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No tempo em que a educação escolar, principalmente em cidades como Palmeira dos Índios que ficavam longe das capitais, era precária e contava com professores que, muitas vezes, não havia frequentado os bancos escolares e nem concluído curso algum para exercer tão nobre função, quem possuía educação bancária17 era rei.

Graciliano Ramos iniciou seus estudos formais no Internato Alagoano, após ter aprendido aos cinco anos as primeiras letras com o mais severo professor que teve, Sebastião Ramos: “Aprendi a carta do ABC em casa, aguentando pancada” (RAMOS, apud, Moraes, 1996, 10).

Com o passar dos anos, naturalmente foi demonstrando sua característica autodidata e foi visto pelos moradores de Palmeira dos Índios

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Expressão apresentada por Paulo Freire para expor o modelo tradicional de prática pedagógica que imperou por muitos anos no país, entendia que esse tipo de educação visava à mera transmissão passiva de conteúdos pelo professor, sem considerar a realidade do aluno no processo de ensino/aprendizagem.

como um homem letrado e, se desejasse, poderia ajudar na educação da cidade.

Para ilustrar a educação paterna de Graciliano Ramos, um trecho da obra Infância:

Mas, arengando com Joaquim, na areia do beco, ou admirando o rostinho de anjo de Teresa, assaltava-me às vezes um desassossego, aterrorizava-me a lembrança do exercício penoso. Vozes impacientes subiam, transformavam- se em gritos, furavam-me os ouvidos; as minhas mãos suadas se encolhiam, experimentando nas palmas o rigor das pancadas; uma corda me apertava a garganta, suprimia a fala; e as duas consoantes inimigas dançavam: d, t. Esforçava-me por esquecê-las revolvendo a terra, construindo montes, abrindo rios e açudes. (RAMOS, 2003, p. 115 – 116).

São vários os exemplos da educação violenta e inútil que Graciliano Ramos recebeu durante sua formação. Em trecho da obra Infância (2003. p. 16) o autor fez a seguinte declaração: “Medo. Foi o medo que me orientou nos primeiros anos. Pavor.”

Embora traumática, a vida escolar do menino mal compreendido não foi reproduzida quando este teve a oportunidade de ensinar, ao contrário, mostrou-se exigente nas lições, mas incapaz de um ato violento que pudesse deixar marcas negativas em seus alunos. Quando precisava chamar a atenção, era sempre com palavras, muitas vezes carregadas de ironia.

Voltando ao cenário educativo de Palmeira dos Índios, estava longe de ser considerado adequado, pois além de contar com a falta de professores, também não possuía instalação e mobília para acomodar os aspirantes ao estudo. A Diretoria da Instrução, órgão responsável pela educação do povo palmeirense, recorria à ajuda dos pais dos alunos para conseguir realizar suas funções de escola.

De mais a mais, essas abnegadas mulheres não dispunham de local apropriado nem de instalações convenientes para exercer o seu sagrado mister. Os pais de família, então se dispunham a cooperar com a Diretoria da Instrução, em permanente estado de bancarrota, mandando os filhos para a escola, munidos de seu respectivo caixão de querosene, adquirido nas mercearias do lugar. (LIMA, 2003, p. 36).

De férias do Internato no ano de 1910, Graciliano ouviu comentários dos moradores da cidade sobre sua boa instrução, não só na gramática da língua materna, mas também no francês, italiano, inglês e nas contas. Seus colegas de praça passaram a indagá-lo a fim de saber se nele havia alguma intenção em ajudá-los na transmissão de seus conhecimentos. Mas o perfil de homem avesso ao exibicionismo não se gabava com os comentários elogiosos a sua pessoa, pelo contrário, fazia questão de cortar esse tipo de conversa quando estava por perto.

As indagações tornaram-se frequentes, até que Graciliano Ramos, em plenas férias, decidiu abrir um curso particular noturno da cidade, do qual foi mestre. Não fez tal empreendimento por vocação, mas talvez pelo anseio em ajudar, de alguma forma, seus conterrâneos e também pela oportunidade de mexer com a faculdade da leitura e do conhecimento, que tanto lhe agradava.

Os moradores da cidade logo ficaram sabendo do curso e os filhos de pais com recursos, jovens políticos e interessados em uma instrução mais apurada matricularam-se no curso do jovem professor Graciliano Ramos. (LIMA, 1971).

O perfil de bom estrategista esteve presente na administração das aulas e na escolha dos alunos, pois taxou o curso com mensalidades relativamente altas. O preço tinha um objetivo, atrair para o curso somente aqueles interessados nas palavras do mestre Graça e, dessa forma, afastar os curiosos e brincalhões. Essa atitude foi experimental, apenas seletiva e, após a formação e consolidação da turma, as mensalidades não eram mais cobradas. (LIMA, 1971)

Diante das novidades do esperanto, proposta de língua universal, Palmeira dos Índios contou com o dedicado professor Graciliano Ramos, que se empenhou para aprender e ensinar o idioma aos interessados. Também ministrou aulas de francês no Colégio Sagrado Coração e era constantemente procurado para esclarecer dúvidas de alunos, crianças e adultos, matriculados nas poucas escolas da região. (LIMA, 1971).

Entre seus alunos, suas irmãs Marili e Clélia estavam presentes que receberam a mesma orientação rigorosa que os outros colegas de turma. Em declaração feita ao escritor Denis de Moraes (1996), Clélia recordou “Ele conseguia despertar o nosso interesse, ninguém faltava às aulas. Eu aprendi noções de francês e italiano numa época em que nem sabia direito o português”! (MORAES, 1996, p. 41).

Nos quatro anos de funcionamento do curso, adultos e crianças passaram pela nova escola que apresentava uma proposta pedagógica diferenciada para a época. A palmatória por ali não era aplicada, porém exigia dedicação e frequência dos alunos.

A escola funcionou apenas por quatro anos, pois com a partida de Graciliano Ramos para o Rio de Janeiro em 1914, o “curso noturno” foi fechado. Provavelmente não o confiava em outras mãos.

Alguns textos apontam que Graciliano Ramos foi empreendedor de uma escola de idiomas em Palmeira dos Índios. (LIMA, p. 113) Teria sido uma escola tanto para ensinar a Língua Portuguesa à nova gente que por lá chegava, quanto para ensinar o italiano aos palmeirenses interessados. Graciliano Ramos foi o único professor. Porém, essa informação precisa ser melhor investigada para constatar a sua veracidade. Existe um trecho na obra

Viventes das Alagoas (RAMOS, 1967, p. 154) que pode ser um indício

Por motivo de ordem econômica, resolvi um dia, a exemplo de toda gente, ministrar aos outros alguns conhecimentos proveitosos de mim. Não me arrisquei a preparar oleiros sapateiros pois ninguém tomaria a sério sapato ou panela que eu fizesse. Procurei matéria exótica, de verificação difícil. Imaginando, sem grande esforço que na Itália existia uma língua, pedi catálogos ao Garnier e dispus-me resolutamente a estropiar o italiano com a ajuda de Deus. Anunciei: - Italiano rápido e barato a cinco mil réis por cabeça, mensalmente. Aproveitem. Lições em todos os dias úteis. Tempo é dinheiro como diz o gringo. Isso deve ser fácil, pensei. É só arrumar no fim das palavras une ou ine. De estrangeiro cá na terra ninguém entende. E se aparecer por aí um carcamano, adoeço e perco a fala. Pois, senhores, não me dei mal. Matricularam-se cerca de trinta idiotas. Comecei a trabalhar com energia e confiança. Ainda estaria trabalhando, se dois alunos, finda a primeira quinzena, não entrassem em concorrência comigo, deslealmente, fundando escolas que italianizaram toda a localidade.

Mais uma vez, pode-se notar o espírito de homem de negócio que o escritor possuía. Como qualquer outro jovem de sua idade, Graciliano desejava conhecer novas terras, buscar aventuras intelectuais, sociais e econômicas. Esse espírito desbravador fortaleceu-se e o jovem sertanejo decidiu partir para o Rio de Janeiro, mesmo deixando para trás sua futura esposa, Maria Augusta.

Na cidade grande, trabalhou com revisor suplente no Correio da Manhã, depois em O Século, para reforçar os ganhos, logo após como revisor do jornal

A Tarde, escreveu crônicas para o Jornal de Alagoas e colaborou com o

semanário Paraíba do Sul, na cidade fluminense. Desde a sua chegada no Rio de Janeiro, teve uma vida intensa como escritor e seus textos foram elogiados por leitores, jornalistas e escritores da época.

O jovem professor cumpriu bem com a sua missão de instrutor, pois ensinou com rigor e dedicação todos os que lhe procuravam interessados em aprender com o mestre matuto e sábio do sertão.

Anos mais tarde, o perfil de homem intelectual e de educador exemplar rendeu a Graciliano Ramos os cargos de Diretor da Instrução Pública de Alagoas, esse era o ano de 1933.

A postura destemida, justa, inflexível e que não se dobrava a corrupção e a privilégios para obter favorecimento próprio, foi observada tanto no exercício da prefeitura de Palmeira dos Índios quanto na ocupação do cargo de Diretor da Instrução Pública do Estado. (SANT´ANA, 1992, p. 54). Tal postura despertava descontentamento nos rostos daqueles que se viram direta ou indiretamente atingidos.

Como Diretor da Instrução baixou medidas polêmicas e desafiadoras, passou a exigir diplomas e formação específica para os que desejassem ministrar aulas nas escolas públicas do estado, demitiu as professoras interinas, entre as quais sua própria irmã, criou as Juntas Escolares que tinham a função de propagar e fiscalizar as escolas estaduais, municipais e particulares, instaurou os estudos estatísticos sobre a educação no estado. (SANT´ANA, 1992, p. 54).

Em trecho da obra Memórias do Cárcere (2008), Graciliano Ramos fez o seguinte relato sobre sua gestão no cargo de Diretor da Instrução:

Pelo meu cargo haviam passado em dois anos oito sujeitos. Eu conseguiria aguentar-me ali mais de três anos, e isto era espantoso. Ocasionara descontentamentos, decerto cometera numerosos erros, não tivera a habilidade necessária de prestar serviços a figurões, havia suprimido nas escolas o hino de Alagoas, uma estupidez com solecismos, e isto se considerava impatriótico. (RAMOS, 2008, p. 17).

Em sua gestão escolar, o número de matrículas aumentou bastante em relação aos anos anteriores a sua administração, como podemos observar nos dados apresentados pelo pesquisador Sant´Ana, (1992, p. 53) “[...] os números

da matrícula geral dos alunos nas escolas de Alagoas, a começar de 1932, ano anterior ao seu ingresso na Diretoria em questão, até 1934: 21.478 alunos em 1932: 32.912 em 1933 e finalmente 40.239, em 1934, representando o significativo aumento de 87,3% no período”18

.

Quando Graciliano Ramos assumiu o cargo na Pasta da Educação do Estado, a situação do ensino encontrava-se precária e muito distante de oferecer uma educação de qualidade a crianças e adultos.

No ano de 1935, Graciliano Ramos escreveu um relato sobre a realidade da educação do Estado de Alagoas, que foi divulgado na revista A Escola no mesmo ano (SANT´ANA, 1992, p. 51). Diz o relato:

O quadro que nos apresentava, há poucos anos, a instrução pública em Alagoas era este: dezena e meia de grupos escolares, ordinariamente localizados em edifícios impróprios, e várias escolas isoladas na capital e no interior, livres de fiscalização, providos de material bastante primitivo e quase desertas. As professoras novas ingressavam comumente nos grupos; as velhas ficavam nas escolas isoladas, longe do mundo, ensinando coisas absurdas. Salas acanhadas palmatórias, mobília de caixões, santos nas paredes, em vez de mapas.

O jovem professor cumpriu bem e com rigor sua missão de instrutor. Passou por vários níveis da educação formal; professor da roça, dono de escola de idiomas e Diretor da Instrução Pública do Estado de Alagoas. A postura ética e corajosa o acompanhou em todos os momentos e o mestre matuto e sábio do sertão deixou uma lição de cidadania, justiça e comprometimento com o próximo para o povo do seu estado e para o país.

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Esses dados aparecem divulgados no livro do pesquisador Moacir Medeiros de Sant´Ana “Graciliano Ramos: vida e obra, e foram retirados do Jornal de Alagoas de 13 de dezembro de 1935, do editorial Trabalhando em Silêncio.

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