DE REFORMA AGRÁRIA
3.1 O ARQUITETO E URBANISTA
CONCEITO
Em um dos seus principais textos “Bauhaus: Novaquitetura”, no contexto de seus ideais sobre a Bauhaus, Walter Gropius (1972) disserta acerca do profissional arquiteto e urbanista, buscando sempre fazer um paralelo com a prática da arquitetura. Apresenta-o como sendo um coordenador nato que, dentre seus principais papéis, deve buscar solucionar de maneira harmônica os diversos problemas – no âmbito técnico, econômico, social e artístico – que porventura venham a acontecer dentro da construção. Vale salientar que seus escritos se inserem no contexto político, social e econômico da primeira metade do século XX, onde se processa o conflito entre o capitalismo e as classes operárias e a decadência das relações comunitárias, ao mesmo tempo em que acontece o desenvolvimento da padronização e a pré- fabricação. Na construção civil este contexto rebate na separação entre projeto e execução.
Nas grandes épocas do passado, o arquiteto era o mestre-canteiro ou mestre de uma ‘guilda de construção’ e desempenhava importante papel no processo de conjunto de produção do seu tempo. Mas com a transformação do artesanato em indústria, tornam necessária a revisão (GROPIUS, 1972, p. 120).
Na pesquisa realizada por Carvalho (1986) sobre o Papel Social do Arquiteto, a pesquisadora afirma que o profissional arquiteto e urbanista detém grande parcela da responsabilidade na criação dos espaços destinados ao desempenho das atividades do homem e na organização da produção deste espaço (CARVALHO, 1986, p. 203).
Para Cláudio Forte Maiolino (1997) o arquiteto e urbanista possui uma função ampla. Deve realmente preceder e coordenar uma parcela considerável das atividades humanas, sendo os responsáveis pela elaboração do projeto arquitetônico, bem como pela coordenação dos demais profissionais envolvidos nesta prática e ainda pela execução do seu projeto.
Na definição concebida por Paulo Bicca (1984) percebe-se uma constante referência à oposição entre concepção e construção, que finda por se rebater na divisão social do trabalho entre os arquitetos e urbanistas e os trabalhadores braçais que atuam na construção civil. Os
primeiros sempre responsáveis pelo trabalho intelectual e de concepção, que antecede e é necessariamente separado do trabalho manual, o qual fica a cargo dos operários da construção
O arquiteto – independentemente da sua maneira de pensar – só existe na condição de opor-se a todos aqueles que, na produção da arquitetura, realizam o trabalho manual. Nessas circunstancias estabelece-se uma rígida divisão entre o trabalho de concepção e controle, de um lado, e o trabalho de execução, de outro. (...) O arquiteto, já dizia São Tomás Aquino, concebe a forma do edifico sem manipular ele próprio a matéria (BICCA, 1984, p. 19).
Para este autor, o arquiteto e urbanista será o dominador, detentor do conhecimento intelectual e científico, que se impõe e se sobressai em relação aos trabalhadores braçais, que apenas cumprem suas determinações, muitas vezes nem entendendo o que executam. Contudo, sem eles, as criações dos arquitetos e urbanistas não existiriam.
Assim, pois, se ao longo de sua secular existência o arquiteto, sempre atrelado à trilogia de Vitruvio, foi capaz de propor toda a sorte de arquitetura distintas, do ponto de vista estético, funcional e construtivo, ele não pode, e não poderá jamais, salvo autonegando-se, propor uma arquitetura para a realização da qual seria dispensada a participação dos que, pelo simples trabalho manual e na condição de denominados, constroem os espaços materiais por eles não concebidos. (...) Os arquitetos se autodefinem enquanto agentes do processo produtivo da arquitetura. Profissional que, deixando de lado a retórica e de um ponto de vista pragmático, se caracterizaria então pelo fato de possuir, ao mesmo tempo, as qualificações necessárias à elaboração de projetos de arquitetura, e as aptidões requeridas pelo exercício das atividades de ‘responsável técnico’ do canteiro (BICCA, 1984, p. 72 - 88).
O saber do arquiteto e urbanista, baseando-se nas concepções de Léfèbvre (1978), para as atribuições profissionais correspondentes aos profissionais que atuam no espaço concreto, deve dialogar com os demais saberes, incluindo aos aspectos técnicos, os aspectos da vida cotidiana e do vivido e dos sonhos dos grupos sociais diretamente envolvidos no processo. Este profissional pode ser entendido, também, como o agente cuja função social corresponde ao trabalho predominantemente com idéias, traduzindo para o espaço diversos saberes, o que extrapola o simples ato da concepção e da execução. Interage diretamente com o “cliente”, com o intuito de contribuir com a melhoria de suas condições, sobretudo na sua vida cotidiana e no seu habitat. Nesta concepção, o arquiteto e urbanista pode se tornar um intelectual orgânico, como delineado por Antonio Gramsci (1975), se tiver consciência da própria função, colaborando para a concepção de idéias, com o intuito da transformação social, organizando e agindo de maneira política nesta direção.
Orgânicos são os intelectuais que fazem parte de um organismo vivo e em expansão. Por isso, estão ao mesmo tempo conectados ao mundo do trabalho, às organizações políticas e culturais mais avançadas que o seu grupo social desenvolve para dirigir a sociedade. Ao fazer parte ativa dessa trama, os intelectuais “orgânicos” se interligam a um projeto global de sociedade e a um tipo de Estado capaz de operar a “conformação das massas no nível de produção” material e cultural exigido pela classe no poder. Então, são orgânicos os intelectuais que, além de especialistas na sua profissão, que os vincula profundamente ao modo de produção do seu tempo, elaboram uma concepção ético-política que os habilita a exercer funções culturais, educativas e organizativas para assegurar a hegemonia social e o domínio estatal da classe que representam (Gramsci, 1975, p. 1.518). Conscientes de seus vínculos de classe, manifestam sua atividade intelectual de diversas formas: no trabalho, como técnicos e especialistas dos conhecimentos mais avançados; no interior da sociedade civil, para construir o consenso em torno do projeto da classe que defendem; na sociedade política, para garantir as funções jurídico-administrativas e a manutenção do poder do seu grupo social. (...) Tal intelectual deve ser um “construtor, organizador, educador permanente”, de modo que “da técnica- trabalho se chegue à técnica-ciência, à concepção humanista histórica, sem a qual se permanece ‘especialista’ e não se chega a ‘dirigente’ (especialista + político)” (idem, ibid., p. 1.551) (GRAMSCI, 1975, p. 1.518 apud SEMERARO, 2006, p. 377 - 378).
Assim, diante de tudo o que foi exposto, percebe-se que existem diversos pontos de vistas e possibilidades acerca do significado do arquiteto e urbanista. No nosso entender, no contexto deste trabalho, se aproxima mais dos dois últimos teóricos citados. Desse modo, este profissional deve ser compreendido como aquele que utiliza o seu conhecimento com o intuito da modificar a sociedade, tornando-se mais do que um simples técnico, mas sim um educador e agente transformador da realidade.