Sem dúvida, os teóricos da comunicação e da sensibilidade humana compreenderam o papel das mídias em nosso tempo. Mais do que se apresentarem em tecnologias cada vez mais surpreendentes, em discursos mais sedutores e em acordo com as disposições pós-modernas do tempo e do espaço, as mídias, em especial o audiovisual, contribuem de forma decisiva para a construção da imagem do mundo. No entanto essa imagem não se resume apenas àquilo que se “vê com os olhos”, mas na forma como o conjunto de nossos sentidos apreendem e agem/reagem diante dos inúmeros estímulos que o mundo nos proporciona. O audiovisual, como resultado poderoso e influente das mídias, alcança seu êxito por dar conta, sobretudo, de nosso sentido mais importante, a saber, a visão. Por essa razão:
os meios audiovisuais, com efeito, podem contribuir de forma eficaz para potencializar uma vasta obra de informação, de ilustração, de cultura entre os homens. [...] a escola deve servir de veículo para tal conhecimento, uma vez que a sua tarefa é a de promover, por meio do acordo do homem com seu tempo, uma medida maior de
23 No original: “une image nous touche immédiatement, bien en deçà de la representation : sur le plan
de l‟intuition, de la perception. À ce niveau, l‟image est toujours une surprise absolue. Do moins, elle devrait l‟être”.
humanidade e, em consequência, de civilização. E com maior eficácia conseguirá esse objetivo se tiver em conta que sua atividade se inscreve hoje em um mundo que dispõe entre seus signos distintivos da imagem em movimento. Será assim possível um ensino mais fácil e agradável, que a amplitude de matérias a tratar ameaça tornar cada vez mais árduo e penoso. Em 1900, Charles Pathé já havia anunciado: o cinema será o teatro, o jornal e a escola de amanhã. Está demonstrado que o emprego inteligente dos meios audiovisuais, por si só ou em associação com outros sistemas de ensino, facilita a instrução e torna mais duradoura a recordação das coisas apreendidas. (ROSSELLINI, 2001, p.145).
Esse preâmbulo nos auxilia ao mesmo tempo, a direcionar e compreender os resultados obtidos com os questionários em relação à questão sobre a utilização do audiovisual na sala de aula. Constatamos que existe uma sensibilidade distinta entre os docentes que se utilizam do audiovisual durante seu trabalho, em relação àqueles que não utilizam tal recurso. Para tanto, separamos os questionários em dois grupos. O grupo de professores que utilizam o audiovisual em suas aulas e o grupo que não utiliza, sendo seis professores de cada grupo.
Quando questionados se já sofreram ou testemunharam alguma violência na escola, oito professores responderam que sim, e quatro assinalaram que não. Os questionários nos mostraram que todos os professores que utilizam filmes em suas aulas admitiram ter testemunhado algum tipo de violência. Já dentre os que afirmam não ter o hábito de utilizar filmes, somente dois educadores viram algum tipo de violência. Ou seja, enquanto 100% dos professores que fazem uso do audiovisual em sala de aula percebem a violência no Instituto, somente 33% dos docentes que não utilizam esse recurso têm a percepção dessa violência.
O audiovisual se apresenta como um recurso fundamental para tratar das questões mais importantes de nosso tempo. A forma como transmite a sua mensagem e aguça os sentidos do receptor é determinante para o sucesso do conteúdo proposto em seu material. Portanto, é uma forma eficaz de trazer algumas temáticas importantes para a sala de aula mantendo ao mesmo tempo um interesse e a curiosidade do alunado. No entanto, devemos ressaltar que a eficácia do audiovisual se dá pela sua capacidade de envolver e transformar a sensibilidade humana. Morin (2009) compara o cinema com o romance, em duas épocas distintas, mas que desempenham papéis similares no tocante ao propósito que esses almejam. Cada um, a sua maneira, propôs uma transformação do tempo e do
espaço. Sem dúvida o cinema, bem retratado também por Deleuze, ampliou os nossos limites da temporalidade e da espacialidade.
Sobre o processo de afecção destes artefatos culturais, Morin (2009, p. 44) escreve que,
São o romance e o filme que põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade, com o mundo. O romance do século XIX e o cinema do século XX transportam-nos para dentro da História e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço.
O conteúdo audiovisual possibilita experiências até então impensadas. Desde um contato imediato com alguém extremamente distante, até mesmo o testemunho histórico de eventos em qualquer parte do globo. Essa condição é certamente uma oportunidade de vislumbrar outras experiências para além das nossas condições físicas e materiais atuais. De uma forma ou outra, um contato que nos permite promover uma dialética com o outro, percebendo as suas diferenças e singularidades permite ao docente promover toda sorte de comparações e paralelos, que por sua vez ampliam o horizonte de compreensão dos próprios alunos.
Ressaltamos que o audiovisual não representa por si só qualquer tipo de salvação pedagógica dos alunos. Mas não há dúvidas que o seu bom emprego atrelado à outras formas de ensino, tradicionais ou não, só tende a agregar mais valor e resultados ao processo de aprendizado. E da mesma forma, nos dias de hoje “a escola não é mais o único espaço capaz de promover o desenvolvimento intelectual dos estudantes nem o espaço de maior difusão cultural, embora continue tendo um papel fundamental em todos esses processos”. (XAVIER, 2010, p. 97).
A pós-modernidade demonstra que não existe apenas uma forma de aprender, e nem aquilo que se aprende está fadado a ser uma verdade eterna. No entanto, a escola ainda é um lugar fundamental onde se aprende as interações humanas tão fundamentais para uma vida em comunidade. Nesse sentido, cada vez mais imersos na aldeia global, a percepção de que não estamos sozinhos nem sempre é acompanhada pela capacidade de compreendermos essa diferença que se apresenta diante de nós. Uma educação para a sensibilidade não resolveria de
forma definitiva a questão, mas ao menos nos tornaria mais capazes de romper com o nosso egoísmo e com o individualismo exacerbado, fazendo de nós menos indivíduos menos violentos e intolerantes.
Para investigar a relação entre a sensibilidade dos professores com a intolerância e a violência na escola fizemos a seguinte pergunta: “como você reage às situações de violência na escola?”. Para medir a ação dos professores diante da questão proposta, elegemos nove tipos distintos de reações prováveis diante de tais fenômenos. 1) sinto raiva; 2) tenho medo; 3) fico triste; 4) mantenho a calma; 5) fujo ou me afasto; 6) busco ajuda; 7) interfiro eu mesmo(a) para resolver o problema; 8) não faço nada e 9) outra reação/outra atitude. Destas, somente seis obtiveram algum tipo de registro.
Outro dado importante que observamos é o fato de que nenhum professor assinalou as opções: Fujo ou me afasto; não faço nada e outra reação/outra atitude. Esses dados nos indicam que os professores não se consideram atores passivos diante da intolerância e da violência na escola.
Gráfico 3 - Reação dos professores em situações de violência na escola
Fonte: Bonneau (2017) 0 1 2 3 4 5 6
Professores que utilizam filmes em suas aulas
Professores que não utilizam filmes em suas aulas
A raiva, o medo e a tristeza, considerados como sentimentos que poderiam isolar a intenção do indivíduo de uma ação mais efetiva, são superadas em primeiro lugar pela exigência em manter a calma, seguida pela busca de ajuda, e finalmente resultando na interferência do próprio docente naquela situação de violência. Se entendermos que a manutenção da calma é o primeiro passo diante da testemunha do conflito, podemos afirmar que este é o momento exato da avaliação e da reflexão do docente. Após promover um cálculo sobre a realidade e suas possibilidades é que o docente busca ajuda ou interfere ele mesmo na referida situação. Podemos perceber ainda, que o grau de ação é proporcionalmente maior nos professores que admitiram utilizar filmes em sala de aula, enquanto naqueles que não utilizam, este grau é sempre menor.
Para complementar esta questão, solicitamos que os educadores explicassem a resposta que haviam dado anteriormente. Percebemos que, no grupo de professores que não exibem filmes, somente um respondeu esta questão, argumentando que: “enquanto cidadã e educadora, não posso me omitir na formação dos meus alunos enquanto cidadãos. Isso inclui a prevenção à violência” (Tulipa). Reiteramos que os demais professores desse grupo, ou seja, cinco dos seis professores que não utilizam o audiovisual em suas aulas, não fizeram nenhum tipo de registro nesta questão proposta.
Por outro lado, no grupo de professores que fazem uso do audiovisual em sala de aula, a situação foi inversa. Dos seis professores, cinco responderam essa questão, enquanto apenas um deixou-a em branco. Avaliamos nesse caso, que a falta da resposta e a qualidade da resposta são também dados importantes que nos indicam a sensibilidade dos professores em relação à temática da violência em sala de aula. Deixar deliberadamente de responder uma questão, pode indicar que não houve nenhum tipo de interesse em respondê-la, e até mesmo, que não houvera preocupação alguma com a necessidade do outro que aplicou o questionário em obter uma resposta satisfatória para o problema. Podemos considerar ainda, qual o grau de relevância dada por esses educadores a esta temática.
Dentre as respostas obtidas, existem confirmações de docentes que foram testemunhas da violência no espaço escolar onde atuam. Hortência afirmou que viu “alunos se agredindo fisicamente em sala de aula”, enquanto Lírio afirma que: “testemunhei bullying, preconceito, intolerância religiosa ou homofobia. Em um caso
específico, pessoas de fora tentaram assaltar a escola”. Diante da ocorrência da violência, Violeta e Cravo propõem um tipo de receita necessária ao professor para contornar este momento de crise. A primeira diz que “eu não aceito violência em minha sala de aula, quando acontece eu tento manter a calma e, dentro das minhas condições, ajudar a resolver”; na mesma linha de raciocínio, o segundo diz que “em situações limites a calma é fundamental para contornar estas situações”. Ambos revelam em grande parte, aquilo que se espera do professor ou que se admite em relação a sua identidade de educador: „a calma‟. Parece-nos que agir calmamente e com parcimônia representa o contrário de uma ação impulsiva e violenta.
De certa forma, essa negação também pode ser vista dentre os docentes do Instituto Federal. Acácia afirmou que “eu sempre procuro ajuda, mas nunca presenciei situações de violência no IF.” Podemos vislumbrar nesta resposta, até mesmo uma contradição: No primeiro momento, ela confirma que sempre recorre à ajuda, dando a entender que diante de uma situação específica de violência, ela age desta forma. Posteriormente, ela conclui que nunca presenciou uma situação desta natureza. Observando num primeiro momento, podemos afirmar que esta proposição é no mínimo confusa, senão contraditória. No entanto, ao refletirmos sobre este eminente paradoxo, o que podemos afirmar é que isto representa um tipo de envolvimento ou sensibilidade com as situações propostas no questionário. Veremos que existe ao mesmo tempo uma busca e uma fuga em relação ao problema que se coloca.
Para verificarmos a percepção dos educadores no tocante à violência na escola, solicitamos que enumerassem essas situações em seu ambiente de trabalho, sendo zero (0) para nunca, um (1) para pouco, dois (2) para regularmente e três (3) para sempre.
Tabela 1 - Percepção dos professores quanto à violência na escola.
Tipo de Violência
Quantidade de respostas
Nunca Pouco Regularmente Sempre
Violência física, com armas. 7 5 0 0
Violência física, sem armas 7 4 1 0
Violência Moral (preconceito, discriminação, apelidos, vaias, humilhações, coações, ameaças)
0 6 4 2
Violência sexual e/ou de gênero (agressão física ou moral de conteúdo sexual contra mulheres,
homossexuais)
3 5 4 0
Violência familiar, dentro ou fora da escola (violência em casa que repercute na escola)
5 3 4 0
Violência institucional/escolar
(educador que pratica violência contra alunos ou colegas)
8 3 1 0
Fonte: Bonneau (2017).
Diante deste quadro, podemos confirmar que a violência, seja ela da forma que for, esta sempre presente neste campus do Instituto Federal da Paraíba. A violência moral, que aqui caracterizamos como sendo atos de preconceito, discriminação, uso de apelidos, vaias, humilhações, coações e ameaças, é o único tipo de violência admitido por todos os sujeitos da pesquisa. Por outro lado, a violência considerada institucional ou escolar, sendo aquela proferida pelo educador, tanto contra seus pares quanto contra seus alunos, é a que sofre menos
reconhecimento por esses professores. Dois terços dos professores admitiram que nunca viram esse tipo de violência ocorrer diante de si.
Percebemos que ao mesmo tempo em que se acusa a violência moral como única onipresente no Instituto, não é admitido de forma alguma pela grande maioria dos professores que sua origem seja institucional. A sensibilidade relativa à violência moral (subentende-se aquela cometido no universo dos alunos) é muito maior em relação a sensibilidade da violência institucional (aquela que pode ser cometida de alguma forma por seus pares). Outras violências que podemos considerar de origem estrutural-social (como a violência sexual e/ou de gênero, e a violência familiar) são admitidas pela maioria dos entrevistados. Não fizemos relação entre os tipos de violência, dado que o objetivo de nossa pesquisa é investigar a sensibilidade dos professores.
A tabela a seguir demonstra de forma clara que os educadores percebem com muita facilidade as situações de conflito que habitam o espaço escolar quando ela se manifesta no âmbito dos alunos. No entanto, quando o corpo docente, ou algum outro membro, que faz parte da equipe técnica/administrativa da instituição está incluído no questionamento, a percepção da violência destes sujeitos diminui. É possível perceber como a violência simbólica age distintamente nesses espaços, que distingue as autoridades das não autoridades.
Tabela 2 - Percepção dos professores quanto às situações de conflito na escola conforme os envolvidos
Sujeitos envolvidos no conflito
Quantidade de respostas
Nunca Pouco Regularmente Sempre
Entre alunos(as) 0 10 0 2
Entre professores(as) 6 5 1 0
Entre professores(as) e alunos(as) 6 4 2 0
Entre direção e
professores(as)/técnicos(as)
8 4 0 0
Entre professores(as) e técnicos(as) 7 4 1 0
Entre alunos e inspetor (es, a, as) 4 7 1 0
Entre escola e pais (e mães) 6 6 0 0
Entre escola e comunidade 8 4 0 0
Entre escola e conselho escolar 8 4 0 0
Entre alunos(as) e os pais (mães) deles
5 6 1 0
Entre escola e polícia 8 4 0 0
Fonte: Bonneau (2017).
Percebe-se na tabela 5 que existe um grau claro de diferença das percepções sobre a violência entre alunos e professores, por isso concordamos com Tognetta (2011, p. 137) quando diz que “é interessante notar o que está implícito em nossas ações enquanto professores: uma crença de que o que diz respeito aos conflitos entre os alunos ocupam um grau de importância menor dentro da instituição educativa”.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dizer que a violência origina-se do ódio é usar um lugar-comum, e o ódio pode certamente ser irracional e patológico, da mesma maneira que o podem ser todas as demais paixões humanas. E possível, indubitavelmente, criar condições que desumanizam o homem – tais como os campos de concentração, a tortura, a fome – porém, isto não significa que se tornem semelhantes aos animais; e nestas condições, não é o ódio ou a violência, mas a sua ausência conspícua que constitui o mais claro sinal de desumanização. (ARENDT, 2010, p. 81).
Escolhemos esta citação de Hannah Arendt como epígrafe deste capítulo, pois o pensamento da filósofa alemã nos inspirou a explorar outros lugares, que não apenas o lugar comum, para desenvolvermos esta tese. Daí a ideia de usar como ponto de partida dessa pesquisa as teorias da tolerância.
Para tanto, foi necessário recorrer ao aporte teórico de filósofos que ainda no século 16 desafiaram o poder do Estado e da Igreja desenvolvendo seus pensamentos acerca dos conceitos da tolerância. Numa época em que a Igreja reinava absoluta no poder, sendo detentora das leis e da vida da população, Bayle faz duras críticas à política e à religião, denunciando como a Igreja se utilizava da superstição para fins políticos. Dessa forma, passa a defender a tolerância religiosa como algo universal e sua prática um dever tanto do indivíduo quanto do poder político.
Sob o argumento de que cada cidadão do Estado vê o mundo a sua maneira tendo cada qual seus próprios desejos, e de que não existe a possibilidade de formar uma sociedade com tantas diferenças e interesses distintos, Locke defende que o papel do Estado é estar de acordo com o estado de natureza humana, e para tanto é necessária que haja a separação entre o governo civil e a religião.
Voltaire propõe a universalização da razão, uma vez que, segundo o iluminismo, a liberdade e a tolerância só são capazes de se afirmar sob a guarda de uma razão universal. Kant por sua vez, defende que cada homem é detentor de sua própria razão. A conotação moral de Kant para a razão indica que o dever está acima de todas as vontades particulares, e o aponta como o caminho necessário para a tolerância. Adorno e Horkheimer nos mostram que a razão pode expelir um
veneno ainda mais mortal que a religião - o autoritarismo. O perigo de a razão possuir a mesma força do mito aponta para a possibilidade de cairmos em tempos obscuros e justificados pela própria racionalidade. A razão instrumental é a consequência mais nefasta deste processo de racionalização do mundo e das relações humanas. A (in)tolerância nesse sentido pode atingir graus de ação até então impensadas, e ter consequências irreversíveis para a humanidade.
Eichmann torna-se o símbolo dessa racionalidade absoluta. Arendt traz em sua análise toda a experiência do nazismo e das perseguições antissemitas. Este horizonte de compreensão permite que a autora valorize de um modo especial a esfera da política. Seu argumento principal para entendermos a questão da violência se dá na medida em que no avanço desta há necessariamente o recuo da política. Se o ambiente político sofre alteração por causa da existência da violência, então as diferentes formas de pensamento e de expressão também declinam.
O conceito de violência simbólica de Bourdieu lança luzes importantes para compreendermos esse processo no âmbito das instituições. Como procedimento que faz parte da prática diária da escola, a violência no âmbito do simbólico torna-se quase invisível e uma prática considerada naturalizada. As análises de Arendt e Bourdieu foram fundamentais nesta pesquisa, pois nos guiaram de forma decisiva no entendimento do fenômeno da violência em suas mais variadas formas.
A partir da concepção de que a violência é sentida, Debarbieux a coloca no nível da sensibilidade. E como medir essa sensibilidade? Eis um dos grandes problemas, colocados por Debarbieux, que dificultam a delimitação do conceito de violência. Uma ação que para mim é violenta, para o outro pode ser normal, e vice- versa. São dois problemas que podem gerar dois extremos: ou tudo é violência, ou nada o é.
Tanto a violência quanto a tolerância são construções sociais. Nesse sentido, são apreendidas, ensinadas, descontruídas e resignificadas; e a escola, com seu projeto de civilização e cultura torna-se o lugar decisivo destes valiosos ensinamentos. Cabe a nós educadores o envolvimento necessário nesse processo de educação para uma cultura de paz. E qual seria o primeiro passo para isso?
Diferentemente da França (e muitos outros países), que vivem sob a iminência de ataques terroristas, o Brasil, num primeiro olhar, pode aparentar não
sofrer com a intolerância. No entanto, nosso país está longe de ser um Estado livre de preconceitos. O “homem cordial” de Sérgio Buarque está mais presente do que nunca em nossa sociedade. Basta observar as movimentações políticas e seus conchavos, o machismo e a homofobia de “políticos pastores” (ou seriam “pastores políticos”?), as emendas constitucionais que prejudicam a população sendo votadas na calada da noite. Ao assistirmos à televisão aberta, deparamo-nos com imagens e notícias do aumento gradativo do desemprego, de surtos de doenças, da falta de medicação nos postos de saúde, além de incontáveis acidentes, assaltos, estupros e assassinatos. Tudo isso decorre do processo de banalização que extrapola a questão do mal e toma conta da sensibilidade do povo brasileiro. É como se todos concordassem com o que está acontecendo, e ao mesmo tempo não se ouve notícia em lugar algum de que todas essas medidas, que se julgam modernizantes e salvadoras, tenham algum tipo de aprovação popular.
A mídia, atrelada sobretudo às questões de mercado, detém o controle quase absoluto do audiovisual. Todo conteúdo veiculado por essas inúmeras formas de