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Écarts d’acquisition

Dans le document RAPPORT FINANCIER 2012 / 2013 (Page 51-54)

d’actions

IFRS 13 – Juste valeur

E. NOTES ET TABLEAUX COMPLÉMENTAIRES (EN MILLIERS D’EUROS)

1. Écarts d’acquisition

A questão do sensacionalismo e dos eventuais excessos e exageros dos jornalistas para atrair atenção para o noticiário científico é uma preocupação em várias áreas, não apenas na astronomia e astronáutica (NIELSEN et al, 2006). Recentemente, pesquisadores da área biomédica têm discutido cada vez mais amplamente esse tema, com destaque para notícias

que anunciam curas ou terapias para doenças e que têm alto potencial de gerar atenção no público (PETERS, 2013).

Entre os nove cientistas entrevistados para este trabalho, oito afirmaram que existe algum grau de sensacionalismo entre os repórteres de ciência. Para três deles, essa é uma questão bastante presente no jornalismo científico brasileiro.

Apesar dessa percepção de tendência ao exagero, os cientistas fizeram ponderações a respeito da necessidade de usar artifícios que atraiam a atenção da audiência para aquilo que o jornalista está informando, e a maioria minimizou os efeitos desse tipo de comportamento dos jornalistas.

A astrônoma do IAG-USP Beatriz Barbuy afirmou que esse “gosto por sangue” da imprensa é sua principal crítica em relação à mídia: “Essa é uma reclamação que eu tenho dos jornalistas, que adoram uma brigam”. Segundo ela, o noticiário em geral dá muito espaço para os problemas, em detrimento de relatos do que vai bem e do que acontece de positivo na ciência nacional.

José Monserrat Filho, da AEB, diz que o sensacionalismo se intensificou nos últimos anos na imprensa brasileira, que hoje busca uma espetacularização para aumentar sua audiência.

Obviamente que a imprensa hoje, em geral, ela joga, ela tem necessidade comercial de conquistar leitor. Então a tendência é da imprensa show. Você nota isso em todos os jornais, tentando puxar pela emoção. As manchetes, o tipo de notícia, eles jogam naquilo que desperta mais a curiosidade do público em termos de emoção. Eles querem vender jornal, eles querem Ibope. Isso é notório, isso é visível. No passado a coisa não era assim. No passado, não sei se era melhor, mas certamente não tinha esse viés de imprensa estritamente comercial. A notícia que não for interessante do ponto de vista de chamar a a atenção, ela não é notícia.

Do IAG-USP, o professor João Steiner afirma que em alguns casos é possível notar que os jornalistas querem mesmo ver uma polêmica. No entanto, segundo ele, é preciso ter em mente que a ciência vive do espírito crítico e que, por isso mesmo, é preciso haver críticas e questionamentos por parte dos cientistas.

Existem outras situações onde você vê que tem uma certa vontade de ver sangue nas histórias. Muitas vezes pelo lado institucional, a gente vê com alguma frequência matérias que têm um lado negativo injusto com a USP. Eu não estou dizendo que a USP é à prova de crítica e que os cientistas são à prova de crítica, muito pelo contrário. Eu acho que precisa sempre ter um espírito crítico, e a ciência vive disso. E a ciência tem de viver com esse espírito crítico porque a própria ciência vive com esse espírito crítico.

Segundo Steiner, em muitos casos a polêmica tem uma razão de ser e não deve necessariamente ser sempre interpretada como algo ruim, embora sejam precisos alguns cuidados na forma com que isso é apresentado.

A polêmica não deve necessariamente demonizada, porque às vezes há razão para isso. E a opinião pública tem direito a ver pontos de vistas distintos que existem. É claro que tem uma forma de ser, o fundamental é o respeito à opinião pública. e também o profissionalismo dos dois lados. Têm de ser mantidos certos cuidados, eu acho que a polêmica não é necessariamente uma coisa ruim.

Josina Nascimento, do Observatório Nacional, afirma que compreende a necessidade de usar artifícios que tornem as notícias mais atraentes, e que os jornalistas não podem ser responsabilizados por desejarem atingir esse objetivo. O problema, segundo ela, acontece quando, na tentativa de chamar a atenção, acaba-se dizendo algo que não corresponde à realidade.

Eu não vou culpar o jornalista, porque ele quer que o público leia a matéria dele. Ai às vezes ele tem de começar com uma coisa meio sensacionalista mesmo, se não o pessoal não lê. E na parte científica a gente fica meio preocupado. Que aquilo até seja sensacionalista, mas que não fuja a nenhuma verdade. Porque às vezes o jornalista quer… Ele pergunta “mas eu não posso mesmo botar isso aqui?!”. Eu digo “não, mas vamos estudar uma forma de dizer bem chamativa, mas sem que você coloque isso que não faz sentido”

O presidente da Agência Espacial Brasileira, José Raimundo Braga Coelho, também afirma que a polêmica faz parte da atividade jornalística, mas ressalta que isso deve ser feito de uma forma coerente e responsável e que, sobretudo, não fuja à verdade. Para ele, muitas vezes matérias sem esse tipo de artifício acabam não atraindo a atenção do público.

Enquanto você consegue polemizar de forma coerente, eu acho que você chama a atenção da população para a matéria. Eu vejo que, se eu fosse dessa áree, eu tentaria de vez em quando polemizar para chamar a atenção da população. Se a matéria é sempre muito morna, a população às vezes talvez não se aperceba da importância. Então às vezes é bom que ela seja um pouco mais quente. Sem necessariamente se desviar muito da verdade.

Apesar disso, ele afirma que, no tempo em que está à frente da AEB —desde maio de 2012—, ele tem tentado manter a agência o mais distante o possível das polêmicas, tentando não ampliar ruídos e mantendo uma relação constante e próxima com os jornalistas.

Quando se trata de a agência espacial estar envolvida em um assunto muito polêmico, a gente tenta, digamos, se expor o mínimo possível. Então, durante esses três anos que eu estou aqui, a agência espacial não participou e não serviu como instrumento para ampliar ruídos. A gente tem sido cauteloso, temos um bom relacionamento com o nosso pessoal da comunicação, que tem nos ajudado muito nisso, de forma que nunca provocamos e nem participamos da criação de grandes ruídos em momentos de dificuldade com a imprensa. E é de se crer que aqui no Brasil, principalmente, em qualquer atividade haja momentos de tumulto, as coisas têm alguns momentos de umas certas crises. E nesses momentos a gente fica mais calmo e conversa com calma com os jornalistas, de forma a não ampliar os ruídos. A ideia é que, quando você tem uma dificuldade, deve tentar resolver da melhor forma possível, e não o contrário. Criar ruídos dificulta ainda mais a solução dos problemas.

Diretor do INPE, Leonel Perondi afirma que a culpa da polemização e de uma certa visão exagerada e negativa não é necessariamente do jornalista, mas de toda uma cultura de menosprezo às próprias realizações que existe no Brasil.

Eu não colocaria a culpa no jornalista. Isso é uma questão cultural, é uma questão que tem a ver também com a comunicação. O Brasil hoje está mais, digamos, semelhante. Se você olhar, são vários elementos da nossa política que são mais ou menos do que se divulga no Brasil, eles têm esses componentes.

Perondi usou como exemplo um fato recente da história do instituto. Em dezembro de 2013, uma falha num veículo lançador chinês nos últimos 11 segundos do lançamento impediu que o satélite CBERS-3, parceria sino-brasileira para monitoramento da Amazônia— entrasse em órbita. Na ocasião, a destruição do dispositivo teve grande repercussão na mídia. Após o episódio, em um tempo recorde, brasileiros e chineses conseguiram unir esforços e lançar um “gêmeo” do satélite perdido, mas o sucesso dessa missão aparentemente teve bem menos destaque.

Vamos comparar os dois eventos [lançamentos dos satélites]. Em 2013 nós terminamos um dos modelos do satélite. Em 2013, nós tínhamos dois modelos do satélite. Nós terminamos um dos modelos e houve uma falha na injeção em órbita, perdemos o satélite. Aí trabalhamos muito em 2014, porque a meta, era ter um sistema em órbita produzindo imagens aqui do planeta. Nós perdemos um modelo e o que que se faz? Trabalhamos para montar o segundo modelo, né?

Então nós aí, em um tempo recorde, nós adiantamos um planejamento. E nós tivemos de trabalhar muito em um ano para terminar o segundo modelo e lançá-lo em 2014. Tivemos pleno êxito. O satélite está em órbita e funcionando, e isso não se fala. Teve muito mais repercussão a perda do satélite em 2013 do que o sucesso de um satélite em 2014. Então existe uma tendência no Brasil, e a gente sente muito isso, de amplificar as notícias e de repercutir o que deu problema, as que geram drama, do que as que geram êxito. Acho que é um pouco da nossa cultura, talvez, que promova isso, que exalte mais, que valorize mais a notícia sobre o drama do que sobre o êxito.

Oswaldo Miranda, também do INPE, usou o mesmo exemplo da visibilidade dos dois episódios com os satélites sino-brasileiros para afirmar que há uma questão cultural: “Eu acho que o brasileiro gosta de viver naquele limite de se auto depreciar”.

Foi uma falha [do lançamento CBERS-3], como muitas que acontecem com muitos programas espaciais em diversos países. Eu coloquei isso para vários jornalistas que me entrevistaram na ocasião, eu estava falando como vice-diretor da instituição: é uma falha que infelizmente pode acontecer. Mas ele repetiam, enchendo a boca depois ao vivo, que fracassou o lançamento. Fracasso é uma palavra pesada. Eu acho que não é um fracasso. O que que é um fracasso? Tem que definir muito bem. O veículo lançador falhou na ejeção, no último estágio, teve um problema nos 11 segundos finais. É uma corrida de 100 metros esses 11 segundos no dia a dia do ser humano. Mas ali esses 11 segundos mataram. Não deu velocidade de ejeção para o satélite. Mas o satélite abriu os painéis solares, ele se autotestou, fez toda a questão que estava pré-programado, mandou dados de telemetria, testou todos os sistemas. Vimos que estava tudo ok nele. Então a gente fica chateado, porque colocar uma fala dessas, no nível de fracasso, é complicado.

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