Segundo Von Sperling (1996), um dos principais aspectos de poluição das águas é aquele relacionado ao fator higiênico, associado às doenças de veiculação hídrica. O grupo coliforme é formado por grande número de bactérias que não são patogênicas, mas que dão satisfatória indicação de quando a água apresenta contaminação por fezes humanas ou de animais, e, por conseguinte, a sua potencialidade para transmitir doenças.
A contaminação dos recursos hídricos por lançamento de efluentes de ETE, além de contribuir para o aumento da matéria orgânica e de nutrientes, também pode ser considerada um risco devido ao seu grande potencial em lançar organismos patogênicos no corpo hídrico. A poluição difusa proveniente das bacias de drenagem de pecuária também é capaz de deteriorar a qualidade da água sendo responsável pela emissão de níveis significantes de bactérias fecais (MUDGE et al., 1999).
Os valores obtidos para coliformes totais na água durante o período de estudo podem ser visualizados na Figura 3.26. As maiores quantidades de coliformes totais foram encontradas nas coletas de janeiro e abril. Segundo análise estatística, não houve diferença significativa para esta variável nos dois meses de coleta (p=0,531), no entanto, quando estas foram comparadas com julho, a diferença foi significativa (p<0,05).
Não foi possível observar variação entre as estações amostrais. O maior valor foi encontrado na estação 6 em abril (105 x103 UFC/100mL), e o menor na estação 6 e 7 em julho (2,1 x103 UFC/100mL). 0 8 16 24 32 40 48 56 64 72 80 88 96 104 112 A B 1 2 3 4 5 6 7 8 9 estações amostrais C o lifo rm e s to ta is ( U F C x 1 0 3 )
Janeiro Abril Julho CONAMA 357
Figura 3.26: Variação da quantidade de coliformes totais da água do rio Jacupiranga durante o período de estudo em 2007.
Os dados obtidos para coliformes totais estão em desacordo com o limite máximo de 5x103UFC/100mL estabelecido pela Resolução CONAMA 357/05 (BRASIL, 2005) para
rios de classe 2. Somente na coleta de julho foram observadas estações amostrais que atenderam a legislação (1, 6, 7, 8 e 9).
No rio Mogi-Guaçu (BRIGANTE et al., 2003), os valores obtidos para coliformes totais variaram de 1000 a 155 x 103NMP/100ml, chegando a superar cerca de 30 vezes o
limite estabelecido pela legislação na estação localizada dentro da cidade de Mogi-Guaçu. Segundo os autores, o rio está sofrendo contaminação por coliformes, e esgotos domésticos são a maior fonte dessa contaminação.
Nos rios Jacupiranguinha (MOCCELLIN, 2006) e Pariquera-Açu (MOCCELLIN, 2010), a quantidade de coliformes totais também se apresentou acima do limite permitido pela legislação na maioria dos pontos de coleta. No rio Jacupiranguinha, a presença de pequenas propriedades com animais na margem do rio explicou os valores encontrados, enquanto que no rio Pariquera-Açu, foram ressaltados a proximidade com o perímetro urbano e o lançamento do efluente da ETE.
O uso das bactérias “coliformes termotolerantes” para indicar poluição sanitária mostra-se mais significativa que o uso da variável coliforme total, segundo a CETESB, (2006), uma vez que as bactérias termotolerantes estão restritas ao trato intestinal de animais de sangue quente. A presença deste grupo de bactérias na água indica risco adicional da mesma possuir organismos patogênicos responsáveis pela transmissão de doenças como febre tifóide, febre paratifóide, disenteria bacilar e cólera (BRIGANTE et al., 2003).
Os valores obtidos para coliformes termotolerantes na água durante o período de estudo podem ser visualizados na Figura 3.27. O menor valor foi observado na estação 1 em julho (0,45 x103 UFC/100mL) e o maior, na estação 5 em janeiro (14,4 x 103
UFC/100mL). 0 2 4 6 8 10 12 14 16 A B 1 2 3 4 5 6 7 8 9 estações amostrais C olif or m es te rm ot oler ant es (U F C x 10 3 )
Janeiro Abril Julho CONAMA 357
Figura 3.27: Variação da quantidade de coliformes termotolerantes da água do rio Jacupiranga durante o período de estudo em 2007.
Não foi observada variação da quantidade de coliformes termotolerantes entre os meses de coleta nem entre os períodos de maior e menor precipitação (p>0,05). Elevadas quantidades foram observadas tanto no período das chuvas (janeiro e julho) quanto na seca (abril).
Maiores concentrações foram verificadas nas estações amostrais 2, 3, 4 e 5 que estão localizadas próximas à cidade de Jacupiranga. Acredita-se que entrada de efluentes domésticos brutos e da ETE, e o carreamento de material alóctone, como fezes de animais da área de pastos na margem oposta da cidade, tenham contribuído para que se encontrassem esses valores.
O resultado encontrado para o rio Jacupiranga corrobora o estudo de Bubel (1998) no rio Peixe. A autora ressalta que altas concentrações de coliformes refletem as atividades de criação de animais desenvolvidas na bacia e a ocupação urbana.
O aumento da quantidade de coliformes termotolerantes em áreas urbanas também foi observado por Brigante et al. (2003) no rio Mogi-Guaçu. Segundo os autores, de acordo com os dados observados para coliformes termotolerantes, o rio não apresentou condições sanitárias satisfatórias.
A relação entre os diferentes tipos de uso do solo em uma bacia e a quantidade de coliformes termotolerantes encontrada na água foi demonstrada por Shah et al. (2007). Estes pesquisadores estudaram 12 bacias de drenagem na Austrália com solo utilizado como aterro sanitário, estação de tratamento de esgoto e pastagem. Esse tipo de ocupação foi comparado com áreas naturais de florestas. Como resultado, eles observaram a influência das estações de tratamento, aterros sanitários e pastagens na qualidade da água. As concentrações de coliformes termotolerantes nas bacias de drenagem ocupadas por estações de tratamento de esgoto foram de 1395 ± 574 UFC/100mL; e as de aterros sanitário, 1243 ± 494 UFC/100mL. Esses dois tipos de ocupação, em conjunto com as áreas de pastagem (534 ± 112 UFC/100mL), apresentaram contagens mais altas quando comparados com áreas florestadas (373 ± 87UFC/100mL).
A legislação brasileira estipula que a concentração máxima permitida para rios de classe 2 é de 1x103 UFC/100mL para coliformes termotolerantes (BRASIL, 2005). Os dados
obtidos para o rio Jacupiranga apresentaram valores acima do permitido em todas as estações amostrais, com exceção para estação 1, 8 e 9 em julho.
Segundo a série histórica de dados do posto JAPI 02100 (1997-2006), o valor médio de coliformes termotolerantes é de 4,7x103, variando de 0,5 a 50x103 UFC/100mL.
Todos os meses de coleta (fev, abr, jun, ago, out, dez) referentes aos de 2001 a 2004 apresentaram valores acima de 1,3x103 UFC/100mL. No ano de 2007, os valores variaram
de 0,8 a 4,9x103 UFC/100mL.
De acordo com os dados do último levantamento censitário do IBGE em 2000 (SEADE, 2010), na cidade de Jacupiranga, 84% das casas são atendidas pela rede coletora de esgoto, sendo 90% do coletado destinado à estação de tratamento. A maioria das casas da área urbana, localizadas nas margens do rio Jacupiranga, não estão ligadas a rede coletora, lançando seu esgoto diretamente no rio. No Baixo Jacupiranga, na zona rural, algumas casas ribeirinhas possuem fossas enquanto outras lançam seu esgoto diretamente no rio.
A rede coletora de esgoto deficiente, a baixa utilização de fossas sépticas na zona rural e criação de animais nas áreas marginais com a retirada das matas ciliares são os