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O sociólogo Boaventura Souza Santos (2007 p. 53) faz um alerta para a necessidade de se recriar o conhecimento emancipador, que valorize os diversos tipos de saber. Nesse ponto classifica dois modelos de saber: o conhecimento-regulação (CR) e o conhecimento- emancipação (CE), que estão presentes na matriz ocidental. Tanto o conhecimento-regulação quanto o conhecimento-emancipação possuem um ponto A, que é o de ignorância, e um ponto B, que é de saber. A diferença está no fato de que, no caso do conhecimento-regulação, a ignorância é o caos, pois “ser ignorante é viver em caos da realidade incontrolada, seja na natureza ou na sociedade”, possuir conhecimento é saber, é a ordem. A trajetória do conhecimento-regulação parte do caos à ordem, onde saber é colocar ordem nas coisas, na

realidade e na sociedade.

O conhecimento-emancipação parte do ponto A, chamado colonialismo, “a incapacidade de conhecer o outro como igual, a objetivação do outro – transformar o outro em objeto” (idem). O ponto B seria a autonomia solidária. O conhecimento então partiria do colonialismo à autonomia solidária. Santos (2007) destaca que, embora as duas formas de modelos estejam inscritos na matriz da sociedade ocidental, o CR passou a dominar o pensamento quando coincidiu na modernidade com o capitalismo. Quando o fez, o CR passou a dominar a matriz do CE fazendo com que este fosse reconfigurado. O que se configurava como “conhecimento-saber (autonomia solidária) passou a ser no CE, uma forma de caos (a solidariedade entre as classes é perigosa, a solidariedade no povo é uma forma de caos que precisa ser controlada)” (idem). Neste sentido, o que era conhecimento passa a ser no CR, “ignorância”. E, em sentido inverso, o que era ignorância no conhecimento-emancipador (ou seja, o colonialismo) passa a ser uma forma de ordem. Ao propor a reinvenção do conhecimento-emancipação o autor esclarece:

(...) a ciência moderna se desenvolveu totalmente no quadro do conhecimento-regulação que recodificou, canibalizou, perverteu as possibilidades do CE. E é por isso que o CE tem de ser uma ecologia de saberes, não pode ser simplesmente o saber científico moderno que temos: este é importante, necessário, mas tem de estar incluído em uma ecologia de saberes mais ampla. É muito importante fazer essa mudança, de uma epistemologia baseada somente em uma forma de conhecimento para outra de ecologia. Quando há uma ecologia de saberes, a ignorância não é necessariamente um ponto de partida, pode ser um ponto de chegada. (SANTOS, 2007, p. 53-54).

O autor alerta para o perigo de a colonização produzir nos indivíduos/sociedade colonizados, silenciamentos e diferenças. O colonialismo, ao colocar-se como único saber crível, desconsiderando outros saberes, se impõe de forma a produzir o silêncio, “o diálogo não é possível simplesmente porque as pessoas não sabem dizer, não porque não tenham o que dizer, mas porque suas aspirações são improferíveis”. (p.55). O dilema, então, estaria em como fazer com que o silêncio fale por meio da linguagem, como fazer com que as vozes silenciadas produzam, nesta lógica racionalizante, autonomia e não a reprodução do silenciamento. O autor aponta a necessidade do diálogo entre as diferentes filosofias, onde “(...) é preciso conversar muito mais, dialogar muito mais, buscar outra metodologia de saber, ensinar e aprender”. (p.57).

conduzir a conversa produzida pela “capa dos valores universais autorizados pela razão” que atribuiu “a razão de uma ‘raça’ de um sexo e de uma classe social”. Esses valores universais no campo da saúde podem produzir o silenciamento dos usuários. (SANTOS, 2009, p. 30).

Outro desafio colocado por Santos (2007) é a distinção entre objetividade e neutralidade. É postulado aos “cientistas” que tenham uma distância crítica em relação à realidade, mas, ao mesmo tempo, não há como isolar-se do contexto local. O próprio saber está contextualizado: “todo saber é local, todos os sistemas de saber são locais, inclusive as ciências” (p.57). Nesse ponto o autor faz uma crítica à racionalidade moderna ocidental, aos tipos de saber que pretendem ser universais, leis gerais que não consideram o contexto, as vivencias e a especificidades de cada cultura. O desafio estaria em desenvolver subjetividades rebeldes e não apenas subjetividades conformizadas. O conhecimento é carregado de argumentos racionais, mas também:

(...) há uma dimensão mítica em todos os saberes, que é a crença, a fé na validade em nossos conhecimentos. Todos nossos conhecimentos têm um elemento de logos e um elemento de mythos, que é a emoção, a fé, o sentimento que certo conhecimento nos proporciona pelo fato de o termos, a repugnância ou amor que nos provoca. (SANTOS, 2007, p. 58).

Na modernidade, o colonialismo político abre espaço para o colonialismo social e cultural. Não se pode entender as relações de desigualdades e exclusão sem entender que o colonialismo social existe nas práticas diárias através do exercício de poder. Santos (2007) propõe que, para entender as estruturas de poder da sociedade, é necessário que se faça uma análise “pelas margens”. O colonialismo, nesta concepção, “são todas as trocas, todos os intercâmbios, as relações, em que uma parte mais fraca é expropriada de sua humanidade” (p.59).

O autor alerta para a necessidade de se criar um novo paradigma que não tenha por base um conhecimento único e válido. Um paradigma que considere a multiplicidade das práticas sociais e saberes nelas intrínseco, uma vez que:

A ciência moderna é sustentada por uma prática de divisão técnica profissional e social do trabalho e pelo desenvolvimento tecnológico infinito das forças produtivas de que o capitalismo é hoje sue único exemplar. Práticas sociais alternativas gerarão formas de conhecimento alternativos. Não conhecer estas formas de conhecimento implica deslegitimar as práticas sociais que as sustentam e, neste sentido, promover a exclusão social dos que a promovem (SANTOS, 2010, p.328).

No âmbito da saúde, uma prática de (des)colonização talvez deva considerar o usuário como sujeito portador de saber, não somente um corpo a ser tratado. Questões que ficam no ar são: Há hierarquia no conhecimento dos profissionais e usuários? Se existe, como está posta? Qual o caminho para amortizá-la? Para se construir a emancipação é necessário "uma nova relação entre o respeito à igualdade e o princípio do reconhecimento da diferença" (SANTOS, 2007, p. 62).

Neste contexto, cabe um processo de negociação dos conhecimentos e identificação compartilhada do tipo de conhecimento mais adequado para enfrentar os problemas em pauta. Ou seja, não há uma definição a priori sobre qual o tipo de conhecimento mais adequado.

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