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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 99-103)

Já na metade do século XVII, com o surgimento de publicações denominadas de 'newsbooks' oferecendo conteúdos noticiosos, oficiais e entretenimento, práticas econômicas voltadas para o lucro e a concorrência começavam a ser percebidas em países como a Inglaterra. A competição não se dava exatamente entre empresas jornalísticas, mas entre gráficas. Da mesma forma, a mensuração da possibilidade de lucro não podia ser feita apenas considerando a situação econômica de uma publicação particular, mas sim

9 É comum perceber na literatura econômica que a competitividade em mercados é uma questão de grau,

recorte, tipo de produto e alcance geográfico dos mercados em que as mercadorias são produzidas e circulam, bem como das relações entre o mercado e a capacidade produtiva e financeira das empresas. Uma análise das relações de competitividade depende então dos fatores a serem escolhidos e observados pelo pesquisador.

100 considerando a concorrência entre impressores. Um fator que facilitava a publicação de 'newsbooks' era que sua produção realizava-se com maior flexibilidade e improvisação em comparação com publicações de maior prestígio, como os livros clássicos, tornando-se assim mais barata e, provavelmente, lucrativa (Raymond, 1996: 236-237).

Interessante perceber que uma variedade de situações incipientes e diversas na produção de jornais entre os séculos XVII a XIX constituíram os condicionantes que orientariam a produção industrial posteriormente e a constituição de relações econômicas estabilizadas, como as demandas do público, os custos com mão-de-obra e matéria-prima e seus efeitos sobre o produto e a circulação.

Um exemplo disso foi a queda no valor do papel de impressão de jornais e suas conseqüências para o rápido aumento da circulação de jornais ingleses nas décadas de 1850 a 1860. Lucy Brown considera que foi esta queda de custos que sustentou o desenvolvimento de um jornal com preços baixos. Em locais onde não havia redução dos preços dos jornais, o barateamento dos custos abria variadas oportunidades: crescimento do tamanho sem aumentar o preço; expansão da cobertura de notícias; redução de dependência de anunciantes; adoção de um layout mais leve, menos abarrotado de textos (Brown, 1985: 13).

Brown diagnostica que o crescimento da circulação se deve principalmente à queda no preço: "In the last thirty years of the century the fall in the price of newsprint was

greater than the fall, say, in the prices of wheat or coal (...) ...a daily paper (...) could now be got for a halfpenny" (1985: 31). Um jornal custando meio centavo podia almejar conquistar um mercado realmente amplo.

Um fator temporal diretamente ligado à aceleração da produção e acirramento da concorrência era a definição da freqüência de impressão e circulação do jornal. A periodicidade era determinada tanto por limitações e possibilidades tecnológicas (já discutidas), quanto por fatores econômicos de distribuição e mercado. Historicamente, a primeira periodicidade a se configurar como tipicamente jornalística no mercado foi a semanal: a maioria dos jornais do início do século XVII era impressa uma vez por semana na Europa.

Esses jornais semanais dependiam deste intervalo de tempo para montar cada página, um processo lento e normalmente afetado por erros diversos. Alguns jornais circulavam aos sábados, por exemplo, enquanto outros às segundas-feiras, já buscando atualizar o conteúdo jornalístico com eventos ocorridos no final de semana. Mesmo com o início da produção de jornais com três edições semanais, os jornais com edição única na

101 semana perduraram durante o século, pois utilizavam, como estratégia de concorrência, a impressão de um maior número de páginas (seis páginas, contra duas dos jornais tri- semanais) (Sutherland, 1986: 227).

Tal intervalo semanal entre edições foi se reduzindo gradativamente durante o período: no final do mesmo século, 64% dos jornais alemães já circulavam duas vezes por semana, e outros 7% tinham três ou mais edições por semana (Popkin, 1989: 6). Mesmo assim, a periodicidade diária (o principal marcador da temporalidade jornalística de circulação) somente foi alcançada no século seguinte, começando com o Daily Courant in 1703 (Raymond, 1996: 15)10. No caso norte-americano, os dois primeiros jornais diários surgiram em 1784 (The Pennsylvania Packet and Daily Advertiser e The South Carolina

Gazette and General Advertiser), e o terceiro no ano seguinte, em New York (The New

York Daily Advertiser) (Lee, 1923: 118-120). As amplas e complexas relações que a periodicidade diária dos jornais introduz nas sociedades serão tratadas posteriormente.

A circulação dos jornais produziu também uma relação temporal específica conforme a período do dia em que iam para as ruas. O surgimento regular de jornais matutinos e vespertinos foi uma adequação tanto a hábitos dos leitores quanto ao acirramento da concorrência pela possibilidade de levar ao público notícias mais recentes. Por outro lado, os jornais vespertinos tinham uma vantagem comparativa sobre os matutinos em relação à rotina de produção: tinham mais tempo para dispor racional e organizadamente as notícias nas páginas, já que parte do conteúdo era retirado dos matutinos.

O crescimento dos jornais vespertinos foi uma das inovações do mercado de jornais diários no final do século XIX. Na Inglaterra, enquanto o crescimento dos jornais matutinos foi moderado entre 1872 a 1892 nas províncias (de 69 para 74), os jornais vespertinos saltaram de 22 para 85. Mesmo assim, isso não levou a uma posterior derrocada dos jornais matutinos, pois estes pareciam estar suficientemente bem estabelecidos para inibir a expansão dos vespertinos (Brown, 1985: 33-36).

A dinâmica do ritmo diário de vida nas grandes cidades, por sua vez, contaminou os jornais de tal forma que mesmo a existência de duas circulações diárias não inibia o recurso à edição 'extra' durante o dia quando fosse necessário e conveniente. Blondheim considera que a emergência do 'extra' por volta de 1840 em New York foi facilitada por inovações nos serviços de distribuição: os jornais de maior circulação já possuíam uma

102 rede de meninos vendedores ('newsboys') pelas ruas durante todo o dia, e sua estrutura de impressão estava estruturada para imprimir um grande volume de jornais em um tempo mínimo (1994: 23).

Conforme o autor, uma edição extra podia tanto desatualizar o jornal concorrente quanto dar prestígio ao próprio jornal. No conjunto, tal movimento contribuiu para incentivar a 'velocidade' como um ritmo de produção de notícias:

"Coming out with an extra was prestigious, because it implied a news beat;

and it was remunerative, because it sold additional newspapers - many thousands in the case of important news. Besides, if exclusive, an extra could frustrate and damage competitors, since it made the regular morning editions still on sale on street corners as obsolete as 'yesterday's news'. The possibility of publishing an extra provided editors with and added incentive to speed the news; now every hour could produce a news coup, rather than the full twenty-four hours between editions, as had previously been the case" (Blondheim, 1994: 23).

O autor constata que as edições extras se tornaram tão comuns no período que praticamente se institucionalizaram como edições tardias semi-regulares. A corrida por notícias era, por si mesma, uma 'boa estória'. Os leitores eram "...bombarded more and

more frequently with breaking news stories in extra editions, with the result that the public received ever more timely information". Em conseqüência, ficavam fascinados e provocados pela velocidade e novos recursos introduzidos na disputa por notícias mais recentes (1994: 23-24).

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