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Karina de Rezende Tavares Fleury

Não há Musa fora da alma; há experiência poética e intuição poética dentro da alma. Jacques Maritain

Marcos Tavares nasceu em Vitória, é membro da cadeira n. 15 da Aca- demia Espírito-santense de Letras, é vencedor de vários concursos literários e tem trabalhos publicados em antologias, jornais e revistas literárias de Vitória e de outros Estados. Iniciou, na UFES, os cursos de Matemática (1980) e de Economia (1982), sem, contudo, concluí-los. Em 1991, graduou-se em Letras (Carangola-MG), enquanto exercia o ofício de Auditor Fiscal de Tributos Es- taduais (SEFAZ-ES), em Dores do Rio Preto, bem na divisa ES-MG.

Ele é um dos valiosos escritores revelados em terras capixabas, nos anos 80, época em que tanto a criação da Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida como a fundação do Grupo Letra tiveram papel essencial para o enriquecimento do patrimônio cultural do Espírito Santo. Aquela porque, apesar de ser uma editora universitária, inovou ao publicar também textos ficcionais de autores que, ainda hoje, continuam a nos presentear com suas obras; este porque, fundado em 1981 pelos sete bravos companheiros: Renato Pacheco, Reinaldo Santos Neves, Oscar Gama Filho, Miguel Marvilla, Luiz Busatto, José Augusto Carvalho e Marcos Tavares, encontrou a fórmula certa para plasmar nossos escritores.

É o próprio Tavares, em “Ruminações ao redor do ovo”, texto inserido em Gemagem (TAVARES, 2005, p. 11-16) quem nos fala dos entraves, mas também das conquistas obtidas pelo Grupo:

Conseguiu-se, com esforço titânico, chegar a uma 7ª edição de revis- ta homônima, superando pessimistas previsões de que seria um “grupo natimorto”. Nas páginas da Letras desfilaram vários autores capixabas. Na primeira edição (1981) dedicaram-me amplo espaço para mostrar poemas (alguns aqui) e contos, praticamente retirando do ineditismo minha opúscula mais amadurecida (TAVARES, 2005, p. 14).

Escrito em 1980, e publicado em Gemagem (Flor&cultura), em 2005, o poema intitulado “MUNDO VERSUS PALAVRA – A má temática”, objeto deste nosso estudo, dá ao leitor um bom exemplo do cuidado que Marcos Tavares tem ao trabalhar a linguagem em seus textos em versos, e também em prosa, como se pode ver em seu livro de contos No escuro, armados (FCCA, 1987), obra que mereceu o estudo feito por Francisco Aurelio Ribeiro, em

Estudos críticos de literatura capixaba (1990, p. 67- 71).

Sobre Gemagem, o poeta Waldo Motta publicou em A Gazeta, no dia 04 de agosto de 2006, o texto “Gemagem: poesia de alto quilate”. Lá, ele afirma que “sendo esportista e ex-estudante de Matemática e de Economia, na UFES, o poeta [Marcos Tavares] incorporou em seus poemas a disciplina, as harmonias, a construção verbal, a condensação, o exercício formal, a reflexão social”, tudo o que podemos ver engenhosamente elaborado no poema metalinguístico: “MUNDO VERSUS PALAVRA – A má temática”.

Em “MUNDO VERSUS PALAVRA – A má temática”, deparamo- -nos com os mais evidentes atributos do poema do concreto: a desobrigação de acatar a norma enquanto imposição; o fazer antagônico de destruir e de re- construir a linguagem; o reconhecimento das infinitas possibilidades da língua.

Dessa forma, o poeta desestabiliza o leitor que pretende passar pelo tex- to sem se deter nos blocos negros da grafia rarefeita que “rasura” o branco da página. A impossibilidade de se fazer uma leitura rasa do poema, impulsiona,

invariavelmente, o leitor, a algumas indagações: por que um artífice da palavra contrapõe os vocábulos “MUNDO” (“WORLD”) e “PALAVRA” (“WORD”)? Não é a PALAVRA o material que dá corpo ao sentido do MUNDO tradu- zido pelo poeta? Pode a PALAVRA dar conta de traduzir esse MUNDO? Quer o MUNDO ser traduzido pela PALAVRA? Como e por que tudo isso termina, e recomeça, numa fórmula algébrica?

Como já vimos, Marcos Tavares foi estudante e, acrescento, também professor de matemática numa época em que já havia se despertado para a sua veia literária. É certo que esse dado biográfico do autor nos interessa neste caso. Contudo, para além disso, parece mais apropriado, para efeito teórico, nos respaldarmos no ensaio “Edgar Allan Poe: a poesia como matemática do impossível”, de Gilbert Chaudanne, publicado no caderno Pensar.

[...] a poesia precisa de algo que pode ser da ordem de – paradoxalmente –uma certa lógica. O poeta tem mais a ver com o matemático do que com o estereótipo do boêmio bêbado tipo Vinícius de Moraes. Há um rigor na poesia, que não é da ordem do 2 + 2 = 4, mas que pode criar uma outra lógica, onde 2 + 2 = 5. A poesia está lá onde o milagre do impossível é possível – pelo menos dentro do seu próprio círculo poético (A Gazeta, 21/07/2012, p. 4).

Muitos são os escritores que, ao lançarem mão de um certo “rigor” ou de “uma certa lógica” na arte de fazer poesia, articulam à linguagem literária a linguagem matemática. Lewis Caroll, Edgar Allan Poe, Jorge Luis Borges e João Cabral de Melo Neto são alguns deles.

Seguindo os passos desses e de outros autores, Marcos Tavares também nos faz ver que unir matemática e literatura é uma possibilidade de se explorar a po- tencialidade da literatura numa nova perspectiva. Jogando com o significado e com a sonoridade das palavras “WORLD” e “WORD” (MUNDO e PALAVRA), o poeta estabelece uma relação de oposição entre elas, representada tanto pelo “x” como pela palavra “VERSUS” que as separa na primeira parte da operação.

A tensão que se cria entre “WORLD” e “WORD” parece dizer da im- possibilidade de esta (“WORD”) traduzir aquela (“WORLD”), ou melhor, parece provocar a desestabilização do sujeito leitor para ele alcancar a fratura que há entre a linguagem e a representação do mundo. “O mundo não é só palavra./ O mundo é redondo rodando./E os homens continuam quadrados”

(TAVARES, 2005, p. 19), escreve o autor em “Re / Talhos”, outro poema de

Gemagem. Dizer o mundo requer um desvincular-se do que está posto para se

repensar a ilusão da unidade, da fixidez das coisas, do eu.

Só então será permitido entender a segunda parte do poema: “W²O²R² L D²”, em que o autor desmonta, decompõe os elementos da escrita mesclando e potencializando a PALAVRA (“WORD”). Agora, significante e significa- do unem-se numa nova lógica, numa nova ótica: o deslocamento da pala- vra (“WORD”) de seu corpo sintático óbvio recompõe outros sentidos. Mas equivoca-se quem pensa que esses novos sentidos excluem os sentimentos, as vivências que cada um traz para a hora sagrada da leitura.

As bases diferentes “W²O²R² L D²” multiplicadas entre si e agregadas ao expoente ou à potência “²” denotam a pluralidade de sujeitos, dos sentidos, dos mundos onde, mesmo que algo neste processo se repita (W.W.O.O.R.R.D.D.), nunca será o mesmo (é o nos indica a letra “L” que sobra nesta operação de que trataremos mais adiante).

A esse respeito, Francisco Aurelio Ribeiro, citando Peirce (PEIRCE, 1977 apud RIBEIRO, 1990, p. 68), nos diz que

Todo texto literário, enquanto símbolo, é uma terceiridade, que “corres- ponde à camada de inteligibilidade, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo. Em consequência, tra- ria em si um primeiro e um segundo, sendo a primeiridade a categoria que dá à experiência seu caráter factual, de luta e confronto”. É nessa dialética entre um segundo e um primeiro sentidos da linguagem e a possibilidade de um terceiro que vemos a temática recorrente na escri- tura de Marcos Tavares[...] (RIBEIRO, 1990, p. 68).

É justamente por isso que nesta terceira e última parte do poema - “(WORD)². L” -percebemos a riqueza do pensamento do poeta. O resultado dessa equação não só revela, como também amplia, o significado do fazer lite- rário de Marcos Tavares.

Com seu raciocínio lógico-poético, o autor repensa (e nos leva com ele) as formas pré-dadas de leitura; reconstrói MUNDOS, agora no plural; expres- sa o inatingível, que a PALAVRA, mesmo dando o máximo de si, por si só, não dá conta de fazê-lo; e, então, coloca em cena, o leitor, inserindo-o no sem fim e no sem volta desse permanente e revolucionário processo da linguagem.

A letra “L” que não foi potencializada na fórmula “(WORD)². L” nos dá a dimensão do poder que transita dentro e fora do branco da página. A carga semântica que este “L” possui nos permite viajar sem medo para o reino das palavras e chegar a termos tais como: Life (vida), Livro, Leitura, Letra, Lápis, Lazer, Língua, Linguagem, Liberdade, Lucidez, Literatura, Labor.

O mesmo labor de que nos fala Vitor Manuel de Aguiar e Silva, em

Teoria da Literatura, ao se referir a Paul Valéry e seu conceito de autor clássico,

que é aquele que traz dentro de si um crítico e o associa ao seu labor-, que saiba julgar, admitir ou recusar os elementos constitutivos do poema. O rigor e a consciência aliam-se assim na criação poética e Valéry figurará o poeta não como um possesso ou um vidente, mas como um eu plenamente lúcido, que as- siste vigilante à própria gestação do poema (AGUIAR E SILVA, 1969, p. 198). Mas se o poeta Marcos Tavares faz como sugere Valéry, relaciona à sua criação poética a atividade consciente do homem, também apreendeu deste a necessidade de deixar falar o dinamismo inconsciente que cada um de nós traz e aceitar as diversidades que afloram de autor para autor, de leitor para leitor e de leitura para leitura.

Como não há um instrumento que possa estabelecer com precisão as li- nhas que demarcam tais campos tão antagônicos, dada a sua subjetividade, cabe ao autor inventar seus próprios mitos, encontrar a forma de dar sentido ao mundo, revolucionar as formas e propor novas ideias, ainda que decida fazer versos sobre os acontecimentos, contrariando os ensinamentos de Drummond. Se a má temática não faz mal ao poeta, mal também não há de fazer a matemática, é o que nos fala Marcos em seu poema “Do desencanto do poemador” (TAVARES, 2005, p. 87).

Não cabe O coração No maior poema. Não cabe. A cabeça Não cabe No maior poema. Não cabe. O coração e a cabeça, Se coubessem, Talvez melhor O coração e a cabeça.

Enfim, encontrar a justa medida, a palavramundo capaz de fisgar o lei- tor, de fazer crescer nele o desejo de extrapolar os limites da palavra escrita e de fazer proliferar as ideias para além dos versos acima ou dos versos abaixo é projeto que Marcos Tavares realiza com primor de quem segue escrevivendo palavras e mundos em nós. Afinal, “que glória maior, para um modesto Autor, do que ser lido? ‘Ser lido é lindo’ [...]. Que os poemas falem por si – por mim e, mui prezado leitor, para ti, para ti, para ti” (TAVARES, 2005, p. 16).

Referências

AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da Literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1969.

AZEVEDO, Thelma Maria. Dicionário de poetas capixabas. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, 2011, p. 223-224.

CHAUDANNE, Gilbert. Edgar Allan Poe: a poesia como matemática do impossível. A Gazeta, caderno Pensar, 21/07/2012, p. 4.

GAMA FILHO, Oscar. Carta de Oscar Gama Filho ao escritor Assis Brasil (trecho). Disponível em: <http://www.estacaocapixaba.com.br/temas/depoi- mentos/carta-de-oscar-gama-filho-ao-escritor-assis-brasil/>. Acesso em: 18 ago. 2012.

RIBEIRO, Francisco Aurelio. Estudos críticos de literatura capixaba. Vitória: FCCA, 1990, p. 67- 71.

TAVARES, Marcos. Mundo versus palavra – A má temática. Gemagem. Vitó- ria: Flor&cultura, 2005, p. 82.

“tristÍssimo prÍncipe Dos tristes”:

aUsÊncia e Desencanto em YÙ,

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