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Intencionalmente, foi convidado um participante (P1) que pudesse participar do ciclo de design da GoDonnie. Esse participante é do gênero masculino, possui 23 anos, é aluno do curso de Graduação em Psicologia da PUCRS e utiliza o leitor de telas NVDA. Não tem experiência em programação e nem em robótica. Possui alto interesse em aprender sobre robótica e programação. A Figura 6.2 apresenta P1 realizando uma atividade que simulava o uso do robô no mapa tátil.

Figura 6.2: Avaliação com usuário cego sem conhecimento em programação Fonte: a autora

A avaliação foi realizada em diferentes sessões, contendo um conjunto de ativida- des educativas destinadas ao desenvolvimento de competências básicas de programação e de O&M. Foi desenvolvido um instrumento para avaliar se era fácil aprender os comandos e lembrar seus usos, avaliar os materiais concretos e registrar observações (Apêndice D). As avaliações foram gravadas em vídeo, de forma que pudessem ser registrados os mo- vimentos que P1 fazia com seu corpo para simular os giros do robô. Os vídeos também permitiram observar como o P1 movimentava o robô no mapa tátil e como compreendia o ambiente que estava representado neste mapa. Para avaliar se P1 lembrava do uso dos comandos, a cada comando era perguntado se havia sido fácil aprender e, na sessão se- guinte, se esses comandos foram lembrados. No instrumento, os avaliadores sinalizavam

se a resposta se referia a sintaxe e/ou semântica dos comandos, bem como se os coman- dos eram lembrados com ou sem ajuda dos avaliadores.

Foram realizadas 7 avaliações, sendo 4 presenciais e 3 não presenciais. As avali- ações presenciais foram realizadas em dias diferentes, e tiveram como objetivo explicar os comandos e simulá-los no mapa tátil, tendo níveis de dificuldade crescente. As avaliações não presenciais tiveram como objetivo a resolução de listas de atividades para fixação e revisão dos comandos utilizados nas avaliações presenciais, essas avaliações foram sem a utilização de mapa tátil e sem a presença dos avaliadores.

A primeira avaliação foi presencial e teve como objetivo explicar o robô, o mapa tátil e formas básicas de localiza-lo e movimenta-lo no cenário, bem como comandos de áudio e de retorno de localização do robô no mapa e dos objetos que estão ao seu redor. Incluiu explicações sobre o plano cartesiano, e a confecção e validação de um instrumento que, inicialmente, foi utilizado para conferir a rotação do robô (Figura 6.3). Esse recurso se fez necessário porque o participante estava acostumado a utilizar o mecanismo de horas ao invés de graus. Os avaliadores desempenharam o papel de debug, emitindo sinais sonoros, além de mensagens de sucesso e de alerta. O usuário preferiu resolver as atividades sem registrá-las por escrito. A cada comando dado pelo P1, os avaliadores deslocavam o robô no mapa tátil de forma que o participante pudesse sentir os movimentos do mesmo.

Essa sessão teve duração de 1 hora e foram trabalhados 11 comandos, conside- rados de fácil aprendizado pelo participante. Quatro comandos (PF, GD, GE, SOM) foram explicados somente uma vez, seis comandos (PT, CORES, DISTÂNCIA, ESPIAR, FALAR, ESPERAR) foram explicados duas vezes e um comando (POS) foi explicado três vezes. Houve sugestão de alteração no instrumento de conferência dos ângulos, bem como no mapa tátil, que deveria ter mais relevo entre as linhas e colunas. Para o instrumento de conferência de ângulos, sugeriu que tivesse uma marcação para identificar cada quadrante no círculo. A técnica think-aloud foi utilizada para compreender a resolução das atividades, e permitiu verificar o que o participante utilizou de abreviaturas para lembrar comandos que foram definidos por extenso (exemplo DT para DISTÂNCIA). A primeira avaliação também permitiu corrigir mensagens sonoras de prevenção e tratamento de erro. O participante sugeriu que o comando CORES pudesse ser substituído por COR, uma vez que indica a existência de objetos de determinada cor.

Figura 6.3: Instrumento de conferência dos ângulos Fonte: a autora

A segunda avaliação também foi presencial e teve duração de 1 hora. Foram re- visados os comandos utilizados na avaliação anterior e o P1, inicialmente, não lembrou de três comandos que estavam relacionados à rotação (GE, GD) e que haviam sido explicados somente uma vez, além do comando de pausa do robô (ESPERAR), que foi explicado duas vezes. Na segunda avaliação foram trabalhados 4 comandos e, após cada comando, o P1 executou uma atividade com o auxílio do mapa tátil. O participante considerou 3 comandos (ESTADO, HISTÓRICO, REPITA) de fácil aprendizado e um comando (SE) de aprendizado intermediário. Ainda assim, o comando ESTADO foi explicado duas vezes, o HISTÓRICO foi três vezes, o REPITA foi seis vezes e o SE foi dezesseis vezes. A necessidade de re- ver os conceitos se deu porque o participante solicitou variadas aplicações reais desses comandos, mostrando-se interessado e motivado em resolver mais desafios. As atividades de loop, relacionadas ao comando REPITA, foram simuladas na palma da mão do partici- pante de forma que ele pudesse acompanhar o incremento da variável de controle. O P1 continuou sugerindo alterações no instrumento de conferência dos ângulos, para que as marcações tivessem mais relevo. O mapa tátil foi aprovado.

A terceira avaliação foi presencial e teve duração de 1h50min. Foram revisados os comandos da avaliação anterior e, apesar da maior complexidade desses, o P1 somente teve questionamentos com relação à sintaxe do comando REPITA e do SE, este último quando havia condições falsas. Na terceira avaliação foi trabalhado o comando de criação de variáveis (CRIAR) e outro comando de repetição (PARA), que foram considerados de fácil aprendizagem pelo participante. O comando CRIAR foi explicado três vezes. Para me- lhor compreender o funcionamento do comando de repetição PARA foi explicado 4 vezes. O participante executou os movimentos no espaço real, como se fosse o robô, e depois movimentou o robô no mapa tátil. O participante passou a escrever os comandos em um editor de textos enquanto utilizava a técnica de think-aloud. O uso de leitor de telas permitiu

validar a importância de manter acentuação nos comandos, de acordo com a escrita em Português. O P1 fez uso do mapa tátil na execução das atividades. Destaca-se que o par- ticipante se divertiu ao simular o robô com seu próprio corpo, indicando que compreendeu o uso desse comando.

A quarta avaliação foi não presencial; o participante realizou as atividades sozinho e encaminhou os exercícios resolvidos por e-mail. Foram realizadas 13 atividades para re- visar os comandos trabalhados nas avaliações anteriores. Foram definidas 5 atividades de nível fácil, 6 de nível intermediário e 2 de nível difícil. O participante continuou utilizando um editor de textos. Não fez uso do mapa tátil, indicando que está executando as atividades em nível mental. Considerou que as atividades atenderam aos níveis de dificuldade indicados. Somente uma atividade do nível difícil não foi concluída com sucesso. O P1 se mostrou motivado na realização das atividades e demonstrou estar satisfeito com seu aprendizado na área de programação. Essa satisfação foi explicitamente informada em registro escrito e via depoimento oral.

A quinta avaliação foi não presencial; o participante realizou as atividades sozinho e encaminhou os exercícios resolvidos por e-mail. Foram realizadas 21 atividades: 5 de elaboração de programas (4 de nível fácil e uma de nível difícil, realizadas com sucesso), 3 para verificar correção de programas (2 de nível fácil, realizadas parcialmente certas, e uma de nível intermediário, realizada com sucesso) e 13 para corrigir sintaxes de comandos (nível intermediário, errou somente 3). P1 continuou resolvendo as questões utilizando um editor de textos, informando que não fez uso do mapa tátil. Considerou que os níveis de dificuldades estavam adequados. Continuou mostrando-se motivado em aprender progra- mação usando a GoDonnie e solicitou o envio de mais listas de exercícios.

A sexta avaliação foi não presencial; o participante realizou as atividades sozinho e encaminhou os exercícios resolvidos por e-mail. Foram realizadas 7 atividades de elabo- ração de programas, sem indicação de níveis de dificuldade. Além de revisar os conteúdos anteriores, foram reforçados os operadores aritméticos e de comparação. O P1 acertou integralmente 3 atividades, resolveu parcialmente 2 atividades e não realizou com sucesso outras 2 atividades. Os erros cometidos estiveram relacionados à atribuição de variáveis, nas quais o P1 informou alguns dados de entrada por extenso ao invés de dados numéri- cos. Na Tabela 6.1 pode ser visto um resumo dos comandos vistos em cada avaliação à distância.

Tabela 6.1: Comandos vistos em cada sessão a distância

Sessão Comandos Sessão Comandos Sessão Comandos

Quarta PF Quinta PF Sexta CRIAR PT PT OPERADORES GD SOM FALAR "x" GE DISTÂNCIA FALAR x

ESPERAR POS SE ENTÃO

FALAR "x" FALAR "x" SE ENTÃO SENÃO

REPITA SE ENTÃO

SE ENTÃO SE ENTÃO SENÃO

SE ENTÃO SENÃO

Fonte: a autora

A sétima avaliação foi presencial e teve duração de 1h30min. Essa avaliação mos- trou que o participante lembrou do comando CRIAR, mas não lembrou do comando de repetição PARA. Isso pode ter ocorrido porque não houve muitas atividades com o último comando. A sétima avaliação teve o objetivo de trabalhar outro comando de repetição (ENQUANTO) e o de criação de procedimentos (APRENDER). O participante considerou o comando ENQUANTO de aprendizado intermediário e APRENDER de nível fácil. O co- mando ENQUANTO foi explicado 6 vezes e o APRENDER 1 vez. O participante resolveu as atividades utilizando um editor de textos. Mostrou-se motivado com a possibilidade de en- sinar novos comandos para o robô e ciente do aumento da complexidade a cada atividade proposta. Houve a resolução de listas extras de exercícios, que não estão sendo contabili- zadas, porque se referem à revisão dos comandos e a aplicação em diferentes problemas. Ressalta-se que o participante continuou com interesse em aprender mais sobre robótica e programação. A Tabela 6.2 apresenta os comandos vistos em cada avaliação presencial e as dicas fornecidas em cada dia de avaliação.

Tabela 6.2: Comandos vistos em cada avaliação presencial e dicas fornecidas 1ª Avaliação 2ª Avaliação 3ª Avaliação 7ª Avaliação Avaliações Comandos Dicas 1 dia Dicas 2 dia Dicas 3 dia Dicas 4 dia

1ª Avaliação PF 1 0 0 0 PT 2 0 0 0 GD 1 0 0 0 GE 1 0 0 0 ESPERAR 2 1 1 1 FALAR "x" 2 0 0 0 SOM 1 1 1 1 ESPIAR 2 0 0 1 DISTÂNCIA 2 1 1 1 POS 3 0 0 0 CORES 2 0 0 1 2ª Avaliação ESTADO – 2 0 1 HISTÓRICO – 3 0 1 REPITA – 6 0 1 SE – 16 1 0 3ª Avaliação CRIAR – – 3 0 PARA – – 4 1 7ª Avaliação ENQUANTO – – – 6 FALAR x – – – 3 APRENDER – – – 1 Fonte: a autora 6.2.1 Discussão dos resultados

As avaliações permitiram verificar que a GoDonnie pode ser utilizada como recurso para ensinar conceitos básicos de programação para usuários cegos, iniciantes nesta área. Também ficou demonstrado a importância do mapa tátil e do robô manipulável como re- cursos para aprender conceitos de programação e robótica para programadores iniciantes. Nos comandos mais complexos, houve a simulação dos movimentos do robô na palma da mão do participante cego, bem como o uso do seu corpo para simular o robô no espaço. Esses procedimento facilitaram o entendimento de comandos mais complexos. O uso de editor de texto foi importante para fixar a sintaxe dos comandos e para permitir uma maior abstração em nível mental. Também permitiu verificar a entonação dos comandos pelo leitor de telas.

Sobre a sintaxes dos comandos, pode-se observar que o participante não teve dificuldades em utilizar comandos com acentuação porque já estava acostumado a escrevê-

los. Fez uso de quebra de linha para escrever comandos isolados (exemplos, CRIAR, PF, PT, GD, GE), mas escreveu comandos de repetição (REPITA, ENQUANTO) e de seleção (SE) em linha contínua. Essa liberdade de escrita da GoDonnie, bem como a marcação de blocos (FAÇA e FIM), foi ressaltada positivamente pelo usuário.

6.3 Etapa 3 - Avaliação com participantes deficientes visuais com conhecimento

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