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Chapitre 1 – Prise en charge de l’orthographe française par ses scripteurs

2 Rapport à et pratiques de l’orthographe

2.3 Écritures numériques et orthographe

É um lugar-comum o dizer-se que o sistema actual de formação médica não satisfaz. Também não surpreende que essas deficiências sejam, há mui- to, detectadas por todos os participantes no processo – docentes, alunos, ins- tituições educacionais e profissionais da área médica. Mais cedo ou mais tarde, as lacunas e insuficiências da preparação médica vêm a reflectir-se na prática clínica, com consequências imprevisíveis mas, decerto, sempre nega- tivas para os doentes e para os médicos. Este tipo de problemas esteve na origem do 2o Congresso Mundial sobre Educação Médica, que decorreu na cidade escocesa de Edimburgo, em Agosto último.

Na realidade, a Formação Médica debate-se com três questões concre- tas, que requerem solução urgente, e que são:

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Aumento demográfico imparável de uma população com longevidade crescente e, portanto, mais dependente de cuidados de saúde;

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Crescimento geométrico do conhecimento científico, e avanço tecno- lógico progressivamente mais sofisticado e dispendioso;

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Modificações inevitáveis da profissão médica, em parte devido às mudanças do perfil dos que a escolheram como forma de vida e, por outro lado, resultante de uma população com necessidades acrescidas em cuidados de saúde e com maior capacidade de intervenção social.

Embora todas as questões estejam estreitamente interligadas, alguns dos condicionalismos apontados ultrapassam por completo as responsabilidades directivas do sistema da Formação Médica. Por exemplo o aumento da popu- lação, progressivamente mais envelhecida e mais afectada por doenças cró- nicas, recai no âmbito da solidariedade social, e portanto, das obrigações naturais do Estado. Paradoxalmente, porém, foram os progressos da Medici- na e a dedicação profissional dos seus agentes que estiveram na origem da explosão demográfica mais recente e das maiores exigências em cuidados de

Um Projecto em Educação Médica – Vol. I 165

saúde daí resultantes. A evolução será sempre esta, a menos que a Medicina não progrida (a nível da formação médica, da investigação científica aplica- da e do desenvolvimento tecnológico), ou suceda uma hecatombe.

Por seu lado, a melhoria do sistema de formação médica, assim como o aumento dos conhecimentos científicos e dos recursos tecnológicos, estão indissociavelmente ligados ao empenhamento e à qualidade das soluções políticas protagonizadas. Não haverá jamais formação médica de qualidade enquanto os docentes continuarem a exercer funções em acumulação para disporem de vencimentos condignos. O conhecimento científico e os recur- sos tecnológicos continuarão a ser maioritariamente importados enquanto os (seus) potenciais investigadores e «construtores» locais não dispuserem de condições de produção, pessoais e institucionais. Embora noutro contexto, não deixam de fazer sentido, aqui, as recomendações de Maquiavel ao seu Príncipe, a propósito das “(forças) mercenárias e auxiliares (que) não valem nada e são muito perigosas (na defesa do país)... pois que são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas e desleais”.

As condições presentes trazem-nos a recente tentativa de implantar um novo programa de currículo médico em Portugal. Os antecedentes são conhecidos e foram já revistos em número anterior deste Boletim. As razões para um novo sistema curricular são plausíveis nem que seja por se inserirem entre as preocupações conjunturais enunciadas no princípio deste editorial. O objectivo essencial que justifica uma reforma do currículo médico deverá ser apenas, e exclusivamente, uma “Melhor Formação Médica para uma Melhor Assistência Médica”.

Porém, a reforma do programa curricular de qualquer Faculdade de Medicina é um mecanismo complexo e cheio de escolhos. O Professor Har- den, uma das mais destacadas individualidades no relançamento da Educa- ção Médica como uma ciência com ditames precisos, a desempenhar por intervenientes capacitados, escreveu há alguns anos que “é mais fácil mudar um cemitério, do que alterar um currículo de medicina”.

A analogia parecerá exagerada apenas para quem nunca interveio numa alteração curricular ou está menos atento aos acontecimentos. Acima de tudo há uma realidade paradoxal a ultrapassar, e que consiste na indução de um processo que se pretende inovador num meio naturalmente conservador. Não surpreenderá que as irrupções que se verificam de tempos a tempos, repre- sentadas por tentativas de reforma curricular, suscitem naturais reflexos de cepticismo. Efectivamente, nas reformas curriculares como que persiste a convicção de que as instituições e responsáveis procuram aderir à ideia de ser “preciso mudar alguma coisa para manter a essência”.

As dúvidas anteriores têm perfeito cabimento quando se sabe que as reformas curriculares eficazes não dependem de (novas) designações e arran- jos (horários) das disciplinas ao longo dos anos do curso mas, essencialmen-

te, da filosofia do processo pedagógico e dos docentes que nele intervêm. No actual processo de reforma curricular em curso nas Faculdades de Medicina nacionais, nenhum daqueles condicionalismos está a ser considerado como factor indissociável do êxito pretendido. Em seu lugar, perfila-se uma grande urgência em desmantelar o Internato Geral e em começar a Especialização pós-graduada dois anos mais cedo, sem que isso signifique o acautelar de três factores fundamentais:

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Reinvestimento significativo na capacidade educacional e de investi- gação das Faculdades de Medicina, por via das verbas que serão pou- padas com a extinção do Internato Geral;

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Avaliação da eficácia do novo plano curricular no que se refere à capacidade dos novos licenciados em intervirem nos cuidados primá- rios (junto da população hospitalizada, em ambulatório e no domicí- lio), e da actualização profissional subsequente em áreas opcionais indispensáveis;

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Reavaliação do estatuto, condições de trabalho e remuneração dos docentes contratados pelas Faculdades de Medicina.

Que se saiba, em público ou em grupos mais restritos do Poder, nenhu- ma daquelas premissas, fulcrais para que a reforma curricular do curso de medicina atinja os objectivos que se desejariam, está contemplada ou em vias disso.

Descartes afirmou que a “dúvida é o começo da sabedoria”. Embora filosoficamente possa sentir-me encantado pelo elevado conceito em que possa ser tido o meu cepticismo, preferiria ter certezas sobre o bom caminho da presente reforma do currículo médico. Seria um sinal de que a Assistência Médica melhoraria decerto, em consequência de urna Formação Médica rea- lizada com eficiência.

A solução parece simples e depende quase só da lógica em juntar o pen- samento aos meios para se atingir os fins que todos, afinal, desejamos.

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