Um fator que compromete a falta de investimentos e crença das emissoras na TV interativa está diretamente relacionado à ausência de modelo de negócios que justifique tamanho investimento na nova tecnologia. Desde o lançamento do Ginga não houve, por parte das emissoras, empenho para investir em variedade de aplicativos e nem esforço para que iniciassem ou fomentassem uma campanha a favor da interatividade. Francisco Machado Filho (2011, p. 171) afirma que “so m en t e q u an d o as em isso r as so u b er em co m o t ir ar p r o veit o f in an ceir o d as ap licaçõ es in t er at ivas é q u e elas ser ão d isp o n ib ilizad as p ar a o s t elesp ect ad o r es”.
A televisão brasileira, ao longo de seus mais de 60 anos, já passou por diversas ondas de mudança, mas nenhuma que pudesse abalar seu monopólio ou ameaçasse seu modelo de negócios. Entretanto, com a inserção e maior adesão da população da TV a cabo e novas plataformas de distribuição de vídeo, como IPTV, Broadband TV, satélite e micro-ondas, inicia-se o processo de fragmentação da audiência, acionando o alerta dos radiodifusores quanto ao seu modelo de negócios. Será que, com a chegada das TVs conectadas, aumento na base de usuários das TVs a cabo, IPTV, a dispersão da atenção dos telespectadores com as multitelas, internet, interatividade, entre outros, o modelo de negócios da televisão será alterado?
Quando a interatividade começou a ser inserida na programação, as emissoras não conseguiram pensar em um modelo de negócios que justificasse seu investimento e garantisse aumento nos lucros, por isso o investimento no Ginga continua a passos lentos. Iniciativas de emissoras como o SBT de colocar 24 horas no ar um modelo de interatividade utilizando Ginga, firmar parceria com a Sony e oferecer ao usuário conteúdo sob demanda demonstra coragem e a aposta em acompanhar a evolução da tecnologia, aguardando a resposta do público se este é o caminho a seguir no futuro.
5.8 Os displays
Este trabalho apresentou em sua discussão teórica uma mudança de conceito do universo televisivo tanto no que concernem as alterações de ordem técnica quanto as que envolvem a questão cultural de mudança na forma de consumo desta mídia. Um meio de comunicação que se desenvolveu em cima de um tipo específico de distribuição de conteúdo, como é o caso da TV, quando passa por um rearranjo, em pouco tempo pode não saber como acompanhar tamanha evolução. Apesar de a TV ser o maior meio de comunicação do país, com a chegada da digitalização da TV, muitas mudanças se impõem fazendo com que os radiodifusores sejam obrigados a fazer investimentos e a arriscarem uma nova forma de distribuição de conteúdo. Uma das principais mudanças culturais com que o consumidor começa a se acostumar devido ao uso frequente da internet é o consumo de conteúdo sob demanda. Poder assistir ao programa favorito no horário que quiser é algo que a TV não permite, mas que já acontece na TV a cabo e em alguns displays.
Segundo Squirra e Oliveira (2012, p. 80)
nessa profunda mudança de bases midiáticas, percebe-se que a sociedade passou a conviver com múltiplos displays (com cores exuberantes, leves, simples etc.) e aplicações interativas e em mobilidade que aquele equipamento original não possibilitava em seus hoje considerados singelos processos de transmissão de conteúdos.
Os displays podem ser considerados como uma evolução da TV e dos computadores quando ganham todas as funcionalidades existentes em ambos os aparelhos, oferecendo às pessoas o máximo de conexão, imersão e domínio. Os displays suportam qualquer tipo de mídia, são como telas que recebem sinal ou conexões vindas do ar, wi-fi ou rede, a interatividade é nativa, está incorporada ao aparelho. Não é preciso ser vidente para saber que este é o caminhos das telas, serem um meio de comunicação que permite qualquer tipo de troca informacional, garantindo ao usuário conexão rápida e satisfação ao oferecer inúmeros recursos tecnológicos.
Nas dezenas de entrevistas realizadas nesta pesquisa a maioria dos entrevistados afirmou que a TV como conhecemos não será mais a mesma, sua plataforma já começou a ser alterada quando o sistema analógico migrou para o digital. Por mais que essa realidade demore a atingir toda a população, ela já começou seu processo quando as pessoas compraram aparelhos que se conectam à internet, acessam a TV pelo ar, recebem aplicativos de diversas fontes, dando acesso ao telespectador a uma multiplicidade de informações vindas de diferentes emissores. É importante ressaltar que hoje o uso da TV não está diminuindo frente à internet, mas há uma grande demanda de acesso ao conteúdo broadcast de maneira não linear e em telas de dispositivos diferentes da TV. A maior tendência é o crescente uso simultâneo de TV e internet. Uma pesquisa154 da Harris Interactive afirma que, nos Estados Unidos, o uso simultâneo de TV e novas mídias é:
TV com internet: 56%
TV com redes sociais: 40%
TV com celular: 37%
E, no Brasil, a pesquisa155 “Brasil conectado – Hábitos de consumo de mídia” revela que a utilização de TV simultaneamente à internet é feita por seis de cada dez brasileiros. A pesquisa também aponta que as mulheres são as que mais utilizam o computador associado à TV.
TV com internet: 61% dos usuários brasileiros de internet (6 de cada 10)
O uso de múltiplas telas começa a ganhar corpo no Brasil, seguindo a tendência americana. Apesar de o desenvolvimento de produtos e conteúdo
154 Pesquisa citada por Rodrigo Arnaut em palestra ministrada sobre “Novas Mídias na TV” no
Congresso da SET de 2011.
155
Pesquisa “Brasil conectado – Hábitos de consumo de mídia” realizada em março de 2012 pelo Interactive Advertising Bureau – IAB e comScore. Disponível em:
http://www.iabbrasil.org.br/arquivos/IAB_Brasil_conectado_consumodemedia.pdf. Acesso em: 15 set. 2012.
utilizando o Ginga estar caminhando a passos lentos, o mercado que mais parece promissor é o das TVs conectadas, displays e telas com conexão.
Os displays já fazem parte do cotidiano das pessoas (dos incluídos digitais), as possibilidades de recepção de conteúdo podem ser pelo Personal computer, smartphone, tablet, TV e o que é mais fantástico é que o usuário não precisa estar sentado em uma cadeira na sala de casa, mas pode estar dentro do carro, aguardando uma consulta médica, no metrô, etc. Há cinco anos era incipiente tanta conexão, mas em pouco tempo a tecnologia avançou tanto que já está tornando-se lugar-comum estar conectado.