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Évolution des dispositions contestées

Dans le document Décision n° 2017 - 662 QPC (Page 5-10)

A exaltação da identidade nordestina e as críticas contra a violência são duas características importantes que compõem os discursos dos Cangaceiros. A primeira é um aspecto quase exclusivo dessa torcida, enquanto a segunda é compartilhada por outras torcidas de modelo alternativo. Há ainda pelo menos mais um elemento que precisa ser citado. Ele é também um pensamento que está presente em outras torcidas, especialmente no Setor Alvinegro. Trata-se da crítica aos nordestinos que torcem por um time da região, ou, em outros termos, o discurso “anti-misto”.

Um fenômeno que está presente em quase todos os estados do Brasil é o de pessoas que torcem para times das cidades do Rio de Janeiro e/ou São Paulo. Essas pessoas podem tanto ter dois times do coração (um de sua cidade, outro carioca/paulista), quanto podem torcer exclusivamente pelo time de outra região. Nesses dois casos, esses fãs são chamados de “torcedores mistos”. É um termo pejorativo que acusa uma ideia de impureza, de mistura, que não seria compatível com o ato de torcer. Flávio Campos e Luiz Henrique de Toledo (CAMPOS & TOLEDO, 2013) trazem o conceito de bifiliação clubística para se referir a esses fãs que torcem para dois ou mais clubes. Esse conceito, entretanto, não parece tratar daqueles que torcem para um único clube, sendo ele de outro estado. Inspirado no conceito daqueles autores, proponho o uso da expressão exofiliação para se referir àquele que torce para um time de outro estado, sendo ele seu único clube ou não. Os críticos dessa forma de torcer, então, podem ser chamados de anti-exofiliação.

A expressão “misto” foi criada por grupos de torcedores que são contrários a esse modo de torcer e que nomeiam a si mesmos como “anti-mistos”. Esses grupos estão presentes em vários estados, congregando fãs de diferentes times, inclusive rivais. Estados do Nordeste como Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia, por exemplo, já tiveram várias manifestações12 anti-

exofiliação. Eles defendem a visão de que o futebol brasileiro está dividido em

basicamente dois lados: em um deles estão os times “do eixo”, compostos por equipes da região Sudeste e Sul, muito especialmente dos estados do RJ e SP, e também do Rio Grande do Sul; no outro lado estão os times dos demais estados.

12 Os protestos anti-exofiliação se dão, sobretudo, com faixas nos estádios, vídeos, sites/redes sociais na internet e camisas.

Figura 02: “Vergonha”, “burros”, “alienados”, “aculturados”. Protestos dos torcedores anti-exofiliação

Também de acordo com os anti-exofiliação, as principais instituições do futebol brasileiro, CBF e Rede Globo13, atuariam em favor dos interesses dos times “do eixo”, oferecendo a eles mais repercussão, dinheiro e poder político, dentre outros tipos de favorecimento, em detrimento das necessidades dos demais clubes. Torcer por times “do eixo” seria reforçar esse cenário de desigualdades. Seria ainda um ato de insensatez, visto que esses times seriam algo que pertencem apenas aos cariocas ou aos paulistas. O exofiliado, então, deixaria de valorizar algo “seu” para se vincular a times que na verdade pertenceriam “aos outros”.

Os anti-exofiliação afirmam que a existência dos exofiliados se daria, sobretudo, pela influência (em suas palavras: alienação) midiática, em especial da Rede Globo. A superexposição de times cariocas e paulistas na programação da TV e em outros veículos faria com que esses torcedores perdessem senso crítico e passassem a irrefletidamente torcer pelos clubes “dos outros”. A proposta dos anti-

exofiliação seria, também em suas palavras, conscientizar os “mistos” para que

saíssem desse estado de alienação14.

Os Cangaceiros, dentro da sua proposta de valorização da identidade nordestina, também afirmam compor o movimento anti-exofiliação. Durante os jogos

13 A Confederação Brasileira de Futebol é a instituição que promove os principais campeonatos de futebol de nível estadual, regional e nacional no Brasil. As Organizações Globo são detentoras dos direitos de transmissão da maior parte desses torneios.

14 Falo de maneira mais detalhada sobre essa questão dos torcedores “mistos” e do movimento “anti- misto” em minha dissertação de mestrado (VASCONCELOS, 2011).

do Ceará SC contra equipes cariocas ou paulistas tradicionais, como Flamengo/RJ, Vasco/RJ, Corinthians/SP, São Paulo, dentre outros, é bastante comum ouvir os Cangaceiros gritarem contra os torcedores daquelas equipes presentes no estádio, versos assim:

Ô flamenguista [ou vascaíno, sãopaulino etc.] Vai se foder

Sou nordestino e tenho time pra torcer! Aldo comenta essa postura da torcida.

Então a gente montou os Cangaceiros, esse movimento, e tudo, também pra bater de frente com isso, é... é a questão dos anti-mistos, né (...). A gente bate na tecla que a gente não concorda com cearense que torce pra outro time (Aldo).

Uma das perguntas do questionário aplicado com as torcidas quis saber se o entrevistado torce ou já torceu por um time de outro estado. Isso ajuda a perceber como o discurso anti-exifiliação, que costuma estar mais presente nos Cangaceiros do que nas outras torcidas consultadas, de fato tem reflexo, ou não, nas respostas.

Tabela 02: Você torce ou já torceu para um time de outro estado?

Cangaceiros Cearamor TUF

Torce 16,7% 42,4% 58,3%

Já torceu 16,7% 5,9% 1,8%

Nunca torceu 62,5% 51,8% 38,1%

Os Cangaceiros de fato se mostram a torcida com menos abertura a torcer para um time de outro estado. Eles têm a maior porcentagem de “nunca torceu” e a menor porcentagem de “torce”. Além disso, proporcionalmente são os torcedores que mais abandonaram o vínculo afetivo por clubes de outras partes do país. A TUF, por sua vez, é a que mostrou maior incidência de exofiliados, menor porcentagem de “nunca torceu” e de pessoas que deixaram de torcer para times de outros estados. A Cearamor tem o predomínio de pessoas que nunca torceram, mas com presença alta de exofiliação e números relativamente baixos de “já torceu”.

Os dados sugerem que, apesar de todas as torcidas terem dado notas altas para “me sinto Nordestino”, quando se trata de dar exclusividade aos times da região, esse sentimento é mais forte nos Cangaceiros. Os números não causam surpresa quando lembramos que essa torcida é declaradamente anti-exofiliação. Mesmo assim, ainda chama a atenção a presença de 16,7% que torcem para times

de outros estados, demonstrando que esse discurso é hegemônico na torcida, mas não é aderido por 100% dos componentes.

Uma fala que ilustra essa questão é a de Braga. Ele ao mesmo tempo declara seu amor ao estado do Ceará e ao Nordeste, lamenta o preconceito que o torcedor nordestino sofre quando vai jogar em outras regiões, mas torce também para o Vasco da Gama/RJ:

Ele [Luiz Gonzaga] representa muito o Nordeste. Porque você sabe que, muitas vezes, a maioria dos cantos que o Ceará vai jogar fora, até a nossa torcida representa, o nordestino é sempre criticado. Então essa torcida foi fundada para amor ao Ceará e ao Nordeste (...). Porque é muito chato a gente ser criticado pelo Sul, Centro-Oeste.

Entrevistador: Você torce ou já torceu por algum outro time?

Braga: Só o Vasco da Gama. Em segundo lugar o Vasco. Mas o Ceará é o meu primeiro time! Com certeza, aonde eu for, sou Ceará.

Braga tem o cuidado de salientar que o Ceará SC é o time pelo qual dedica mais amor. Talvez seja a maneira encontrada de ao mesmo tempo manter a

exofiliação sem deixar de levar em conta o sentimento e o compromisso com o

regional.

García também torce para um time de outro estado, o Corinthians/SP. Ele até mesmo vestia uma camisa da equipe paulista quando nos encontramos para a entrevista. Eu havia deixado bem claro que o encontro solicitado era para falarmos sobre os Cangaceiros, mesmo assim ele se sentiu à vontade para trajar o uniforme corintiano, mostrando o quanto esse vínculo afetivo deve ser forte.

Quando perguntei se esse lado regional dos Cangaceiros o influenciou no momento de ingressar na torcida, ele concordou, mas sua resposta não demonstrou tanta empolgação:

Com certeza, é bem interessante, porque às vezes, coisa que você não sabe, no seu dia a dia você aprende dentro da torcida. Coisa que você não sabia você aprendeu lá dentro (García).

O entrevistado mostra como a questão da identidade regional não é tanto um sentimento que já carregava consigo e desejava ter em uma torcida, mas sim algo ele está mais aprendendo agora, pelo convívio.

Em contrapartida, quando perguntei se a torcida fazia críticas a quem torce para um time de outro estado, ele foi bem mais enfático:

É, os menino toda vida fresca15, “ah, misto, não sei o quê”, mas foi como eu

já falei: antes de torcer Ceará eu sempre fui Corinthians. Porque Corinthians eu sou desde pequeno mesmo (...). Eu comecei a torcer Ceará pela influência de quê, do meu tio, que foi morar lá em casa (García).

A resposta é bem mais longa do que esse trecho, mas em nenhum momento dela há a preocupação de afirmar, por exemplo, que o Ceará SC seria sua primeira paixão, como fez Braga.

Aldo, um dos fundadores, representa os componentes que já torceram por outro clube, no seu caso também o Corinthians/SP.

Rapaz, pra falar a verdade, quando eu era muito novo, muito novo, eu tinha uma simpatia, pra você ver como é que são as coisas, eu tinha uma simpatia pelo Corinthians. Não pelo fato de gostar. É porque é o que a gente via na mídia, né? Sendo que a gente na época não tinha essa mentalidade. Criança não dá pra controlar. Aí depois que a gente vai vendo as coisas, os preconceitos eu a nossa região sofre com o povo de lá, aí a gente vai tendo a mentalidade “Pô, por que que eu tô valorizando uma coisa que é lá de São Paulo”? (Aldo).

Sua fala é tipicamente anti-exofiliação: cita a influência da mídia, os preconceitos que os nordestinos sofreriam pelas pessoas de outras regiões e a visão de que os times de outras partes do país são algo que pertencem “aos outros”. Ele cita explicitamente o movimento anti-exofiliação (“anti-misto”) como algo que a torcida apoia:

Então a gente montou os Cangaceiros, esse movimento, e tudo, também pra bater de frente isso, é... é a questão dos anti-mistos, né. A gente não concorda [com os “mistos”], assim, apesar de, na época, eu simpatizar pelo Corinthians, mas eu não conhecia o Ceará, não tinha essa mentalidade cultural, aquela coisa, e tal, e a gente bate na tecla que a gente não concorda com cearense que torce pra outro time. Tipo assim, eu errei no passado mas corrigi, me pus no meu lugar e tô querendo dar um exemplo pra que um erro que eu cometi não se volte a acontecer (Aldo).

Aldo continua enumerando argumentos característicos dos anti-

exofiliação: a visão de que ser “misto” é um erro que precisa ser corrigido; a ideia da

conscientização, aqui trazida pela expressão “mentalidade cultural” (mais uma vez o

capital cultural como meio de distinção). Afirma que a torcida foi formada também

com o objetivo de fortalecer o movimento “anti-misto”.

O questionário pediu: “em uma palavra, como você descreveria a pessoa que torce para um time de outro estado”? Isso foi perguntado apenas para os que já haviam declarado só torcerem para o Ceará SC. Excetuando-se um torcedor que disse não ter "nada contra" e outro que respondeu "não sei", todas as demais

palavras escolhidas foram de teor negativo. "Alienado" e "misto", por exemplo, foram ditas, cada uma, quatro vezes. Outras expressões usadas: “desinformado”, “sem noção”, “não é cearense”, “falta de respeito”, “incoerente” e “paspalho”. Predomina, então, a ideia do exofiliado como uma pessoa cuja preferência clubística foi ditada pela mídia e que não respeita sua região.

Percebe-se como os Cangaceiros são realmente uma torcida mais crítica aos exofiliados do que as duas Organizadas tradicionais ouvidas. Esse discurso anti-exofiliação, contudo, não é absoluto, havendo integrantes que torcem sim por clubes de RJ ou SP. Encerro essa discussão sobre os exofiliados reforçando que os Cangaceiros não são o único grupo de torcedores a ter essa postura crítica. Dentro das Organizadas do Ceará SC, o Setor Alvinegro é outra torcida que estimula bastante esse debate, inclusive tendo feito camisas com frases como “Eu escolhi meu time, a mídia escolhe o seu” (MORAIS, 2015, p. 44), vide a figura 02. Trata-se de um bom exemplo do discurso anti-exofiliação que toma a influência da mídia como alienante.

Dans le document Décision n° 2017 - 662 QPC (Page 5-10)

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