No cotidiano do cuidado na atenção básica, é fundamental que o enfermei- ro conheça o processo vivenciado pelas mulheres para que possam atuar.
Palavra do profissional
Você sabia que a gestação de alto risco representa 10 a 20% de todas as gravidezes, tendo por consequência mais da metade de todas as mortes fetais e neonatais? (KEMP; HATMAKER, 1989; ZAMPIERI, 2001b). É um percentual significativo que necessita um atendimento qualificado.
Fique atento, agestação de alto riscocompreende qualquer gravidez, na qual mãe e/ou feto apresentem alterações ou fatores de risco que predis- ponham a um aumento de risco de morbidade e mortalidade para o bi- nômio ou para um deles, se estendendo inclusive ao lactente durante o processo neonatal, segundo Benson (BENSON, 1991; ZAMPIERI, 1998).
Você deve estar se perguntando: mas como se dá a vivência da gestação de alto risco e como lidar com isso quando fazemos a visita domiciliar? Segundo Zampieri (2001b), a vivência da gestação de alto risco caracteriza-se por um processo complexo, dinâmico e diversificado individual e socialmente. É uma experiência única que se estende ao companheiro, família e sociedade que envolve grandes transformações e adaptações físicas, psicossociais, econômicas, espirituais, e mudanças de papéis, não se desvinculando dos aspectos existenciais de qualquer ser humano. É uma experiência estressante que repercute em todo o contexto familiar em razão dos riscos a que estão submetidos o feto e a mãe, que interrompem o curso normal da gravidez.
Nesse processo, a mulher grávida apresenta sentimentos como o temor pela sobrevivência do filho e pela própria vida; o distanciamento do bebê e tudo relacionado a ele e ao nascimento, com o intuito de evitar o sofri- mento; a culpa por não conseguir levar gravidez de forma normal, além da falta de controle da gestação, de suas necessidades e do corpo (WHITE; RICTCHIE, 1984; LOOS; JULIUS, 1989; KEMP; PAGE, 1993; CLAUSON, 1996; SCHROEDER, 1996; ZAMPIERI, 1998, 2001b; LEICHTENTRITT et al., 2005). Observe que o repouso e, por vezes, a internação hospitalar, indicados para tratar a gestante de alto risco, podem contribuir para aumentar a crise e estresse vividos por ela e familiares, gerando alterações pessoais e no ritmo familiar. Destacam-se, dentre elas, as seguintes:
• o afastamento da mulher do seu domicílio, dos familiares, das ativida- des profissionais e domésticas, bem como, as adaptações da gestante ao novo ambiente, às condutas hospitalares, aos hábitos culturais. Além dessas, ainda existem alterações emocionais como solidão, ansieda- de, tédio, depressão e medo; sentimentos ambivalentes em relação à gra- videz; sobrecarga de funções para alguns familiares, normalmente para o marido, que passa a assumir o cuidado com os filhos e com a casa e au- mento dos custos financeiros (WHITE; RICTCHIE, 1984; LOOS; JULIUS, 1989; HEAMAN, 1992; KEMP; PAGE, 1993; CLAUSON, 1996; MALONI; PONDER, 1997; MCCAIN; DEATRICK, 1994; ZAMPIERI, 1998; OLIVEIRA, 2008; MALO- NI; PARK, 2005; LEICHTENTRITT et al., 2005). Para a família, gera ansieda- de, dificuldade para assumir as responsabilidades da mulher, preocupação com a saúde do binômio e dificuldades financeiras (MALONI; BREZINSKI- -TOMASI; JOHNSON, 2001).
A conduta terapêutica comumente adotada e aceita para tratamento das intercorrências na gravidez de alto risco, como o repouso relativo e total no hospital, podem gerar nas gestantes alguns efeitos que incluem:
• os problemas psicológicos decorrentes do isolamento e confinamen- to hospitalar;
• alterações circulatórias e musculares;
• diminuição de energia, de capacidade mental e de concentração;
• alterações do sono, tensão;
• exaustão;
• perda de peso;
• reações emocionais como choque, confusão, solidão, ansiedade, de- pressão, mudanças de humor e indisposição, que podem se estender ao pós-parto (KEMP; HATMAKER, 1989; MALONI, 1994; ZAMPIERI, 1998; GUPTON; HEAMAN, 1997; MALONI; KUTIL, 2000).
Apesar das várias complicações decorrentes do repouso, este ainda é reco- mendado em algumas situações em função dos benefícios trazidos ao RN. No entanto, de acordo com Sprague (2004) e Zampieri (1998),impõe-se a ne- cessidade de pesquisas na área médica e de enfermagem que evidenciem cientificamente o seu uso e o tempo de permanência em repouso adequado. Para amenizar esses efeitos negativos, uma alternativa poderia ser o aten- dimento domiciliar, com cuidados semelhantes ao do hospital, personali- zados, de acordo com a realidade da paciente, estimulando a solidariedade, o suporte familiar e maior participação da mulher. No entanto, tal questão ainda precisa de maior aprofundamento. É uma realidade internacional,
mas implica em maiores custos e capacitação dos profissionais e, sobretu- do, uma nova forma de assistir e dar apoio à gestante de alto risco (ZAM- PIERI, 1998).
O atendimento domiciliar necessita da aceitação e disponibilidade da fa- mília, exige profissional capacitado e treinado, recursos materiais e finan- ceiros e disponibilidade de tempo, demandando racionalização de serviços, para que haja um equilíbrio entre o custo e benefício (ZAMPIERI, 1998). Para Maloni (1994),por meio do atendimento domiciliar pode-se fornecer um cuidado compreensivo, holístico, centrado na paciente e na família, diminuindo o estresse proveniente do afastamento da gestante do convívio familiar e do seu contexto sociocultural.
A visita domiciliar realizada pela equipe da saúde da família, nos momen- tos em que está em casa, é suporte fundamental, mantém o vínculo entre os profissionais da unidade, a gestante e os familiares.
Considerando a complexidade que envolve a gravidez de alto risco, outro pon- to importante a se considerar é que essa não pode ser encarada apenas do ponto de vista biológico e limitar-se apenas à visão de um profissional, sendo importante o trabalho interdisciplinar e multidimensional. A complementa- ridade de ações dos profissionais, convergindo esforços e diferenças possibi- litam alcançar de forma mais eficaz o atendimento integral à gestante e aos familiares, minimizando os riscos e propiciando um melhor prognóstico.
Torna-se importante que haja compreensão por parte dos profissionais, das múltiplas facetas e dimensões que envolvem a gestação de alto risco, para que estes fiquem atentos e deem suporte à mulher, não só nas situações de risco e efeitos da hospitalização, mas também no processo da gravidez e aspectos existenciais que vivencia (ZAMPIERI, 2001b).
Além disso, é importante também pensar sobre o suporte emocional e até financeiro aos familiares e, de forma conjunta, buscar soluções e fa- zer encaminhamentos. Nesse processo, segundo Leichtentritt et al. (2005), impõe-se um atendimento personalizado e interdisciplinar, a inclusão da família e atendimento de suas ansiedades, a demonstração de interesse real em relação às necessidades da mulher e da família e, a necessidade de oportunizar atividades para diminuir o tédio.
Saiba mais
ZAMPIERI, M. F. M.; SILVA, A. L. Vivenciando o processo educativo em enfermagem com gestantes de alto risco e seus acompanhantes. 1998. 179 f. Dissertação (Mestrado em
Enfermagem) - Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1998.