No primeiro momento do percurso metodológico, desenvolveu-se o grupo focal, tendo como objetivo coletar informações a partir de uma discussão coletiva sobre as questões de gênero na DER de forma interativa. Durante as discussões, as pessoas no grupo tiveram maior possibilidade de diluir defesas, de expressar conflitos e afinidades. O recurso do grupo focal entra de forma consistente na prática da apreensão das “realidades múltiplas”; ao recusar a possibilidade de uma realidade unívoca e construída para sempre, esse recurso exercita a pluralidade dialógica já na coleta de informações. Este dispositivo de pesquisa grupal é pertinente na área de educação, pois a prática pedagógica se realiza como prática grupal e coletivamente argumentada em todas as suas perspectivas (MACEDO, 2006, p.117).
A reunião foi na sala dos professores/as, mediada pelo coordenador da área de ensino religioso do Colégio Antonio Vieira, escola de grande porte em Salvador, cujo no corpo docente há professores/as da área de ensino religioso: 11 trabalham com a disciplina e 9 fazem parte da pastoral com formação teológica para trabalhar os momentos celebrativos e de confirmação da fé. O departamento de ensino religioso tem reunião semanal com os
professores/as para analisar o tipo de material que está sendo trabalhado com o coordenador do grupo, sendo também um espaço para reflexão e meditação de temas diversos.
Na reunião do grupo focal, houve a apresentação e comentário da pesquisa, salientando da relevância de compreender as relações de gênero na DER e da postura de ouvi- los, sem a interferência da pesquisadora. Este momento não foi gravado, mas transcrito a partir das anotações. No geral, o grupo estava formado por quatro professoras e seis professores, mas a participação dos professores foi maior, se posicionando com uma maior liberdade. Importante registrar que duas professoras estavam há pouco tempo na escola, justificando uma maior timidez do grupo.
A partir da frase de Simone de Beauvoir - “ninguém nasce mulher; torna-se,” - inicia- se a discussão. O primeiro professor, ao se deparar com a idéia de “tornar-se mulher”, reflete a realidade da homossexualidade e comenta a frase nos seguintes termos: “Quanto à homossexualidade, não incentivo, mas respeito. Se o tornar-se é um campo do possível, assumo a liberdade de respeitar o posicionamento”. O segundo professor faz comentários em relação à homossexualidade, mas chama a atenção das dificuldades. Acrescenta, também, que o envolvimento afetivo entre pessoas do mesmo sexo não faz parte da proposta do Reino de Deus. “Fico com o texto bíblico que não propõe esta opção como família”, conclui o professor.
A primeira professora a comentar o tema diz: “O papel da mulher e do homem é de estar partilhando.” O terceiro professor diz: “Passo certo rigor de seguir as normas, mas busco um bom senso para respeitar opções.” Quarto professor: “Somos iguais na dignidade, aceito as diferenças como positivas. Tudo o que vem denegrir a imagem das mulheres tem que ser eliminado”. Quinto professor: “Quando se traz a mulher na Bíblia se trabalha a partir de uma jovem madura, que se lança a um desafio público. O lado de alguém que enfrenta determinada realidade, mostrando sua força sua opinião. Tento quebrar o papel tradicional para tirar pesos da mulher. Irmã Dulce, como outras, foi uma mulher de atitudes”. Segunda professora: “O grande desafio é a busca do equilíbrio, trabalhar a igualdade na dignidade.” Terceira professora: “Homem e mulher se atraem e são complementares, as divisões de tarefas devem estar para além dos sexos.”
Percebe-se que a reflexão dos/as professores/as está no limite de se trabalhar a mulher enquanto indivíduo que quebra barreiras, vence limites postos pela sociedade, avança em uma maior igualdade com os homens, sem perder a essência de ser meiga, delicada e forte. Deste
modo, não se compreende que as diferenças são construções sociais que se apresentam em diferentes momentos históricos permeadas por relações de poder. A postura frente à homossexualidade é de tolerância, diante de um padrão normativo entendido como vontade de Deus, com respaldo bíblico. Desconstruir tais posicionamentos implicaria uma discussão de gênero em uma perspectiva pós-moderna, ressaltando como o corpo também é uma construção cultural e que não existe um humano dado, mas sempre em diálogo com sua realidade, que ressignifica os padrões culturais postos na sociedade. A heterossexualidade compulsória, pressuposta por uma visão binária dos gêneros, bloqueia a potencialidade dos seres humanos para viverem assumindo suas possíveis identidades de gênero.
Em alguns momentos, foi questionada a visão essencialista das diferenças: se o homem meigo era menos homem, ou se não era possível ser homem e ser meigo, delicado. O grupo riu, mas o professor que iniciou a discussão do grupo focal salientou: “Certos aspectos são da minha essência, ser macho. A psicologia do homem e da mulher é diferente.” Interessante observar que o mesmo professor comentou que faz um curso sobre Sartre há três anos, mas a visão essencialista que dá base a toda sua afirmação não é alterada pelas discussões de mundo. Em Sartre, o grande avanço está na relação da liberdade para as opções feitas na vida, diante de uma normatividade dada pelo próprio corpo, pela natureza. No grupo, havia uma professora formada em História e que teve a disciplina de gênero em sua experiência curricular. Com apenas três meses ensinando na escola, destacou que tarefas domésticas não devem estar associadas ao feminino, mas não fez comentários em relação à homossexualidade. Assim, percebe-se que as discussões de se pensar o ser humano para além dos posicionamentos tradicionais estão embasadas nos limites instituídos.