Porém, foi na década de 60 que o Professor e cientista russo Led Matveev idealizou um modelo de periodização que serviria de base organizacional para programas de treinamento esportivo até meados da década de 80, sendo ainda hoje utilizada em modelos de periodizações de diversos esportes (GOMES, 2002). Seu modelo é fundamentado na teoria da
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síndrome geral da adaptação de Selye, onde a sucessão consecutiva e organizada de estímulos e recuperação tende a quebrar a homeostase corporal vigente elevando o organismo a uma condição mais apta e preparada. Tais estímulos se valem de uma utilização dinâmica de variação da carga de trabalho, seja ela retilínea, escalonada ou ondulatória, onde a dinâmica ondulatória possibilita a melhor funcionalidade e adaptação do atleta. Tais oscilações devem abranger tanto as cargas de trabalho do volume quanto da intensidade, com a particularidade de que os valores máximos de cada uma não devam coincidir em um mesmo momento da periodização (MATVEEV, 1981).
Em sua divisão programática, o modelo de cargas distribuídas caracteriza a temporada como um macrociclo - a unidade maior de organização da periodização - com o objetivo de visualizar de forma clara e concisa os objetivos e as interdependências entre as fases menores de treino. Tendo duração semestral ou anual, cada macrociclo por sua vez é dividido em mesociclos - unidades menores com duração média de 3 a 8 semanas que visam organizar e homogeneizar as capacidades trabalhadas. Os diversos mesociclos são divididos em microciclos, caracterizados pela combinação entre estímulos e recuperação. Por fim, cada microciclo é composto por sessões de treino diárias, que podem ou não ser únicas de acordo com o planejamento proposto. Ainda, organizou a estrutura do macrociclo em três fases distintas: a primeira fase tem por objetivo a aquisição das capacidades físicas necessárias para a melhoria do desempenho e posterior consolidação das mesmas, sendo intitulada como Período Preparatório; a segunda fase, denominada Período Competitivo, busca a manutenção das capacidades adquiridas, culminando no momento planejado de pico de desempenho; por fim, a terceira fase se refere à perda da forma física ótima, em um período de transição entre o final de um macrociclo e o começo de outro - sendo por isso denominada Período de Transição (MATVEEV, 1981).
O Período Preparatório é dividido em Período Preparatório Geral (PPG) e Período Preparatório Específico ou Especial (PPE). O PPG tem como função criar as bases fisiológicas, técnicas e táticas para o PPE, visando o desenvolvimento das capacidades motoras de modo geral e, no âmbito técnico-tático, incidindo na restruturação das habilidades motoras já compreendidas e/ou o aprendizado de novas ações técnicas. Por pressuposto, as magnitudes das cargas são da ordem do volume predominando sobre a intensidade, e o
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treinamento aeróbio toma grande proporção dentro dos objetivos fisiológicos diários nos micros e mesociclos iniciais da temporada.
Por sua vez, o PPE dá continuidade ao PPG na elevação da magnitude de carga do treinamento, tendo um caráter de trabalho fisiológico focado nas zonas mistas e anaeróbias. Com isso muda-se o predomínio das curvas de volume e intensidade, tendo a prevalência da intensidade sobre o volume. Ao longo do PPE objetiva-se a qualidade do trabalho em relação à quantidade, e os estímulos passam a ser cada vez mais específicos e congruentes com as distâncias e intensidades das competições. Tem-se a consolidação das mudanças técnicas iniciadas no PPG, e de modo crescente experimentam-se possibilidades táticas que possam ser treinadas e consolidadas (FORTEZA, 1999; MATVEEV, 1981). Psicologicamente, o atleta deve se preparar para suportar níveis de treino crescentes de PPG para PPE, ao mesmo tempo em que deve traçar objetivos de curto, médio e longo prazo que o motivem. Força de vontade, autoestima e foco são alguns dos constructos de suma importância trabalhados nesses períodos (SAMULSKY, 2009).
A segunda fase da organização do macrociclo recebe o nome de Período Competitivo, pois nessa fase a forma física máxima é alcançada e exigida mediante as competições alvo, situadas nesse período. Com relação às características do treino, tem-se uma grande diminuição tanto das cargas de volume como de intensidade, alternando de acordo com a modalidade esportiva, a especificidade do atleta e sua dinâmica de desempenho. Tática e tecnicamente o atleta atinge sua maestria esportiva, uma vez que as correções com relação à estratégia de prova ou grandes modificações nos movimentos técnicos já foram realizadas (FLECK, KRAEMER, 1999; FORTEZA, 1999). Psicologicamente o atleta deve encontrar-se motivado e confiante, com objetivos de desempenho conscientes e factíveis de serem exigidos. Por fim, a terceira e última fase da periodização é chamada de Período Transitório ou Período de Transição, e caracteriza-se pelo término de um macrociclo e o início do próximo (MATVEEV, 1981). Cargas de volume e intensidade são drasticamente reduzidas - senão supridas, e o atleta tem um breve período de férias. Seu organismo deve entender que este é o momento de relaxamento e recuperação, um período de destreino. O estado mental do atleta deve remetê-lo à sensação de “dever cumprido”, com uma condição emocional positiva frente às possibilidades de sucesso ou fracasso decorridas na competição alvo (WEINECK, 1999).
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Esse modelo de planificação esportiva ficou conhecido como modelo de Cargas Distribuídas, caracterizando-se pela aplicação de diferentes intensidades e estímulos durante todo o macrociclo, organizados e agrupados em determinados períodos de acordo com as necessidades da modalidade e o calendário planejado. A Figura 1 exemplifica a relação de alternância entre as cargas de volume e intensidade ao longo da temporada, uma das principais características desse modelo estrutural de Periodização.
Figura 1 - Organização das cargas de volume e intensidade no Macrociclo (adaptado de MATVEEV, 1981).
Ainda que o modelo de cargas distribuídas tenha atendido com primazia às exigências do desporto competitivo, sua estruturação também foi alvo de críticas. Especialistas da época alertaram que a fase de preparação geral preconizada por Matveev teria sentido apenas para elevar o estado global de preparação do atleta, e uma vez que o mesmo apresente anos de carreira esportiva, este estado geral já estaria elevado o suficiente a ponto de não desencadear novos processos adaptativos relevantes (WEINECK, 1999). Além disso, condenava-se a generalização das cargas de treino, o desrespeito pelas particularidades metabólicas das diferentes modalidades esportivas e principalmente a escassa possibilidade de mais picos de rendimento durante a temporada - exigência cada vez mais presente no calendário esportivo devido aos crescentes compromissos programados pelas confederações, mídia especializada e patrocinadores (GOMES, 2002; PLATONOV, FESSENKO, 2003).
volume intensidade
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