Part III Scattering from microstate geometries and application to AdS/CFT 145
9.3 Excitations of asymptotically AdS 2 Superstrata
10.1.3 The WKB hybrid technique
Para Silva (2000) e Santos e Oliveira (2002), o cenário sócio-econômico que se sucedeu ao período recessivo da década de 1980 promoveu impactos negativos no contexto das áreas rurais e urbanas do Brasil. Impactos que, posso afirmar, contribuíram para a destruição da idéia de que a cidade é o lugar privilegiado e gerador de oportunidades de trabalho. A precarização do trabalho, o aumento das taxas de desemprego e a crescente pauperização das populações das áreas urbanas e rurais fez o país assistir as migrações intra e inter-regionais como estratégias de busca por melhores condições de vida.
Os movimentos migratórios regionais instalaram nas cidades contingentes populacionais que buscavam melhorias em suas condições de vida, oportunidades de emprego, melhor acesso aos serviços básicos de saúde e educação, além de habitação. No entanto, ao chegarem à cidade, se depararam com uma crise urbana que limitou as possibilidades de construir e realizar seus projetos humanos, restando-lhes a condição de excluídos ou formas de inserção perversa no contexto urbano.
Ainda segundo Santos e Oliveira (2002) aqueles que chegavam a Maceió, encontravam uma cidade amparada economicamente pelo setor industrial, composto de indústrias químicas, de produtos alimentícios e da construção civil. Criou-se, então, uma massa de sujeitos sem qualificação para o mercado de trabalho da capital, aumentando o número dos excluídos, habitando e construindo novas favelas. O maior número deste contingente deslocou-se para o setor informal, desenvolvendo funções de empregados domésticos, serviços gerais, biscateiros,
entre outras, ou ingressaram na mendicância, aumentando as populações de rua (Santos e Oliveira, 2002).
A fixação das famílias e a conseqüente formação da Favela do Lixão ou Vila Emater
II* são reflexos da falta de moradia que experimentaram seus primeiros habitantes e do impacto da precarização da oferta de trabalho experimentado na cidade.
Desde a origem, aqueles que no futuro instalaram-se nestas comunidades foram atraídos pela ilusão de que, na Capital, teriam melhores condições de vida. Aqui chegando, depararam-se com condições degradantes de habitação e com o trabalho de catação como única alternativa de renda. Dos moradores da Vila Emater II, 81% afirmam ter deixado seus lugares de origens fugindo do desemprego, 13% afirmam a falta de oportunidades de trabalho (Santos & Oliveira, 2002).
No interior do Estado, estas pessoas estavam direta ou indiretamente envolvidas com o setor agrícola (Silva, 2000; Santos e Oliveira, 2002), trabalhando na cultura da cana-de-açúcar e do fumo dentre outras, também envolvidas na agricultura de subsistência.
A catação do lixo surgiu como uma destas atividades que absorveu parcela dos excluídos, mas reatando um laço de identidade comum a todos eles: as origens na pobreza do interior do Estado e de outros estados, a informalidade do trabalho na capital, constituindo-se como atividade situada “no limite entre a informalidade e a marginalidade, sendo considerada
socialmente, inclusive por aqueles que nela atuam, como a última alternativa dentre as possíveis para a obtenção de renda e para a garantia de sobrevivência” (Silva, 2000, p. 79).
* Como se referem os moradores ao seu assentamento, como se este fosse uma extensão da Vila Emater I que está situada na base da encosta e próxima do prédio da Emater em Maceió.
O catador passa a ser o agente fundamental da cadeia produtiva do lixo, mais especificamente do processo informal de coleta, segregação e reciclagem dos recursos do depósito de lixo. As condições em que o trabalho se realiza é envolvida de resíduos perigosos provenientes das indústrias e dos serviços de saúde, sem estarem protegidos por equipamentos adequados. O descarregamento do lixo pelos caminhões coletores traz material compactado que dificulta o acesso aos recursos.
Mas a atividade dos catadores é parte de uma rede de negócios que sustenta uma já estabelecida “cadeia produtiva do lixo” onde o controle final vem determinado pela indústria. Entre os dois polos (catador e indústria), encontra-se o atravessador que, cotidianamente, ocupa o lugar de comerciante do lixo. A rede de negócio da reciclagem do lixo e o Poder Público encontram-se em visível ligação onde a demanda da indústria é alimentada pela permissividade da administração pública, que silencia diante da informalidade do trabalho dos catadores, da insalubridade do trabalho cotidiano, da exploração da mão-de-obra dos catadores.
É evidente que esta gestão do lixo urbano só contribui para a desqualificação profissional destes trabalhadores ao não reconhecê-los em sua participação legítima no processo produtivo da reciclagem. O processo econômico estabelecido assume preocupações com o desperdício e a reciclagem dos materiais, mas silencia diante do trabalho das populações humanas ocupadas nesta atividade.
1.1- Uma descrição do contexto.
No bairro de Cruz das Almas, litoral norte de Maceió, nas proximidades de uma praia com o mesmo nome, encontra-se instalado o depósito de lixo municipal conhecido também como Lixão de Cruz das Almas ou Lixão da COBEL (antiga denominação da instituição que se ocupa
da coleta, beneficiamento e industrialização do lixo), hoje sob a denominação de Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (SLUM). O depósito está instalado desde 1967, na parte superior de uma encosta próxima à rodovia AL – 101 Norte.
Na área, encontram-se duas populações distintas que se instalaram em momentos diferentes na localidade. Uma mais antiga, na base da encosta, próxima à pista de tráfego de veículos, tendo mais de dez anos de existência conhecida como Vila Emater I, com moradores que habitam casas predominantemente de alvenaria.
Outro assentamento, de ocupação mais recente, situado em frente ao portão dos fundos do depósito de lixo, no alto da encosta e com mais de oito anos de existência. Esta outra população compõe a Favela do Lixão ou Vila Emater II, como é denominada por seus moradores (Santos e Oliveira, 2002). Segundo estas pesquisadoras, na Vila Emater II apenas 7% das casas são de alvenaria, nelas estão instaladas 175 famílias, compostas por 755 moradores, dos quais 260 são crianças com idades entre 0 e 10 anos.
Para ter acesso ao lixão, tem-se o portão principal por onde veículos transportam as cargas de resíduos e trabalhadores para as atividades de manejo dos recursos lá existentes. Outro acesso é o portão dos fundos no alto da encosta, este tendo a comunidade da Vila Emater II como sua vizinha mais imediata. Neste encontro diário, moradores e depósito de lixo estabelecem relações de manejo de recursos e força de trabalho dirigida ao consumo dos seus recursos para suas sobrevivências e comércio de reciclagem.
A maior parte dos moradores da Vila Emater II tem origem no interior do Estado. Entre eles, 96% sobrevivem do lixo, onde 79% estão inseridos na atividade de catação de materiais recicláveis (Santos e Oliveira, 2002). Das 1000 toneladas de resíduos que chegam
diariamente ao depósito, 574 toneladas são compostas de lixo domiciliar e, deste, 160 toneladas constituem-se de materiais recicláveis (Silva, 2000).
Este fato atrai a população para seus recursos, fixando-as na atividade de coleta destes materiais, nos permitindo estabelecer que, a relação entre a natureza do trabalho (reciclagem do lixo) e a geração de renda (a partir da venda do lixo) coloca em cena sua situação de vulnerabilidade e degradação humana, despertando em nós o interesse em investigar a produção de suas subjetividades.
A degradação humana observada, especialmente na comunidade do alto do morro, alimentada pelo lixo urbano, configura-se em vetores que se relacionam numa díade de vida e morte. De extração e consumo direto do lixo, de venda, de reciclagem dos recursos, fazendo dos sujeitos que moram nas proximidades do depósito, praticantes de ações cotidianas que fazem suas sobrevivências. Para Silva (2000, p.38) a atividade de catação “é um exemplo de estratégia de sobrevivência que subverte padrões culturais que rejeitam qualquer relação com o lixo e, nesse caso, essa subversão tem uma motivação clara: a satisfação de necessidades básicas”.
O espaço, enquanto localidade que abriga o sujeito (neste estudo, a área do lixão) será o território da degradação ambiental, continente da vulnerabilidade e do risco, que se apresentam como significantes no cotidiano de vida destas populações.
1.2 – A formulação do problema de pesquisa e a definição de uma perspectiva de análise.
Assim, considerando então o lugar ambientalmente degradado em que estão, nos perguntamos: qual o impacto ético em sujeitos humanos estarem submetidos à vulnerabilidade de um ambiente que, degradado, promove a degradação de suas existências?
De que modo a vulnerabilidade em que se situam estas comunidades apresentava-se como impedimento à construção de estratégias sustentáveis de uma vida digna destes grupos?
Para tanto optamos por observar as trajetórias de vida dos catadores marcadas por diferentes experiências de desvinculação até a sua chegada à cidade de Maceió e ao entorno do depósito de lixo, restabelecendo novas formas de sociabilidade, criando novas identidades (individuais e coletivas) na periferia do contexto urbano. Para tanto, as trajetórias de vida tornam- se, em sua narratividade, material empírico de análise.
Desenham-se, portanto, trajetórias de vida afetivamente implicadas pela dialética
exclusão/inclusão social e pelas significações das novas relações intersubjetivas travadas no cotidiano de degradação e subalternidade.
Para compreender a condição do sujeito e o processo de exclusão que se apresenta pela degradação sócioambiental faz-se uma opção por uma perspectiva ético-política (Sawaia, 1999). Neste caminho, recupera-se o sujeito como questão empírica, buscando compreender a significação que este confere às diversas relações que trava no cotidiano.
Nesta perspectiva, considera-se que as relações por ele estabelecidas, as vivências e as suas significações são produzidas em intersubjetividades, portanto não falamos de um sujeito refratário às condições materiais ou a presença e convivência dos outros sujeitos.
Por ser ético-político recupera-se a ordem dos valores, o tema da humanidade que faz retornar no sujeito o laço da comunhão e a retomada da dimensão pública da condição humana, portanto da política, numa alusão ao pensamento de Arendt (1997).
O sujeito e o genérico humano (Heller, 1997) que o atravessa é aqui acessado através da afetividade que está implicada nas relações intersubjetivas, portanto presente e na base das
significações, e pelo sofrimento ético-político (Sawaia, 1999), que traduz a dor sentida na degradação e na tentativa de libertar-se.
É a partir deste novo foco de análise que esta investigação associa à sustentabilidade como paradigma de desenvolvimento urbano, a existência de sujeitos e grupos na produção e gestão do espaço urbano e o modo de inserção que os integra, acreditamos, fundado numa lógica de inclusão social perversa (Martins, 1997).
Pois consideramos que exclusão e inclusão não são categorias isoladas, que o mesmo par exclusão/inclusão pode ser desdobrado em formas de inclusão perversa e exclusão
integrativa (Martins, 1997), regidas por elementos de desigualdade tais que se faz necessário
examinar os processos cotidianos que regem sua produção e emergência. Formas de exclusão se travestem de inclusão como recurso para incluir em áreas, setores, espaços e significações, tipos humanos desnecessários, como rejeito da própria sociedade.
Cabe então desvelar os elementos subjetivos que sustentam no cotidiano a vivência da exclusão, então elegemos a afetividade que também se colore pelo sofrimento ético-político, refletindo a experiência da integração na cidade capitalista, que admite a desigualdade como questão de oportunidade e qualificação, mas a condena do ponto de vista da justiça social (Nascimento, 2001). O que determina que a vivência da inclusão se realize mediante a experiência da humilhação, da significação social negativa, da degradação, como experiência coletiva de sofrimento e inferioridade subjetiva.
Por fim, este estudo teve como objetivos conhecer e analisar as significações que se configuravam no cotidiano de vida dos sujeitos inseridos na atividade produtiva da reciclagem, com ênfase inicial na significação do trabalho e do cotidiano e que, ao longo do processo de pesquisa, pôde-se observar a emergência da identidade, da afetividade e da política, enquanto
elementos que participavam da constituição de um novo estatuto para o sujeito humano. Categorias entrelaçadas, reconhecidas com a análise de complexos processos de significação.