• Aucun résultat trouvé

4.2 Comportement dynamique

4.2.4 Évolution de la relation d’ordre

A apresentação de um projeto de arquitetura envolve uma série de discursos argumentativos nos quais o arquiteto tenta persuadir firmemente certos públicos – clientes, investidores, instituições públicas ou privadas, moradores de uma determinada cidade, outros arquitetos, professores – de que a sua proposta detém as melhores soluções para o problema arquitetônico ou urbanístico inicialmente colocado; no caso de um concurso, que o seu projeto é o melhor entre os outros concorrentes; ou ainda, ao término da sua formação acadêmica, que

o projeto final o recomenda para a vida profissional. Dessa forma, percebemos que a apresentação ou defesa do projeto arquitetônico envolve pelo menos quatro entidades retóricas essenciais:

a) o orador, neste caso o autor do projeto, do estudante de graduação ao profissional de mercado;

b) o público, que pode ser leigo ou especialista, restrito ou abrangente, real ou imaginário;

c) a forma de discurso, em que poderíamos incluir a fala, ou oratória, mas que, nos limites da nossa pesquisa, consideramos o discurso textual e gráfico, ou imagético;

d) o argumento, ou as questões centrais do discurso, que no caso da apresentação do projeto, podem ser mobilizadas para enfatizar certas características do edifício, em detrimento de outras, visando o convencimento do público.

Não é a nossa intenção aprofundar o estudo da Retórica ou as suas aplicações cabíveis no discurso arquitetônico em geral. Contudo, convêm salientar alguns artifícios básicos desta “arte de persuadir pelo discurso”, de que fala Olivier Reboul (2004, p.XIV), sobretudo quando aplicado à produção projetual, principalmente naquelas ocasiões profissionais onde o projeto de arquitetura será submetido a alguma espécie de julgamento.

Na introdução do trabalho, vimos que o uso de imagens realistas dos edifícios projetados é uma prática cada vez mais corriqueira em diversas situações de apresentação do projeto, da publicidade imobiliária aos trabalhos acadêmicos – muitas vezes se torna difícil para o observador comum distinguir a representação da realidade (construção). Na verdade, esta parece ser a intenção: fazer o observador, na maioria das vezes o futuro usuário da edificação, vivenciar o objeto representado como se fosse real. O uso relativamente recente de vídeos ou animações tridimensionais do futuro edifício, gerados em ambientes digitais, contribui para essa sensação. Paralelamente, a descrição pormenorizada do projeto através da escrita, como faz Jean Nouvel ou Oscar Niemeyer, pode ajudar o observador a imaginar determinados aspectos da edificação – como se caminhássemos pela edificação com o arquiteto a nos indicar o caminho –, embora este método não proporcione o mesmo impacto das imagens hiper-realistas. Em ambos os casos, apesar do apelo patente à realidade, em geral

vislumbramos do edifício apenas o que deseja o arquiteto, que a princípio detém o controle da representação arquitetônica.

Para Tereza Halliday (1990), fazer uma pessoa vivenciar uma determinada cena como se estivesse participando dela é uma função básica da Retórica. Em nosso contexto, o sucesso da apresentação de um projeto, por ocasião da venda de um imóvel ou durante a defesa de uma proposta arquitetônica perante um júri especializado, por exemplo, dependerá não só da qualidade do projeto em si, mas, em grande medida, dos artifícios retóricos utilizados pelo arquiteto, como o uso de imagens impactantes ou de uma descrição poética do objeto, e a capacidade destes em despertar o entusiasmo do público.

A autora, contudo, sinaliza que agir retoricamente implica fazer “uso da comunicação para definir as coisas da maneira como desejamos que os outros as vejam” (HALLIDAY, 1990, p.08). E continua: “agir retoricamente é usar a linguagem como um meio de fazer as pessoas entenderem o que desejamos que elas entendam” (Idem, pp. 26 e 27). Tostrup segue raciocínio semelhante ao de Halliday e afirma que o arquiteto, ao apresentar um projeto, pode enfatizar certas verdades ou qualidades do edifício representado em detrimento de outras, a princípio menos importantes ou que podem se tornar empecilhos no processo de convencimento. Nestes casos, segundo a autora, está em jogo uma seleção de valores sobre determinados aspectos ou elementos do projeto que o autor julga mais importante. Paradoxalmente, através de tal artifício, que parece vantajoso para o arquiteto durante o processo de convencimento do projeto, pode se omitir dados essenciais sobre o edifício ou conduzir a pistas falsas sobre o seu entendimento, se tornando, deste modo, um ponto negativo para o observador, sobretudo quando se trata de um futuro usuário.

De todo modo, quando o arquiteto submete um trabalho a algum tipo de avaliação ou julgamento, um concurso, por exemplo, espera-se que ele defenda as idéias de projeto com argumentos potentes e persuasivos, mobilizando, para tal fim, todo o arsenal de informações a respeito do edifício – desenhos, imagens, maquetes, vídeos e documentos escritos, quando estes são previamente solicitados. Em tal contexto, Elisabeth Tostrup (1999), em importante estudo sobre os concursos de projeto realizados na cidade de Oslo, na Noruega6, considera o material gráfico e textual submetido ao júri, como discursos – peças retóricas por excelência,

6

TOSTRUP, Elizabeth. Architecture and rhetoric. Text and design in architectural competitions, Oslo 1939- 1997. London: Andreas Papadakis Publisher, 1999.

dado seu forte caráter de convencimento nestas situações. Valéria Fialho (2007), em pesquisa de doutorado sobre os concursos de projetos no Brasil7, corrobora o pensamento da autora:

A retórica é essencial nos concursos porque todos os níveis de apresentação envolvem argumentos persuasivos, nos quais o autor do projeto tenta deliberadamente trazer outros para compartilharem sua maneira de pensar um determinado problema. Isto acontece no que diz respeito aos textos e ao material gráfico (FIALHO, 2007, p.54).

Apesar de tratarem sobre concursos de arquitetura, para o nosso universo de pesquisa, os Trabalhos Finais de Graduação (TFG), o estudo realizado por Tostrup se mostra de grande valia. Isso porque, apesar de TFGs e concursos de projetos representarem diferentes estágios profissionais na carreira do arquiteto – situações de ensino e situações de mercado – e servirem para diferentes finalidades, ambos se assemelham quanto à forma de argumentação empregada, verbal e visual, e de avaliação, o julgamento realizado por especialistas: de um lado, professores universitários, de outro, profissionais de escritório.