Assim como Paulo Prado, Oliveira Vianna também se opunha ao PRP. Ao contrário de Prado, que criticava o PRP por seu autoritarismo, Oliveira Vianna apontava a inviabilidade do projeto liberal no Brasil, visto por ele como inadequado à realidade local.
Populações Meridionais do Brasil, de 1920, escrito por Oliveira Vianna, esteve associado
ao esforço governamental representado pelo Censo de 1920 - o maior e mais sistemático esforço de contabilização e classificação da população brasileira até então, levada a cabo por Bulhões de Carvalho. Populações Meridionais foi a obra que consagrou Vianna como um dos principais intelectuais brasileiros. O pensador fluminense aponta para a ausência de integração social e polítca na realidade brasileira, marcada pelo princípio da “ Insolidariedade”. Defendia um estado centralizado como forma de dirimir uma tendência natural do brasileiro à dissolução. A solução para tal problema, para Vianna, seria a adoção do “Idealismo orgânico” - um conjunto de princípios baseados na realidade brasileira que seriam alcançados a partir do conhecimento histórico. Esse conhecimento, no entanto, seria alcançado distanciado do que considerava o “fetiche do documento”
Os documentos não dizem tudo, não fixam tudo, não apanham todos os aspectos dos acontecimentos; dizem apenas alguma coisa, fixam apenas alguns detalhes (...) esses detalhes que fixam, nem sempre são necessários, essa alguma coisa, que eles dizem, nem sempre contém o sentido íntimo e substancial da realidade176
Oliveira Vianna reivindicava a síntese histórica, que segundo Ferreti
remetia-se explicitamente a Henri Beer e sua Revue de Syntese Historique, o mesmo autor que, nestes anos 20, servia de referência aos propósitos de federalismo disciplinar da historiografia renovadora do grupo francês dos
Annales. De forma original no ambiente brasileiro, Oliveira Vianna propunha um
trabalho historiográfico baseado em atividade multidisciplinar, que recriasse um
175Danilo Ferreti cita de passagem a visão de um paulista “desconfiado, reservado, soturno e alheio ao contato com gente de fora, imagem esta tão difundida pela literatura de viagem e pelos estudantes da faculdade de direito originários de outras províncias.” Nota que em fins do século XIX tal visão passou a ser mais associada ao caipira. FERRETI, Op. Cit., p.163.
176OLIVEIRA VIANNA, F. J. O sentido pragmático do passado In Revista do Brasil, 1924, pp. 28-29; APUD FERRETI Op. Cit. p. 260
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panorama a largos traços da constituição histórica da nacionalidade, procurando romper com a minúcia factual da historiografia do período. Mas, para realizar esta “síntese histórica”, Oliveira Vianna (...), apelou para sociólogos, etnólogos, antropólogos, historiadores e geógrafos, na sua grande maioria ligados às correntes racistas e deterministas da ciência social européia da passagem dos sécs. XIX para o XX. Assim, estavam presentes em suas páginas elementos do arianismo de Gobineau e Lapouge, da antropogeografia de Le Play e do determinismo de Taine, dentre vários outros. Numa conjuntura em que as teorias raciais começaram a ser contestadas, Oliveira Vianna (da mesma forma que Alfredo Ellis Jr, outro autor do período) não deixou de conferir um papel central ao fator “raça”.177
Em Populações Meridionais propunha a existência de três “meios cósmicos” a que corresponderiam três tipos populacionais diferentes: o tipo nordestino, associado à caatinga, o tipo gaúcho, associado aos pampas e o tipo matuto, associado às matas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Vianna diz que os primeiros aristocratas de São Paulo viviam uma vida de luxo, com pompas e modos fidalgos nos primeiros séculos da colonização - pelo que foi muito criticado por diversos historiadores, como José de Alcântara Machado, pai de Alcântara. A partir do contraste entre o meio colonial os colonizadores formou-se uma tendência de colonização nos centros urbanos, europeia, e outra voltada para ocupação das zonas rurais, paulista. Aos poucos a aristocracia europeia se ruralizou e dispersou, e a as cidades ficaram despovoadas. A partir da ruralização formaria-se uma nova forma social e o surgimento de uma aristocracia rural “entendida como o principal agente de nossa história e na predominância do caráter rural e anti-urbano da formação nacional”. A formação de latifúndios auto suficientes espalhados pelo território formou um isolamento dos núcleos populacionais e uma relação insolidária entre eles. O latifúndio favoreceria uma formação autárquica e desde os tempos coloniais até a introdução do café, o “o latifúndio era capaz de produzir quase tudo o que precisava para se manter em seu necessário isolamento.” 178 O
domínio rural implicou na simplificação da estrutura nacional. A auto suficiência do latifúndio impediria a formação do comércio, da burguesia mercantil, das classes industriais ou de classes agrárias solidárias, consequência da diferenças de interesses entre grandes e pequenos proprietários de terra e do isolamento pelo qual estavam submetidos.
Sem quadros sociais complexos; sem classes sociais definidas; sem hierarquia social organizada; sem classe média; sem classe industrial; sem classe comercial; sem classes urbanas em geral; - a nossa sociedade rural lembra um
177FERRETI, p. 266 178 Idem, Ibidem
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vasto edifício, em arcabouço, incompleto, insólido, com os travejamentos mal ajustados, e ainda sem pontos firmes de apoio.179
A descrição dos ambientes e das personagens de Brás indicam para o oposto da formação social observada por Vianna na formação do povo brasileiro: as personagens, em geral, pertencem a classes médias urbanas - há menção ao aspecto industrial da cidade direta e indiretamente: o irmão de Gaetaninho dera a ele, de presente, um chapéu palhetinha “que trouxera da fábrica”; a marcação de tempo em Amor e Sangue era o apito das fábricas; Em A
Sociedade o italiano Salvatore Melli era um industrial do ramo têxtil, ex- comerciante.
Comerciante também era seu Natale do Armazém Progresso de São Paulo, e como vimos no primeiro capítulo quando falamos sobre a figura dos carcamanos o comércio aparece recorrentemente ao longo do livro.
Os interesses vinculados ao latifúndio e a insolidariedade rural formariam uma psicologia política no qual o “espírito de clã” prevalecia sobre o interesse coletivo, o que condenava instituições públicas como a Câmara Municipal e o juiz ordinário a serem instrumento de interesses particulares. Os caudilhos rurais diagnosticados por Vianna provocariam a ausência da autoridade política, fazendo prevalecer a “anarquia colonial”. Ferreti observa que nesse ponto Oliveira Vianna diverge das leituras históricas de Américo Brasiliense, Antônio Piza e Washington Luís, que viam nas Câmaras Municipais as origens das instituições liberais paulistas. Vianna buscava, a partir dessa leitura do passado, justificar a defesa de um estado forte e centralizado.180
Opositor do liberalismo do PRP, Vianna também recorria ao tema das bandeiras para elogiar os paulistas em termos raciais.181 Entre 1926 e 1927, ou seja, no exato momento de
finalização e produção de Brás Bexiga e Barra Funda, Vianna publicava nas páginas do
Correio Paulistano uma série de textos sobre “o eugenismo paulista”. Como resume Ferreti,
o bandeirante confunde-se com o colono do centro-sul e dele pode-se destacar três características: seria um aristocrata em termos sociais, um caudilho “anarquizante” politicamente e um racialmente um ariano, que recusava a miscigenação,
Uma das características da ruralização diagnosticada por Vianna era a posse do latifúndio e o controle social interno. Esse controle
afastava os grupos subalternos de comerciantes, mestiços e negros do mundo da política, concentrando nas mãos do grupo latifundiário o direito de participação nas câmaras. (...) socialmente o bandeirante servia para uma função essencialmente benéfica, uma vez que mantinha a ordem hierarquizada necessária ao movimentodas Bandeiras e à conseqüente expansão do latifúndio.182
179 VIANNA, O. Populações meridionais do Brasil. São Paulo: Ed. Monteiro Lobato, 1920. p. 143. APUD FERRETI, Op. Cit. 267
180Idem, Ibidem.
181BRESCIANI, Maria Stella Martins. O charme da ciência e a sedução da objetividade: Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil. 2. ed. rev. São Paulo, SP: Editora UNESP, 2007.p. 248
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Oliveira Vianna reivindicava o arianismo, que atribuía superioridade ao tipo racial
germânico. Pautava-se em autores como Gobineau, Lapouge e Quatrefages.183 Sua
explicação associava a posição social dos indivíduos à sua formação racial. Na opinião deste autor o bandeirante não era um mameluco, racialmente - evitou contato com a gente local mantendo a “pureza” de seu tipo racial.184 O resultado do contato dos bandeirantes com os
locais, quando existia, resultaria em mulatos, divididos entre superiores e inferiores. A grande maioria dos mestiços seria composta pelos inferiores, que tinham predominância da herança negra ou indígena. Estes mestiços teriam “um caráter de instabilidade psicológica crônica”, o que tornava-os avessos à civilização.185 Os “mestiços superiores” seriam aqueles
nos quais prevalecia a herança do tipo ariano. Por isso poderiam desenvolver um “comportamento civilizado semelhante àquele da aristocracia.” A possibilidade de ascensão social viria deste tipo de mestiço. Neste ponto ele divergia do fatalismo de Gobineau, que achava a miscigenação levaria inexoravelmente à degeneração. Divergia também de Alfredo Ellis Jr., Afonso de Taunay de José e António de Alcântara Machado, para quem os bandeirantes seriam mamelucos.
O racismo de Vianna justificava a incapacidade de participação popular na política. As elites de formação racial ariana e aderidas ao “idealismo orgânico”, ou seja, antiliberais, garantiriam ao país a um futuro civilizado. Ferreti cita um projeto de Vianna de escrever uma obra chamada O Ariano no Brasil, na qual o estudo do passado colonial seria mais aprofundado. 186 Alguns esboços desse livro, nunca lançado, foram publicados nas páginas
do Correio Paulistano, jornal oficial do PRP, em uma série de artigos com temas intitulados
Seleção imigrantista e Eugenismo paulista, publicados durante os anos de 1926 e 1927. O
projeto do livro continuaria em 1930, com a publicação de Raça e Assimilação .187 Antes,
em Evolução do Povo Brasileiro (1922), o autor já apontava que o Brasil tendia a se “arianizar”. Os artigos de 1926 e 1927 - publicados na iminência do lançamento de Brás,
Bexiga e Barra Funda, portanto - seriam uma sugestão sobre como “potencializar” ou
assegurar a arianização do povo brasileiro.188 Nesses artigos discutia-se em termos eugênicos
183FERRETTI, 2004, Op. Cit. p.278; BRESCIANI, 2007, Op. Cit. p. 252 184FERRETTI, 2004, Op. Cit. p.278
185 BRESCIANI, 2005, Op. Cit., pp.265-266.
186 “Contudo, ao longo dos anos 30 e 40, com o descrédito, no âmbito internacional, das teorias do determinismo racial, acabou abandonando o projeto” Cf. FERRETI, 2004, Op. Cit. , p.281.
187FERRETI, 2004, Op. Cit., p.281
188 Iberos e Eslavos, 15/8/26; Seleção das matrizes étnicas, 25/8/26; Seleção Imigrantista, 15/9/26; Raça e pesquisas estatísticas, 25/9/26; Key e a hereditariedade mental, 5/11/26; A imortalidade das raças, 25/11/26;
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a criação de um tipo brasileiro futuro e do papel da medicina no “melhoramento das raças”, em abordagem que abrangia todas as classe sociais. A importância da seleção dos imigrantes estava no pressuposto de que as elites nacionais seriam formadas a partir dos elementos mais eugênicos de um povo, o que era coerente com a sua visão do passado bandeirante. Para esse autor, afinal, superioridade de uma elite seria “ pura questão de biologia étnica.” 189
Vianna estabelecia uma relação direta entre seleção de imigrantes, excelência da elite e progresso futuro do país, considerando cada um dos elementos como condição imprescindível para a realização dos demais. Mais uma vez, o autor trazia à tona seu profundo elitismo, o que o impulsionou a escrever quatro artigos em que tratava do caráter altamente eugênico da “elite paulista – porque, como sempre, aqui, como em toda parte, só as elites contam. 190
A esta altura observamos outro ponto fundamental do afastamento entre Vianna e Alcàntara. Alcântara preocupava-se em abordar e admirava quem abordasse a temática dos mais pobres, menos abastados, e não concebia quadro social que não os contemplasse. Do mesmo modo, José de alcântara Machado em Vida e Morte do Bandeirante chamava atenção ao absurdo dos pressupostos de análise de Vianna, comparáveis ao de um geógrafo que só se interessasse pelo cume das montanhas. Como observa Stella Bresciani, nesses artigos Vianna “deduziria ser da antropologia diferencial em prática o procedimento confiável para estabelecer as características dos componentes raciais de todas as populações.” Alertava para o perigo da aglomeração de negros e mestiços e, embora admirasse a disciplina dos alemães, criticava a difícil dissolução deles no meio brasileiro, embora sua assimilação não fosse tão difícil quanto a do anglo saxão, do sírio e dos judeus. Para Vianna os portugueses seriam os mais assimiláveis, seguidos pelos italianos e espanhois. O maior problema seriam os japoneses, pela sua “insolubilidade”.191
Ao afirmar que São Paulo seria o lugar da superioridade étnica por excelência, Vianna corroborava com a visão de superioridade e liderança paulista. Como observa Ferreti,
o ponto central de todos os quatro artigos girava em torno da idéia de permanência dos caracteres eugênicos da elite paulista, capaz de liderar todo o processo de ocupação do território durante o período colonial, e manter-se “à frente dos principais acontecimentos históricos da nação.192
Etnologia das raças bárbaras, 25/12/26; O eugenismo das raças bárbaras, 6/1/27; Raças nacionais e raças históricas, 14/1/27. FERRETI, Op. Cit., p.281
189Idem, Ibidem.
190Idem, Ibidem. O trecho citado por Ferreti é de VIANNA, O. Seleção das Matrizes Étnicas. Correio Paulistano. São Paulo. 25 de agosto de 1926, p.4.
191BRESCIANI, 2005 Op. Cit., pp.280-281 192FERRETI,Op. Cit., p.282
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Para Oliveira Vianna, a superioridade paulista residia na sua composição racial. Opunha- se, por isso, ao discurso regionalista que atribuía tal superioridade ao caráter de independência e liberdade dos primeiros colonos, tributários de seu isolamento. Na edição de 1927 do livro O idealismo da Constituição, Vianna ironizava o recém criado Partido Democrático, que defendia a reafirmação de pressupostos democráticos do regime republicano. Vianna considerava a iniciativa como uma “agitação” característica do legado negativo do bandeirante. Como visto, enquanto Vianna criticava o excesso de liberalismo dos anos 1920, Prado apontava justamente a falta deste liberalismo em seus contemporâneos.