria (KRISDAPHONG et al., 2018). Os autores observaram que após 14 dias de aplicação, a formulação aditivada do carboidrato promoveu um aumento de 9% da hidratação do estrato córneo enquanto o veículo, 5%, ou seja, um aumento real de 4% e afirmaram que o produto detém potencial para aplicação em produtos cosméticos. Vale salientar que embora a variação na hidratação superficial tenha sido superior ao observado para PJ2, 3%, nossas amostras foram aplicadas uma vez ao dia, e no trabalho referido foram duas vezes ao dia da formulação com a β-Glucana.
Analisando os resultados da TEWL, ambas as formulações promoveram uma diminuição estatisticamente significativa nos valores da perda de água transepidermal,
sendo essa redução de 35,4% para o veículo e 24,9% para a formulação com PJ2, resultado também semelhante ao observado por Paseto; Wagemaker e Maia Campos (2017), onde ambas as formulações avaliadas reduziram de forma significativa a TEWL ao final do estudo de eficácia de longo prazo, demonstrando o potencial de PJ2 como um ativo hidratante também em longo prazo.
Para a análise do efeito das formulações no microrrelevo cutâneo foram avaliados os seguintes parâmetros: Ser, relaciona a rugosidade e aspereza da pele, e quanto menor esse parâmetro, menor a rugosidade e menos áspera a pele; Sems, relacionado à maciez da pele, oposto do Ser, calculado de acordo com a profundidade e largura média das rugas, tende a aumentar com tratamentos hidratantes e antienvelhecimento; Sesc, atribuído à descamação do estrato córneo, quanto menor este valor, menor a descamação e mais hidratada a pele; e por fim, o Sew, calculado pelo número e largura das rugas determinando a proporção entre rugas verticais e horizontais, e de uma forma geral, quanto maior o valor desse parâmetro, maior o número de rugas (MELO; MAIA CAMPOS, 2016).
É possível observar que, embora os resultados não sejam estatisticamente significativos, ambas as formulações melhoraram todos os parâmetros de análise do microrrelevo cutâneo, tendo a formulação aditivada com PJ2 apresentado melhora na maciez da pele (Sems) e no número e largura das rugas (Sew). Abordagem semelhante foi realizada por Khan e colaboradores (2015). Os autores avaliaram a hidratação e o microrrelevo cutâneo de 13 voluntários após aplicação diária de uma formulação cosméticas aditivada com Cassia fistula, espécie da mesma família da P. juliflora, a Fabaceae. Após 12 semanas de uso, não foram observadas variações estatisticamente significativas em função do seu respectivo tempo, o que levou aos autores a compararem os dados de veículo e formulação ativa, assim como o realizado para a P. juliflora, apresentando melhoras na rugosidade (Ser), descamação (Sesc) e número e larguras da rugas (Sew) hidratação do estrato córneo e TEWL, sendo considerado um potencial ativo cosméticos anti-rugas, mesmo necessitando de mais voluntários para comprovação da atividade (KHAN et al., 2015).
Devemos ainda levar em consideração a composição química de PJ2, composta tanto por carboidratos quanto por metabólitos secundários, especialmente compostos fenólicos e flavonoides. Nesse contexto, Fox e colaboradores (2014) observaram melhora no relevo cutâneo mensurado por meio do Visioscan VC98 após aplicação de formulações cosméticas contendo uma fração de polissacarídeos de Aloe vera, Aloe ferox e Aloe marlothii (FOX et al. 2014). Adicionalmente, Abdul Karim e colaboradores (2016) avaliaram o potencial hidratante e anti-rugas de formulações contendo extrato de vagens do cacau e observaram uma redução no número e largura das rugas (Sew) de
6,38% e 3,05% para a formulação ativa e o veículo, respectivamente, após 3 semanas de aplicação e 12,39% para a formulação ativa contra 8,13% para o veículo, após 5 semanas de aplicação, apontando um efeito tempo-dependente. Os autores atribuíram tal atividade a compostos fenólicos e flavonoides identificados por LC-MS, tais como a apigenina e a epicatequina, os quais também foram identificados em PJ2 (ABDUL KARIM et al. 2016).
Na Figura 18 pode se observar as imagens do microrrelevo cutâneo obtida pelo Visioscan VC98 e suas respectivas representações 3D para um voluntário, antes e após a aplicação das formulações por 30 dias. Os pontos alaranjados e vermelhos representam as áreas com maior intensidade de rugosidade, quando comparada às áreas em amarelo.
Figura 18 – Imagens capturas pelo Visioscan VC98 antes e após a aplicação do gel reconstituído a partir do núcleo sólido durante 30 dias.
Onde:
A = Imagem capturada referente ao campo de aplicação do veículo+3,0% de PJ2 antes da aplicação; B = Imagem capturada referente ao campo de aplicação do veículo +3,0% de PJ2 após 30 dias; C = Modelo 3D referente ao campo de aplicação do veículo+3,0% de PJ2 antes da aplicação; D = Modelo 3D referente ao campo de aplicação do veículo +3,0% de PJ2 após 30 dias;
Diante disso, podemos sugerir o extrato PJ2 atua tanto por mecanismos de hidratação quanto por melhora no microrrelevo cutâneo, provavelmente em função da
A B
presença de compostos fenólicos e carboidratos em sua composição química, especialmente na rugosidade e aspereza, e número e largura das rugas. No entanto, os resultados de um maior número de voluntários precisam ser compilados para conferir maior robustez aos dados.
Analisando o trabalho completo, algumas perspectivas de continuidade deste trabalho estariam relacionadas (I) a troca do agente diluente do núcleo sólido por algum outro composto mais solúvel no volume de água necessário para a reconstituição dos núcleos sólidos, ou ainda, a diminuição do percentual deste componente seguido de uma maior quantidade de água, eliminando assim a camada residual sobre a pele; (II) aplicação dos extratos desenvolvidos em outras formulações cosméticas, semissólidas, para avaliar, dentre outros pontos, se a alteração da forma farmacêutica levaria à alterações no mecanismo de ação da eficácia clínica; (III) adaptação da formulação para a forma de pós ou granulados, podendo assim eliminar o agente diluente e promover a remoção do filme residual; (IV) explorar e empregar o potencial das moléculas com atividade despigmentante observadas na fração menor que 3kDa de PJ2 como uma atividade cosmética para a P. juliflora.
6 CONCLUSÕES
O delineamento experimental estatístico demonstrou que a temperatura de extração influenciou significativamente no rendimento do processo extrativo, especialmente as temperaturas ≤ 40ºC, conduziram aos melhores valores de rendimento, acima de 37%. Além disso, temperaturas e tempo de extração menores resultaram em bons níveis de açúcares totais e atividade antioxidante, a amostra PJ2 (34ºC/3,5h) apresentou a melhor condição extrativa.
Proteínas não foram detectadas nas condições de análise, não requerendo etapas posteriores de proteólise para purificação das amostras. Além disso, as amostras apresentaram compostos fenólicos, relacionado com a atividade antioxidante de importância para a cosmetologia.
Após o estudo de avaliação da segurança, as amostras foram consideradas não- citotóxicas e não-fototóxicas, com IC50 superior a 30mg/mL, PIF = 1 e MPE < 0,1. Nenhum voluntário apresentou reações cutâneas após os testes in vivo, confirmando a segurança do extrato de P. juliflora nos aspectos estudados
A análise preliminar da composição química de monossacarídeos por cromatografia em papel demonstrou a presença majoritária de glicose nas amostras, sendo a fração maior que 3kDa de PJ2 (F2M) formada majoritariamente por glicose e traços de galactose, manose a arabinose. Em razão da composição monossacarídica e não ser citotóxica, a F2M foi escolhida para continuidade do trabalho.
A fração F2M, após o processo de purificação e elucidação estrutural por técnicas de Ressonância Magnética Nuclear, foi caracterizada como uma α-glucana.
As amostras com peso molecular menor que 3kDa foram analisadas por LC-MS e apresentaram composição química formada, majoritariamente, por compostos fenólicos e alcaloides. Já a análise por RMN da amostra PJ2, cujos dados experimentais foram analisados em comparação a biblioteca in house de metabólitos de P.juliflora previamente descritos, indicou perfil de similaridade principalmente para açúcares, alcaloides e flavonoides. Deve-se destacar que ambas as técnicas apresentaram resultados compatíveis e que daidzina, trealose, 295-o-hexosideo, homoorietina, orietina, miricetina, escaposina, iridina, galato de catequina, epigalocatequina, ácido glucurônico, xantofilia e genisteina foram observadas pela primeira vez para a espécie. Após a avaliação in vitro do potencial antioxidante foi possível observar que a amostra estudada apresenta atividade por meio de mecanismos distintos, demonstrando o potencial antioxidante da P. juliflora em etapas diferentes da cascata oxidativa. Esses resultados predizem o seu potencial uso como matéria-prima cosmética na prevenção do envelhecimento cutâneo.
Em relação ao estudo de pré-formulação as amostras apresentaram os parâmetros de fluxo e compressibilidade adequado ao desenvolvimento. A granulação via úmida seguida de compressão direta se mostrou o método mais adequado de obtenção dos núcleos sólidos, os quais foram considerados estáveis após 90 dias do estudo de estabilidade.
A avaliação clínica da eficácia hidratante imediata demonstrou um potencial da formulação aditivada com PJ2 em hidratar o estrato córneo e, em menor escala, reduzir a TEWL. Já para a avaliação de longo prazo, houve a manutenção da hidratação do estrato córneo, uma redução significativa da TEWL e melhora de parâmetros do microrrelevo cutâneo. Dessa forma, podemos afirmar que a formulação desenvolvida atua na hidratação da pele tanto de forma imediata após a aplicação quanto em longo prazo, atuando também como agente antienvelhecimento.
Dessa forma, podemos afirmar que nas condições padronizadas neste trabalho, as metodologias desenvolvidas puderam atingir os objetivos propostos aliando, ainda, dois aspectos esperados no desenvolvimento de uma nova matéria-prima e formulação cosmética: o científico ao se obter uma possível nova matéria-prima caraterizada e avaliada, o socioeconômico e ambiental ao se otimizar as condições de extração bem como garantir o uso sustentável de uma espécie invasora que pode causar danos às espécies nativas da Caatinga.