décadas precedentes ao início do programa de controle desta endemia. O Inquérito Nacional de Sorologia realizado entre 1978 e 1980, empregando o teste de Imunofluorescência Indireta (IFI) revelou uma taxa de infecção humana por T. cruzi de 7,98 % nas comunidades rurais da Regional de Teófilo Otoni, na qual o município de Açucena estava administrativamente ligado naquela época. A média para o estado de Minas Gerais neste inquérito foi 9,49 %, o que representou o maior índice do país (DIAS et al., 1985).
As primeiras ações de combate a vetores na região ocorreram na década de 60 coordenadas pelo DNERu. Em 1982 a SUCAM realizou um levantamento de vetores na região e constatou três espécies predominantes: (1) P. megistus com
34 27,0 % de prevalência, 1,9 % de positivos e 24,3 % no intradomicílio; (2) T. infestans com 14,0 % de prevalência, 14,1 % de positivos e 75,5 % no intradomicílio; (3) T.
sordida com 57,5 % de prevalência, 1,2 % de positivos e 10,7 % no intradomicílio
(DIAS et al., 1985).
Na década de 80 foram realizadas aplicações de inseticidas de ação residual em todas as áreas endêmicas do país. Esta atividade constituiu etapa fundamental para combater o vetor, culminando no início da década de 90, com uma redução acentuada de insetos domiciliados. A baixa densidade triatomínica requeria neste momento a implantação da VE por parte da FUNASA.
No caso do município de Açucena as atividades do PCDCh de forma sistematizada se deram na década de 80. O Levantamento de Triatomíneos (LT) realizado em 1983 investigou 238 localidades. Neste levantamento foram trabalhadas 94,6% (5407/5714) das unidades domiciliares (UD) identificadas no município. No período de 1985 a 1990 foram realizadas nove (9) avaliações vetoriais (AV), e essas ocorreram de forma parcial, onde apenas parte das localidades foi investigada a cada avaliação. A implantação da VE se efetivou em meados da década de 90, segundo informações fornecidas pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) com a implantação de 20 Postos de Informação de Triatomíneos (PIT), mais precisamente nos anos de 1995 e 1996, dado obtido do Arquivo Kardex sobre a DCh no Brasil. Porém as diretrizes do PCDCh não foram alcançadas, ficando as atividades do PCDCh limitadas a visitas esporádicas a domicílios de risco, ou ao atendimento de denúncias de presença de barbeiro no domicílio, e total inatividade dos PITs implantados.
O município de Açucena pertence à Gerência Regional de Saúde de Coronel Fabriciano que é responsável pela supervisão e avaliação da vigilância epidemiológica nos 35 municípios que a compõem (Figura 1). Em 2011 a GRS de Coronel Fabriciano foi elevada a categoria de Superintendência Regional de Saúde (SRS).
35 Figura 1 – Distribuição geográfica dos municípios integrantes das microrregiões de saúde de Ipatinga, Coronel Fabriciano e Caratinga que compõem a Gerência Regional de Saúde de Coronel Fabriciano.
Em consulta pessoal à GRS de Coronel Fabriciano e à SMS de Açucena foi constatado que, por motivo da descentralização das ações da saúde e da mudança da Regional de Teófilo Otoni para Coronel Fabriciano, a implantação da VE para DCh no município de Açucena foi iniciada, no ano de 1995, e descontinuada nos anos subsequentes. Consequentemente, após tantos anos sem atividades coordenadas do PCDCh os parâmetros epidemiológicos e sorológicos relativos à DCh são desconhecidos para o município de Açucena. Dados importantes sobre os programas de controle de vetores e os inquéritos sorológicos das décadas de 70, 80 e 90 sobre o município se perderam.
As análises vetoriais realizadas por técnicos da FUNASA da GRS de Coronel Fabriciano no ano de 2003 demonstraram ser o Triatoma vitticeps o potencial vetor no município. Foram analisados 34 insetos, destes somente 61,8 % se apresentavam em condições de exame e 38,1 % estavam positivos para o T. cruzi. Um porcentual de 82,4 % dos insetos foi capturado no intradomicílio.
36 Curiosamente, o T. vitticeps ainda que não constitua colônias intradomiciliares com muita frequência, é a espécie que apresenta as mais altas taxas de infecção natural pelo T. cruzi (SILVEIRA & REZENDE, 1994). Esta espécie de vetor apresenta ampla dispersão nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em algumas localidades tem sido encontrado colonizando o domicílio. A presença deste vetor infectado, tanto no habitat natural quanto no habitat doméstico, condiciona a sua inclusão nos programas de controle vetorial e VE (GONÇALVES et al., 1998).
1.5. Justificativa
Analisando a situação atual do município de Açucena e a nova realidade do sistema de saúde, encontramos um município despreparado para as novas responsabilidades resultantes da descentralização das ações em saúde.
Considerando que este município está inserido em área endêmica que no passado apresentava prevalência significativa da doença de Chagas (DCh), razão pela qual fez parte do Programa de Controle da Doença de Chagas (PCDCh) nas décadas de 70 e 80 que culminou com a implantação da vigilância epidemiológica (VE) na década de 90 e que esta VE por razões diversas não foi executada segundo as diretrizes do PCDCh até a presente data, este projeto pretende verificar se há indicadores da ocorrência de transmissão da DCh no município mediante a realização de um inquérito sorológico realizado em escolares e reavaliar a situação da DCh no município de Açucena com a finalidade de fornecer subsídios para a reestruturação da VE.
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2.1. Objetivo geral
Avaliar o Programa de Controle de Doença de Chagas no município de Açucena, Vale do Aço, Minas Gerais, e fornecer subsídios para o aprimoramento da vigilância epidemiológica.
2.2. Objetivos específicos
• Determinar a prevalência da infecção por Trypanosoma cruzi em escolares de cinco a 15 anos;
• Determinar quais são as espécies de triatomíneos capturados pelos moradores e encaminhados à Gerência Regional de Saúde;
• Determinar a taxa de infecção natural por Trypanosoma cruzi dentre os triatomíneos capturados na unidade domiciliar (UD);
• Determinar a prevalência da infecção por Trypanosoma cruzi em moradores das unidades domiciliares infestadas por triatomíneos infectados;
• Investigar aspectos epidemiológicos e conhecimento sobre a doença e vetores das famílias residentes em unidades domiciliares com presença de triatomíneos infectados;
• Fornecer subsídios para a reestruturação da vigilância epidemiológica no município de Açucena.
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3.1. Delineamento do Estudo
O trabalho foi realizado segundo o delineamento apresentado abaixo. DELINEAMENTO DO ESTUDO Avaliação do PCDCh no município de Açucena Inquérito Sorológico em Escolares de 5 a 15 anos Triagem Sorológica Elisa “in house” em
papel de filtro Positivos Zona Cinza 10% Negativos Sorologia Confirmatória
ELISA “in house”; HAI; IFI; ELISA-rec Negativos Positivos Negativos Dados Vetoriais Registros GRS Notificações de Triatomíneos Constatação de presença de triatomíneos infectados por
flagelado do tipo T. cruzi
Levantamento Epidemiológico Questionário epidemiológico Dados Secretaria Municipal de Saúde Sorologia de residentes em UD’s com presença de triatomíneos infectados
Elisa “in house”; HAI; IFI; Elisa-rec
Positivos Negativos Inconclusivos
Avaliação Parasitológica
PCR
Negativo Positivo
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3.2. Área de estudo
O presente estudo foi desenvolvido no município de Açucena (Figura 2), situado no leste do estado de Minas Gerais, região do Vale do Rio Doce, a cidade está a 720 metros de altitude ao nível do mar, a 285 Km da capital mineira Belo Horizonte (IBGE, 2011).
Figura 2 – Foto panorâmica da Sede do município de Açucena e Flor de Açucena
Sua extensão territorial é de 815,421 km2, compõe o município a área urbana conhecida como sede e os distritos de: Naque Nanuque, Felicina, Gama, Aramirim e os povoados e vilarejos de: Coqueiros, São Francisco, São Pedro, Penha de Aramirim, São Mateus, Brejaúba, Lagoa, Peroba, Pompeu, Quenta Sol, Mirante, Belo Monte, Água Preta, Córrego do Mato, Janúaria, Ruinha, Vaqueta (IBGE, 2011). A cidade apresenta limites territoriais com municípios de Gonzaga, Guanhães, Braúnas, Mesquita, Joanésia, Naque, Periquito, São Geraldo da Piedade, Governador Valadares e Belo Oriente (PREFEITURA MUNICIPAL DE AÇUCENA, 2011).
3.3. Município de Açucena
A primeira referência oficial que se conhece sobre o território do atual município de Açucena data-se do ano de 1824 quando por ordem de sua Majestade D. Pedro I, José Maciel da Costa criou, por meio de portaria, um Quartel de 80 (oitenta) praças no lugar denominado Nack Nanuck (Naque Nanuque), também conhecido como Naque Velho. Deste aldeamento principiou-se a colonização de
42 Travessão, hoje Açucena. O nome Travessão foi dado à localidade devido à existência de uma grande pedra que atravessava no embarcadouro do Rio Santo Antônio, um dos muitos córregos que banham a localidade (PREFEITURA MUNICIPAL DE AÇUCENA, 2011).
Em 15 de novembro de 1901, foi instalado o distrito de Travessão de Guanhães. O Sr. Edson de Miranda, filho do primeiro professor instalado na região, Sr. Antônio Alticiano de Miranda, vindo de Diamantina em 1910, conseguiu elevar o distrito à categoria de Vila de Travessão em 1º de janeiro de 1939. Em 31 de dezembro de 1943 esta vila foi elevada à categoria de município de Açucena (PREFEITURA MUNICIPAL DE AÇUCENA, 2011).
O município de Açucena está inserido no colar metropolitano do Vale do Aço, fora do aglomerado urbano de Minas Gerais, é o segundo maior município em território dos 35 integrantes da GRS de Coronel Fabriciano (Figura 3) (DATASUS, 2005).
Figura 3 – Região Metropolitana do Vale do Aço – Microrregião geográfica de Ipatinga. Destaque para o Município de Açucena. Fonte: IBGE, 2005.
A região do Vale do Aço, conhecida pelo elevado desenvolvimento industrial, possui uma área rural extensa e pouco desenvolvida onde ainda se pratica a
43 agricultura familiar de subsistência em propriedades rurais de pequeno porte. O rendimento nominal médio não ultrapassa o valor de R$ 235,00 reais (IBGE, 2002). Um fato marcante da região é a substituição de áreas de mata nativa e pastagens pela monocultura do eucalipto que abastece a indústria de celulose e as carvoarias da região.
A população total do município de Açucena é de 10.276 habitantes, sendo 4.805 habitantes da área urbana e 5.471 da área rural, o que corresponde a 46,8% e 53,4% da população, respectivamente (IBGE, 2010a).
A esfera rural é responsável por mais de 52% da absorção da mão de obra, o serviço público por cerca de 20% e o comércio por cerca de 1%. O restante está distribuído nos setores de prestação de serviços. A maior parte da população está na faixa entre 19-50 anos, sendo a figura masculina o principal mantenedor da família com um percentual de 50% da população local (PREFEITURA MUNICIPAL DE AÇUCENA, 2005a).
O município conta com 18 escolas, sendo 13 municipais e cinco estaduais, abrangendo os ensinos pré-escolar, fundamental e médio. No ano de 2003 efetivaram-se 2.990 matrículas, distribuídas da seguinte forma: 2.442 alunos no ensino fundamental, sendo 1.565 nas escolas estaduais e 877 nas escolas municipais; 485 alunos no ensino médio nas escolas estaduais e 63 alunos no ensino pré-escolar em escolas municipais (IBGE, 2003).
Os serviços públicos de saúde, no ano de 2005 contavam com uma equipe médica composta de quatro clínicos, um angiologista/cirurgião vascular, um ginecologista, um pediatra e um psiquiatra. Entre as principais doenças diagnosticadas relacionamos tuberculose, hanseníase, hipertensão, diabetes, asma, verminoses, problemas cardíacos, e micoses (PREFEITURA MUNICIPAL DE AÇUCENA, 2005b).
O município não possui hospital e conta com 12 estabelecimentos de saúde prestadores de serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS), sendo 11 públicos e um privado (IBGE, 2010b).
Açucena possui atualmente 3.818 domicílios recenseados, destes 3.058 são domicílios particulares ocupados, 754 domicílios particulares não ocupados e seis domicílios coletivos (três com moradores e três sem moradores). A média de moradores em domicílios particulares ocupados é de 3,36 moradores (IBGE, 2010b).
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