De um lado, havia uma corte que acreditava no direito divino de mandar, governar, distribuir favores e privilégios, com a desvantagem de não ter dinheiro; doutro, uma colônia que já era mais rica do que a metrópole, mas ainda não tinha educação, refinamento ou qualquer traço de nobreza. Três séculos após o Descobrimento, o Brasil era uma terra de oportunidades imensas, típica das novas fronteiras americanas, onde fortunas eram construídas do nada e da noite para o dia (Gomes 2007: 176).
A população colonial da cidade do Rio de Janeiro jamais poderia imaginar que, em 07 de março de 1808, viria a se tornar metropolitana, a sede do governo monárquico, pois, graças aos planos do imperador francês, a família real portuguesa se viu obrigada a trocar os frescos ares de Lisboa pelo calor úmido das terras brasileiras. Com base em Wilcken (2008: 88-89), verifica-se que a possibilidade de transferir a corte para o Brasil já tinha sido ventilada em outras ocasiões nos séculos anteriores, por seis vezes, mas somente foi concretizada na sétima tratativa e com a urgência imposta pelo cenário. A dependência financeira da metrópole era evidente, já que “entre metade e dois terços das receitas do Estado tinham origem no comércio que ligava o Brasil à Europa. Perder o Brasil seria perder quase tudo” e para, o então secretário de D. João VI, Rodrigo Coutinho, “o Portugal europeu não constituía ‘a melhor e a mais importante parte da monarquia’” (Ramos 2009: 441). A organização do território deixava a desejar, pois então “o Brasil era um amontoado de regiões mais ou menos autônomas, sem comércio ou qualquer outra forma de relacionamento, que tinham como ponto de referência apenas o idioma português e a Coroa portuguesa sediada em Lisboa” (Gomes 2007: 110). O interessante das ideias de trasladar a corte para a sua maior colônia, defendidas por alguns dos conselheiros dos reis e até por embaixadores de potências amigas, é o fato de o embrião já ter sido lançado há séculos e, não parecia mais tão absurdo. No raciocínio apresentado por Wilcken: “o Brasil era, há muito, apresentado por conselheiros do rei em Lisboa como a terra prometida – uma utopia para a qual estavam fadados um dia a mudar-se” (2008: 88). Gomes afirma que “em 1807 o príncipe regente não tinha escolha: ou fugia ou muito provavelmente seria preso e deposto por Napoleão Bonaparte, como acontecera alguns meses mais tarde com a monarquia espanhola” (2007: 23), – assim, “quando os monarcas desembarcaram nas Américas, apresentaram-se diante dos seus vassalos coloniais não como senhores de terras remotas, mas como exilados a pedir socorro” (Wilcken 2008: 18).
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Ainda com o foco do raciocínio voltado para a realidade estranha aos padrões da época, Wilcken descreve: “Depois de quase dois meses de mar e uma paragem em Salvador da Bahia, a corte chegou ao Rio de Janeiro, desembarcando numa cidade tropical desconhecida” (2008: 18). O estranhamento foi descrito de forma unânime nas obras estudadas. Todos os costumes da terra mãe viriam a fazer parte da nova sociedade e a presença dos ilustres moradores “trouxe grandes mudanças à cidade que se transformava e passava de posto avançado colonial a capital do império de um dia para o outro” (Wilcken 2008: 18-19). Alguns detalhes observados na sociedade brasileira, já organizada, causaram estranhamento aos cortesãos que “ao observarem a multidão, (...) ficaram espantados por verem mulheres afro-brasileiras com jóias e homens africanos de cartola, bengala e caixa de rapé” (Wilcken 2008: 110). As cartas se traduzem na melhor forma de averiguar os olhares de ambos os lados; quando dirigidas a Lisboa, muitas vezes “exprimiam o horror que sentiam pela nova vida (...) O clima, a insalubridade da cidade e o baixo nível dos seus moradores enchiam missivas”, descrevendo “um Novo Mundo, mas para pior (...) um mundo que esquecera da religião e o temor de Deus (...) terra de tamanha abominação e escândalo” (Wilcken 2008: 111).
O referido baixo nível intelectual e isolamento histórico dos moradores da colônia, segundo Gomes, “eram resultados de uma política deliberada do governo português, que tinha como objetivo manter o Brasil, uma joia extrativista e sem vontade própria, longe dos olhos e da cobiça dos estrangeiros” (2007: 114). Portugal havia proibido a abertura de escolas e faculdades no Brasil durante todo o período anterior, ficando a educação ao cargo das ordens religiosas, e as notícias e comunicados chegavam por navio, com alguns meses de atraso. Para Gomes, “apesar da política de isolamento e controle por parte do governo português, a colônia ainda era mais dinâmica e criativa do que a decadente e estagnada metrópole”, e “entre 1772 e 1800, um total de 527 brasileiros se formou em Coimbra, então a mais respeitada universidade do império português e um centro de formação da elite intelectual que, depois de D. João VI, constituiria (...) ‘a classe dirigente brasileira’” (Gomes 2007: 121). Um relato curioso a respeito da economia local chamou a atenção sobre o “atraso” econômico da colônia até a viragem; dizia que “ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1808, o inglês John Luccock identificou de imediato um problema: a falta de moeda corrente. Não havia dinheiro circulante no Brasil. Sob o domínio português, a colônia vivia basicamente de escambo” (Gomes 2007: 119). A cidade era rica, tinha bacharéis de Coimbra, sociedade formada suis
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generis, belos palacetes nos morros e belas praias desertas, mas o domínio português no
acesso à informação e educação em todos os níveis travou a evolução.
Para Wilcken, “o objetivo da corte no Rio de Janeiro de civilizar o seu antigo porto colonial sobrepunha-se a quaisquer ressentimentos residuais” (2008: 201) em relação aos franceses. Isso ficou provado porque D. João VI – grande amante das belas artes – trouxe a missão artística francesa ao Brasil que foi responsável por grande parte das informações históricas referentes a esse período. Por exemplo, as gravuras e pinturas de Debret são ricas e retratam tanto as dádivas naturais quanto os costumes da época. Na tentativa de metropolizar o Rio de Janeiro, foram construídos, por ordem de D. João VI, muitos prédios para instalação da família e sua corte, além do teatro real, da biblioteca real, hoje Biblioteca Nacional, e do Jardim Botânico, atualmente um parque de passeio, visitação e pesquisas. Com a necessidade de fazer com que se pudesse governar na antiga colônia, a máquina do Estado teve que ser reconstruída nos trópicos, o que ocasionou o que Wilcken chamou de “duplicação da burocracia de Lisboa” com a “recriação de uma vida de corte rica em pompa e circunstância”, afirmando que a concretização do objetivo se deu por meio de “um longo processo” (2008: 202).
Para financiar o processo civilizatório da colônia e a organização do Estado na nova metrópole, foi necessário contar com a benevolência da chamada “nova nobreza”, pois “parte dela tornou-se acionista do Banco do Brasil (...) outra assinou as inúmeras ‘listas de subscrição voluntária’, que circularam pelo Rio de Janeiro logo após a chegada da corte” (Gomes 2007: 178). Segundo Malerba, metade dos doadores da primeira lista era de traficantes de escravos (Malerba apud Gomes 2007: 85). A corrupção, que também já acontecia na metrópole europeia, apareceu na antiga colônia, pois “independentemente dos bordões, das togas e das cabeleiras, com a cobertura de cerimónias formais e éditos pronunciados em linguagem cortês, o roubo em nome da coroa tornou-se prática generalizada” (Wilcken 2008: 123). As leis existiam, mas, se a corte ou algum importante beneficiário precisava de algo, mudavam-se as leis e assim eram resolvidas muitas questões, transformando as exceções em regra. Além das listas e da corrupção, como uma forma a mais de arrecadação de verba para o erário real, D. João VI “instituiu também um sistema de honrarias, que deu origem a uma nobreza brasileira. Concedeu os títulos de marquês, conde, barão e cavaleiro a proprietários de plantações, negreiros e mercadores ricos, consolidando assim sua popularidade” (Wilken 2008: 120). Para Gomes, “a nova nobreza criada por D.
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João no Brasil tinha dinheiro, títulos e poder, mas nenhum traço de bom gosto ou sofisticação” (2007: 179).
Depois da chegada da família real e sua corte à colônia, “com Lisboa ocupada por um tempo que terá parecido indefinido, o príncipe regente não teve escolha senão transformar o Brasil num Estado autónomo, económica e politicamente” (Ramos 2009: 447). Deu-se assim, a primeira mudança, consequência da autonomia, a abertura dos portos às nações amigas, que trouxe a evolução e o crescimento em termos comerciais: “os brasileiros passaram a poder comerciar diretamente com o estrangeiro e a dedicar-se a indústrias até aí reservadas para Portugal. O Rio de Janeiro adquiriu as instituições próprias da capital de uma monarquia” (Ramos 2009: 447), tornando-se “um alvo natural dos interesses dessa florescente potência mundial” – a Inglaterra (Gomes 2007: 185). A organização do comércio aconteceu automaticamente e comerciantes de dois países europeus com tradição no ramo estabeleceram-se, aumentando exponencialmente o número de casas de artigos para senhores – comerciantes ingleses, e senhoras – comerciantes franceses. Em relação a estes últimos, Wilcken aponta que “foi o início daquilo que seria uma duradoura influência nos gostos, costumes e vida intelectual do Brasil” (2008: 201). Os novos mercadores demoraram um pouco a entender que muitos dos produtos trazidos para o Brasil não teriam mercado para venda – pelo menos no Rio de Janeiro, como tecidos de lã e patins para gelo. Escreveu um comerciante ao fornecedor inglês: “vivemos num clima alegre, com pessoas que gostam de rir, não nos mandem castanhos e cinzentos – não há cá Quakers. Não queremos cores tristes próprias para Novembro em Inglaterra” (Wilcken 2008: 155). Os ingleses gozavam de muitas mordomias concedidas pelo rei, que dependia da frota e exército para a segurança desde a época de Lisboa7.
A expansão da cidade se deu de forma acelerada e com a “decisão tácita da família real permanecer na cidade, foram instaladas mais embaixadas e os estrangeiros afluíram em grande número (...) criando novas necessidades, trazendo mercadores e artigos de luxo da Europa do pós-guerra”, após a derrota de Napoleão e a libertação de Portugal. O Rio de Janeiro crescia tanto espacial quanto em termos de população, e “viajantes ricos passavam semanas, meses e por vezes anos a saborear os encantos de uma cidade que se tornava rapidamente numa das mais famosas atrações do Novo Mundo” (Wilcken 2008: 200). Ainda conforme o mesmo autor, “a súbita chegada de milhares de portugueses representava um
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7 A amizade entre os dois reinos se baseia numa aliança antiga que remonta a 1373 e que foi reforçada com o
Tratado de Windsor em 1386, que serve de alicerce às relações bilaterais desde então. O casamento de D. Filipa de Lencastre, filha do Duque de Lencastre, com D. João I, em 1387, cimentou a aliança.
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substancial aumento da população do Rio (talvez de sessenta para setenta mil de um dia para o outro) e teve um impacto imediato nos residentes” (Wilcken 2008: 115). Com o final da guerra, a situação ainda continuou “a piorar” e “navios e mais navios despejavam milhares de portugueses que fugiam à miséria e às incertezas do Portugal” (Wilcken 2008: 201) traumatizado.
Um exemplo real e documentado encontrado tanto nos romances históricos como nos livros historiográficos, para ilustrar a adaptação do metropolitano aos costumes híbridos da colônia é apresentado a seguir. Segundo a descrição de Marrocos8 (em cartas enviadas ao pai que havia ficado em Lisboa), “o Brasil era uma ‘terra de selvagens’ e as suas gentes ‘imorais, indigentes, hedonísticas, vaidosas e arrogantes”, e o autor “sentia-se ameaçado, inseguro quanto às suas capacidades para resistir às tentações que o Rio de Janeiro lançava aos seus pés” (Marrocos apud Wilcken 2008: 175). O autor continua a comentar: “muitas mulheres portuguesas do Rio já mereciam a má reputação que as brasileiras tinham em Lisboa”– provavelmente se referindo aos relacionamentos extraconjugais e aos hábitos de vestimenta (pouca e leve por causa do calor) e comportamento (mais extrovertido e sensual) que eram também adotados (Marrocos apud Wilcken 2008: 175). clara É possível verificar-se a agonia do responsável pela real biblioteca que se encontra numa cidade que é, em muitos aspectos, o oposto da antiga metrópole, e onde os valores cristãos da época, que regiam a conduta das monarquias europeias, não faziam sentido para a maioria da população. Ao mesmo tempo em que o estranhamento era notadamente visível, alguns dos hábitos eram incorporados à rotina, como, por exemplo, ter escravos para executar todas as atividades Marrocos, por exemplo, frisa a posse de um escravo pessoal que “tem o curioso hábito de ficar de pé a olhar pra mim, enquanto durmo a sesta, para enxotar as moscas de forma a não me acordarem” (Wilcken 2008: 175). Existe uma dualidade em relação aos escravos, pois eram descritos como sujos, violentos, rebeldes, selvagens, mas tinham muita serventia – já que faziam todas as tarefas que seu dono necessitava. Pode-se inferir que a função do escravo na sociedade brasileira era a mesma das damas, pajens e cortesãs na corte em Lisboa – a de servir a seus amos (família real) de forma a facilitar a rotina.
Com base nos relatos estudados, a primeira reação era o estranhamento e a repulsa pelo clima, pela cultura, pelo comportamento, pela (des)organização da cidade, pelas regras da sociedade – na realidade, a falta delas. Em um segundo momento, vinha a adaptação ao Rio e ao Brasil, quando enxergavam as belezas (em vários aspectos) e as possibilidades que se
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abriam na nova metrópole onde praticamente tudo – de acordo com a visão dos portugueses – ainda estava por ser feito. Era a terra das oportunidades, e todos os pontos negativos levantados eram transformados em pontos a melhorar e daí advinham as já mencionadas oportunidades para os metropolitanos com maior grau de estudo que aceitaram o desafio de cruzar o Atlântico acompanhando a real família.
Para estes, a vida no exílio não se fazia tão penosa quanto para os cortesãos, ou pelo menos não parecia ser – exceto pelos relatos sobre Carlota Joaquina. Wilcken afirma que “os Braganças tornavam-se cada vez mais brasileiros, a partir dos mais novos para os mais velhos” (2008: 194), pois os meninos andavam soltos a brincar às corridas de carruagens ou guerras, tendo os escravinhos como seus comandados. D. João VI mantinha a sua rotina separado da esposa, vivendo em São Cristóvão, com três de seus filhos, indo às missas, às peças de teatro, às cerimônias de beija-mão e desfrutando de longos almoços. Ainda em termos de pontos de vista sobre como a Corte era vista pelos brasileiros, pode-se destacar que, depois de alguns “incidentes comportamentais” do príncipe regente, “o casal real mostrava-se como simples mortais e, para os cariocas, devotadamente católicos, moralmente suspeitos” (Wilcken 2008: 197).
A imperatriz D. Leopoldina, ainda em solo europeu, tinha uma ilusão que se confirmou quando acreditou que, “mesmo os selvagens do Brasil eram superiores aos europeus da sua época, porque eram ‘filhos da natureza... ainda não corrompidos pelo luxo e suas terríveis consequências...espero encontrar mais honradez e menos corrupção neste Novo Mundo’” (Wilcken 2008: 235). Pode-se considerar o destino da jovem sonhadora diametralmente oposto ao seu pensamento acima descrito, pois, com base nos relatos estudados, viveu um breve idílio e, posteriormente, sofreu com o comportamento do marido, o clima, os conchavos da corte e a deslealdade dos mais próximos. Os únicos amigos que teve foram separados dela de forma a deixá-la numa sensação de abandono total, sem contato com pessoas do seu nível intelecto-cultural; em resumo: isolada no paraíso.
Conforme a descrição que Gomes (2007) faz da cerimônia de beija-mão, fica evidente a trasladação de muitos costumes antes perpetuados na corte portuguesa, na qual era permitida a participação de todo e qualquer vassalo que desejasse ter um contato pessoal com o príncipe regente, solicitando favores ou fazendo reclamações. Era o único momento no qual todas as pessoas de todas as classes eram “iguais”: “Esse ritual, muito antigo, já tinha sido abolido havia bastante tempo pelas demais cortes europeias, mas ainda era praticado em Portugal e pelos vice-reis no Brasil colônia” (Gomes 2007: 180).
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Em termos culturais e artísticos, além da já referida missão francesa e da austríaca, que veio junto com Leopoldina, “longe da capela real e do recém-construído teatro estavam a nascerem formas diferentes de música que nada deviam às árias e polifonias europeias” (Wilcken 2008: 204), eram os cantos dos escravos que traziam a voz dos desterrados africanos para “engrossar o caldo” da cultura local. A origem do pensamento que por muito tempo caracterizou a forma dos brasileiros perceberem os produtos originários do próprio país pode ter sido a atitude de D. João VI em relação aos profissionais, uma vez que “os artistas, arquitectos e músicos locais eram utilizados, mas depois passados por europeus, contratados para ocupar o seu lugar a troco de salários elevados”. Como exemplo, pode-se citar a contratação da missão artística francesa e a chegada do músico português Marcos Portugal (Wilcken 2008: 224).
Em relação aos costumes da sociedade local, refere-se o que mais é relatado nas fontes pesquisadas como causador de estranhamento dentre muitos viajantes e cortesãos, mas adotado pelo príncipe D. Pedro, um hábito herdado dos indígenas, o da limpeza corporal regular ou banho: “Apesar de certos hábitos que aproximam da vida selvagem os brasileiros da classe baixa, qualquer que seja a sua raça, é para notar que todos eles são notavelmente cuidadosos com a limpeza do corpo, escreveu o inglês Henry Koster, que morou no Recife entre 1809 e 1820” (Gomes 2007: 153). Koster relatou ainda que “o mais pobre não sai de casa ou da cabana sem se lavar e, se possuem duas camisas, a que usam junto à pele está limpa” (Koster apud Wilcken 2008: 205), enquanto que, para os portugueses, tomar banho era uma “prática de classes mais baixas”, já os senhores não precisavam, visto que não “tocavam em nada sujo” (Koster apud Wilcken 2008: 205). A sociedade colonial vivia e existia somente com base no trabalho escravo, e a família real adotou e acostumou-se com esta prática cultural colonial.
Na revolta pernambucana de 1817, “um morador de classe alta (...) escreveu horrorizado a um amigo que ‘mestiços, mulatos e crioulos tornaram-se tão ousados que declararam todos os homens iguais e gabam-se de que só casarão com mulheres brancas das melhores que houver” (Wilcken 2008: 220). As negras serviam de amantes para os brancos ricos, mas as brancas não serviam para esposas dos negros, crioulos e mestiços – uma grande ironia sociocultural que persiste, um pouco mais enfraquecida, até aos dias de hoje.
Na relação entre Portugal e Brasil, o primeiro funcionava como um “entreposto comercial” para as riquezas geradas pelas colônias, uma vez que “de lá, o ouro, a madeira e os produtos agrícolas seguiam direto para a Inglaterra (...) e os diamantes tinham como destino
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Amsterdã e Antuérpia” (Gomes 2007: 55). A visão dos governantes, então, “baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infraestrutura, educação ou melhoria de qualquer espécie” (Gomes 2007:58) e, ironicamente, a corte precisou se instalar no Brasil – terra “aculturada” para os moldes de então por causa da política adotada durante tantos séculos de domínio. Lembra-se que “o Brasil já existia culturalmente antes da chegada da corte em 1808 e uma sociedade ‘tropicalizada’ tinha surgido, como embrião do Brasil moderno, com sua mistura eclética de influências africanas, europeias e indígenas” (Wilcken 2008: 205). O papel de metrópole “emprestado” à colônia foi introjetado pela corte e pela sociedade local; os costumes foram alterados, mas as discrepâncias sociais ali estabelecidas são heranças que ainda sobrevivem.