Identificou-se que no momento em que se deu o processo de reestruturação dos cursos profissionalizantes (início dos anos 2000) surgiram também os projetos pedagógicos que buscaram promover a integração desse currículo moldado na lógica das competên- cias. Esse projeto pedagógico se consolidou na oferta da disciplina “Projeto Integrador”, que se desenvolveu no sentido de explorar a prática pedagógica por projetos. No entanto, foi possível compreender que o debate acerca do ensino por competências foi um dos funda- mentos para a criação desta disciplina. Mas, ao mesmo tempo, essa proposta disciplinar possibilitou o desenvolvimento de um trabalho que contribuiu para a interação entre alunos e professores, a interação entre diferentes assuntos e temas estudados ao longo do curso.
Importante ressaltar que processos de ensino que buscavam promover a interdisciplinaridade e a integração curricular já eram trabalhados no IFSC há muito tempo, antes deste processo de rees- truturação curricular que se instalou no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 e que introduziram de forma definitiva os conceitos de interdisciplinaridade nos currículos dos cursos técnicos. Conforme mostraram os depoimentos dos professores P1 - São José, é possível identificar trabalhos com essa perspectiva interdisciplinar já em 1993; e também no relato da professora P1 – Florianópolis, que identificou esse movimento anterior aos cursos técnicos pós-médios, no qual se desenvolviam atividades interdisciplinares para o Ensino Médio.
[…] Já existia na nossa instituição uma experiência do projeto
integrador no ensino médio, quem começou na nossa instituição com o projeto integrador foi o pessoal do ensino médio, com a professora de história, professora de inglês, professora de artes. […]
O primeiro momento do projeto integrador foi delas, tanto que elas foram pra alguns lugares no Brasil mostrar esta experiência, elas foram selecionadas e depois continuou isso e foi vista na reforma, na construção curricular dos cursos novos, dos subsequentes.
(PROFESSORA P1 - Florianópolis, 2011).
[…] Em 1993 eles já trabalhavam na França com essa questão
de competência, aprendizagem por ensino de competência. Daí mudou o ministro acabou o Governo Itamar Franco então entrou Fernando Henrique dentro da escola uma da coisa a gente tinha que fazer multiplicar as ideias, que eu organizei junto com o Sergio aqui em São José mais fortemente assim, foram feitas varias atividades, apresentações do que a gente viu leitura de estudo, na época a Nilva estava aqui com a gente, ela ficou muito parceira minha nessa discussão e a gente tentou trabalhar em cima dos nossos currículos, mas na época era muito difícil. (PROFESSOR P4 - São José, 2011).
Ainda nesse aspecto é interessante atentar para os estudos de Zan (2005), sinalizando que a construção da concepção de currículo por projetos surgiu em diferentes momentos da história, e nessa tra- jetória temporal a autora mostra que diversos autores propuseram estudos diferentes, fazendo referencia à articulação entre o conheci- mento escolar e as questões da vida cotidiana. (ZAN, 2005).
Os currículos do IFSC se reestruturaram a partir das deman- das do ensino por competências amplamente difundido no Brasil nos anos 2000. Essa concepção de ensino impactou fortemente a reorganização dos currículos brasileiros. Observou-se ainda neste estudo que as disciplinas das matrizes curriculares dos cursos técni- cos profissionalizantes foram reescritas no conceito de competên- cias e desde então trazem, em suas ementas, objetivos que visam o desenvolvimento e alcance de determinadas habilidades e compe- tências voltadas para o mundo do trabalho. Nessa nova perspectiva, a das competências, o processo de ensino busca trabalhar os conte- údos previstos para cada disciplina através do uso prático da ciência que essa disciplina aborda. Conforme Lopes e Macedo (2008), Frigotto (2002) e Ramos (2003), esse modelo de ensino se baliza na construção de conhecimentos através do ensino por objetivos, trabalhando algum saber ou um conjunto de saberes que possibilite atingir determinada(s) competência(s) relacionada(s) com o sistema produtivo.
Constatou-se através dos depoimentos dos entrevistados que esse processo de reestrutura curricular nos moldes do ensino por com- petências foi desencadeado por um programa de governo neoliberal que, de certo modo, objetivava baratear os cursos profissionalizan- tes e alinhá-los para o mercado de trabalho, o que, por muitas vezes, aligeirava a formação de mão-de-obra profissional. E segundo pesqui- sa de campo e bibliográfica, ficou identificado que os processos de sec- cionamento e reestruturação dos cursos técnicos se deram por meio de muita resistência interna nas escolas. Essa resistência não se fazia somente quanto à proposta de separação entre o ensino profissiona- lizante e o Ensino Médio, mas também quanto à mudança pedagógica que se propunham para o processo de ensino e aprendizagem desen- volvido até então. Além disso, as ações governamentais para tal propo- situra foi efetivada de forma muito dolorosa para muitos professores e gestores, pois elas se deram num contexto de redução dos inves- timentos em educação profissional. Além disso, o processo se deu de forma impactante tanto no que se refere à velocidade de sua implementação quanto ao que se refere a pouca clareza acerca do que se entende por pedagogia de competências, sobre o qual o governo discursava e, através de imposições legais, ditava como o leme a ser seguido para as escolas técnicas federais profissionalizantes.
Outra questão importante evidenciada neste trabalho é a fal- ta de concepção comum que os profissionais de Educação do IFSC têm em relação aos conceitos e metodologias trabalhadas nesse proces- so de ensino por competências. A pesquisa de campo não identificou concepção comum entre o grupo de profissionais da Educação no IFSC com relação às questões desses termos, mesmo passados quase quinze anos do início das primeiras discussões a respeito dessa modalidade de ensino nos três câmpus mais antigos do IFSC (Florianópolis, São José e Jaraguá do Sul). Esses câmpus vivenciaram esse processo de mudan- ça e construção de currículos nessa concepção. Recentemente foram instaladas quatorze novas escolas do IFSC: Araranguá, Florianópolis Continente, Joinville e Chapecó, em 2006 e Caçador, Canoinhas, Criciúma, Gaspar, Geraldo Werninghaus, Lages, Itajaí, São Miguel do Oeste, Urupema e Xanxerê, a partir de 2010. Essas escolas inaugura- ram seus cursos nesse mesmo modelo. Nesse sentido, entendemos ser necessária a continuidade das pesquisas que busquem evidenciar de que forma essas novas unidades têm se articulado e organizado seus currículos.
REFERÊNCIAS
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______. Educação e a Crise do Capitalismo Real. São Paulo, Cortez Editora,
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ROSA, Maria Inês Petrucci. Professor(a) de... – fragmentos de identidades nos campos disciplinares. Trabalho apresentado como pôster na 29ª.
Reunião Anual da ANPEd, Caxambu, MG, disponível em <http://www.anped. org.br/reunioes/29ra/ 29portal.htm, 2007>.
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