A regulação metódica é posta como característica diferenciadora entre as pretensões de validade do pensamento histórico científico do pensamento histórico comum. O modo metódico como se reivindica a verdade garante de forma contínua a fundamentação das narrativas tidas como científicas. Desta forma, Rüsen aponta a necessidade do cuidado metódico em três instâncias: com relação à experiência, com relação às normas, e com relação às ideias.
No primeiro caso, o pensamento histórico se faz científico ao se submeter, por princípio, à regra de tornar o conteúdo empírico das histórias controlável, ampliável e fiável pela experiência (conceito compreendido como o que se pode e deve ser
reconhecido, por qualquer um, como um dado empírico). Este processo é um processo contínuo, que cada época faz, o que atribui à história uma característica de relatividade.
Na relação com os dados empíricos, cada época busca satisfazer suas carências e, imbuídos de suas tradições, atribuem sentido as estas experiências. O que solicita, através do método20, que o fato seja artificialmente separado de seu contexto temporal. Com efeito, o conteúdo empírico das histórias torna-se um conteúdo livre de valores (RÜSEN, 2001, p. 105), o que quer dizer apenas que
[...] os fatos do passado, controlados e garantidos pela experiência, podem ser inseridos em constelações historiográficas diferentes, a que conferem pertinência empírica, com (relativa) independência quanto às diversas pretensões de validade normativa e narrativas daquelas. (RÜSEN, 2001, p. 105)
No trato referente às normas, são normativamente pertinentes as histórias que fundamentam o significado do passado, no presente, com normas que estão na base das intenções determinantes do agir de seus destinatários. Ou seja, cita Rüsen, o exemplo da História como luta de classe aos destinatários que são oprimidos e buscam se libertar (RÜSEN, 2001, p. 108). A regulação metódica com relação às normas se dá com a reflexão sobre os referenciais. Cada história é produzida a partir de uma perspectiva, e o esclarecimento desta perspectiva deve estar contido na narrativa histórica. É uma leitura do passado e não a única, ficando claro que nenhuma consequência narrativa decorre do puro conteúdo empírico, mas sim das respectivas normas atribuidoras de sentido. Para não cair num relativismo, normas abrangentes ampliariam as perspectivas das histórias, garantindo uma validade maior a estas histórias.
Com relação às ideias, Rüsen apresenta como fruto das ciências modernas, o medo de narrar na produção do texto historiográfico, expressão esta que vem sendo substituída pelas expressões descrever, analisar e explicar (RÜSEN, 2001, p. 109). De acordo com o autor, estes conceitos não substituiriam a narrativa na busca pela cientificidade do conhecimento histórico, podendo ser colocadas até mesmo como modalidades da própria narrativa histórica. De todo modo, estas expressões demonstram diferentes formas de fundamentar a História, diferentes teorias
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Devemos inserir aqui a observação de que a Matriz Disciplinar que Rüsen esquematiza não vale para todos os tempos, mas só para a modernidade tardia e a pós-modernidade, em que há um método, porque há uma ciência especializada.
históricas (fios condutores atribuidores de sentido), que nos colocam a questão da possibilidade de metodizar esta atribuição de sentido que ocorre na produção historiográfica. A metodização com relação às ideias refere-se ao isolamento também artificial destas atribuições de sentido de seus conteúdos empíricos e normativos. Diferente das histórias contadas de modo não científico, nas quais suas determinações de sentido são inseridas no fluxo da própria narrativa, sem um comprometimento com o seu esclarecimento, a História que se pretende científica deve esclarecer suas teorias, sua atribuição de sentido, como característica metodológica. O critério para se saber qual fio condutor produz melhor sentido é novamente a capacidade de manter e consolidar identidades, sendo que
o ponto extremo dessa consolidação da identidade é a “humanidade”, como suprassumo dos pontos comuns em sociedade, com respeito à qual os diversos sujeitos agentes, no processo de determinação de suas próprias identidades, determinam as dos outros de tal forma que estes se reconhecem nelas. [...] conseguiu-se, assim, um princípio com o qual a instituição de sentido pelo conhecimento histórico está metodicamente regulada. (RÜSEN, 2001, p. 126)
Neste momento, Jörn Rüsen apresenta indiretamente sua pretensão de um
humanismo em resposta aos atuais desafios interculturais. Uma concepção de
superação do confronto entre o eu e o outro, uma ideia moderna de humanidade universal, rompendo com os etnocentrismos numa visão transcendental de valorização do outro. Elegendo o humanismo como finalidade, como ponto de referência a se consolidar identidades, Rüsen acredita ter encontrado um critério geral na metodização com relação às ideias, finalizando assim sua discussão em torno do papel do método como fundamentador das pretensões de validade do conhecimento histórico científico.
Em suma, para Rüsen, o controle metodológico garantiria ao conhecimento histórico a objetividade, a preservação e utilização da subjetividade, uma função orientadora e mantenedora da identidade, da humanidade, por via do reconhecimento das carências e dos interesses da sociedade na qual emerge a História enquanto ciência.
Para além da obra Razão histórica, a discussão sobre este controle metodológico efetivamente se desenvolve no segundo volume da trilogia,
Reconstrução do passado. Nesta obra, podemos apontar como principal
preocupação de Rüsen o desenvolvimento da teorização das ideias e da metodização como sistema de regras norteadoras da averiguação e interpretação do
conteúdo histórico. Em outras palavras, nesta obra Rüsen aprofunda dois dos princípios enunciados por sua Matriz disciplinar: ideias e métodos. Um meta olhar sobre o trabalho do historiador, e como internamente a ele pode ocorrer (ou não) a manutenção dos interesses iniciais, das carências primeiras que motivaram o pensamento histórico comum.
Mesmo sendo princípios diferentes, são demonstrados como internamente dependentes um do outro, de tal forma que a ideia influencia o método, e vice versa. Nas palavras de Rüsen,
O conhecimento histórico não é construído apenas com informações das fontes, mas as informações das fontes só são incorporadas nas conexões que dão o sentido à História com a ajuda do modelo de interpretação, que por sua vez não é encontrado nas fontes. [...] Os modelos de interpretação, que o historiador aplica às fontes para fazê-las fluir e para revelar o conteúdo dos fatos, devem ser discutidos à base da configuração de suas teorias, a forma pela qual correspondem aos princípios da metodização do pensamento histórico. (RÜSEN, 2007b, p. 25)
Essa discussão se aprofunda ainda mais ao discutir o papel da teoria histórica e dos conceitos históricos no processo de cientificização do pensamento histórico. Ao produzir a sua narrativa sobre o que ocorreu no passado, o historiador se vê diante de uma escolha – perspectiva que provém de sua teoria histórica – entre privilegiar a intenção individual do sujeito ao produzir a ação, ou privilegiar as condições externas e estruturantes que condicionaram aquela ação. Na opinião de Rüsen, ambas as perspectivas têm ganhos e perdas ao conhecimento histórico, e que, dependendo do analisado, podem vir a se complementar. Esta forma de explicação, que internamente se rearranja numa articulação própria de conceitos e categorias, dentro de uma constelação teórica, é o que define Rüsen como “modo mais adequado à ciência da História” (RÜSEN, 2007b, p. 27). Uma explicação científica, portanto, deve dar conta de indicar as razões que fundamentam as ações dos sujeitos no passado. Dentro da historiografia, Rüsen define como “nomológicas” as teorias que privilegiaram as condições externas e racionais que estruturam as ações humanas. Esta perspectiva, especificamente, busca criar leis que regulamentam as ações dos homens ao longo do tempo. Por “intencional”, Rüsen referiu-se às explicações históricas que privilegiaram as intenções individuais dos sujeitos, via reconstrução das razões motivadoras, “de dentro para fora”, mediante a “compreensão”.
O que está em jogo neste processo de recuperação do passado, diz respeito ao sentido que a História toma na narrativa do historiador. Haveria um sentido universal que abrangeria todas as histórias? Seriam histórias individuais relativas e que não se interconectam? Haveria um movimento da História, que deveria ser captado pelo historiador, ou haveriam apenas intenções individuais que gerariam inúmeras histórias? É o historiador que atribui sentido ao passado de acordo com suas intenções no presente, ou haveria um superávit de sentido nos próprios documentos históricos analisados?
São questões como estas que adentram no segundo volume da trilogia, e que aqui apenas indicamos. O que nos importa neste momento, é que, para Rüsen, estes desafios gestados ao longo dos séculos XIX e XX à historiografia e a Teoria da História, devem ser solucionados no campo da argumentação, das explicações racionais, que busquem fundamentar o conhecimento produzido não apenas na empiria dos documentos históricos, mas sim na inter-relação entre as intenções do historiador e os dados/sentido do documento, entre as intenções individuais das pessoas no tempo e as condições externas de seu momento histórico.