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A War of Intercepts

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“VERY IMPORTANT”)

9. A War of Intercepts

Jamaica é um dos bairros informais mais recentes da cidade da Praia, capital de Cabo Verde. É um bairro jovem, situado entre os bairros de Achada Grande Frente e Achada Mato, numa ladeira árida, com pouca vegetação e sujeita a enxurradas e desabamentos de terras, quando chove, representando riscos à vida dos moradores do bairro. Com uma área de cerca de 0,37 Km2, Jamaica situa-se também nas proximidades da antiga instalação do aeroporto da Praia, hoje funcionando como sede do Serviço Nacional de Proteção Civil e do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, (CENSO 2010), esse bairro possuía uma população de 227 habitantes, com tendência para um crescimento rápido, uma vez que, com grande frequência, o bairro é ocupado por novos assentamentos “clandestinos” para reproduzir a linguagem da autarquia local e da mídia cabo-verdiana. Os assentamentos situam-se nas encostas e ribeiras sem as mínimas condições de habitabilidade, quais sejam portas e janelas seguras, cômodos independentes, telhado compatível com o clima quente do arquipélago de Cabo Verde, banheiros sanitários condignos etc..

Grande parte das habitações são construídas com blocos de concreto, lata, plásticos e papelão, sem nenhuma segurança. As habitações no bairro de Jamaica, assim como nos outros bairros da cidade da Praia, não seguem um modelo tradicional africano de construção de habitação que ainda existe no interior das ilhas de Cabo Verde. Atualmente, são modelos de habitação construídas com blocos de concreto, com a sua origem no período colonial. Sendo que, depois da independência as entidades públicas do município da Praia criaram decreto-lei baseado na “política higienista” que proíbe a construção modelo africano de habitações constrídas com pedras e cobertas de palhas na cidade da Praia (ÉVORA, 2009; SEMEDO, 2006).

Perguntamos se esse modelo de construção atual herdado do colonizador e reproduzido pelas entidades públicasno período pós-colonial atende às necessidade e expectativas culturais, históricas e climáticas das pessoas que vivem na cidade da Praia? Esse modelo não seria também uma prática de desafricanização da população que vive na capital cabo-verdiana?

A população do bairro de Jamaica é maioritariamente jovem, composta por pessoas oriundas de diferentes regiões do arquipélago, mormente, interior da Ilha de Santiago, ilhas periféricas como Fogo e Brava e migrantes provenientes de países vizinhos da África continental ocidental, como Senegal e Guiné-Bissau. Pobreza extrema, abandono e ausência de serviços básicos são os marcos visíveis que despertam a sensibilidade de qualquer visitante do bairro. O bairro de Jamaica carecepraticamente de todas a infraestrutura mínima e necessária à sobrevivência dos (as) moradores (as). Pelo que constatamos, a única infraestrutura visível existente no bairro é uma empresa de materiais de construção que se instalou nas imediações desse bairro e que, segundo os nossos entrevistados, emprega alguns moradores. A imagem a seguir ilustra os desafios das condições e das habitações no bairro de Jamaica.

Figura 8 – As condições de algumas habitações no bairro de Jamaica

Fonte: Foto de Rutte Andrade.

A imagem acima, representa os modelos de habitações no bairro e as condições geográficas dos terrenos onde a maioria das casas foram construidas. As casas são construídas com alguns materiais como chapas de bidões que segundo os maradores são encontrdos nas licheiras dos bairros mais próximos como Achada Grande Frente, que é um bairro que comercializa sobretudo materiais de contrução. Os plásticos e papelões são outros materiais utilizados, principalmente pelas familias com menos poder de compra. Ainda, de acordo com

a ilustração, podemos observar também que outras casas são construidadas com blocos de concreto, um modelo de construção herdado do regime colonial e perpetuado pelas entidades públicas municipais. Esse modelo de construção predominantemente em blocos e lajes de concreto representa atualmente o modelo dominante não só na cidade da Praia como em todo o arquipélago de Cabo Verde. Paradoxalmente o Bairro de Jamaica se localiza na encosta e nas proximidade de uma empresa chinesa que fornece serviços de materiais de construçáo sobretudo em alumínio e vidros, consumido pelas empresas de construção civil e pessoas da classe média.

5.1.1 Origem do nome do Jamaica: “Bob Marley morri ma ami n`fika”24

O nome Jamaica foi uma homenagem ao Bob Marley, o ídolo do nosso personagem Titino, hoje conhecido por Rasta, que estão que vamos retomar mais à frente. Como todos os fãs, Rasta conhece toda a biografia do ídolo, as dificuldades iniciais para cantar e gravar as músicas, assim como a sua carreira, marcada por circunstâncias nem sempre bem-sucedidas. Na residência do nosso interlocutor encontram-se vários dos posters com fotos, desenhos e/ou imagens de Bob Marley já na entrada da sua casa que se seguem observando até sua área de serviço (quintal).

Ele nos contou que aos 16 anos de idade passou a usar dredloks por influência do cantor jamaicano. Comprava CDs, e DVs do ídolo, assim como as revistas sobre o cantor, para colecionar e recortar as suas fotografias, para incorporar e ter maior acesso às informações e notícias do seu grande ídolo. Também nos contou muito emocionado sobre o sonho de ser cantor de reggae, tal como Bob Marley. Porém, as dificuldades e vicissitudes da vida não lhe permitiram a realização desse sonho. Fisicamente, o nosso interlocutor apresenta traços fenotípicos do seu idolo Boby Marley, sendo portador de dredlocks e chapéu com símbolos de rastafári. Rasta considera ser um continuador de Bob Marley e seu modo de homenageá-lo foi não apenas incorporando e reproduzindo religiosamenteos seus princípios, como batizando o local que passou a morar, de Jamaica. Mesmo estando Bob Marley morto, ele mantém vivo a sua ideologia como forma de perpetuar seus ensinamentos.

Nas suas palavras: “n´ka ta falta nha txapéu, é símbulu di África e Bob Barley” (“Não deixo o meu chapéu, ele é o símbolo da África e do Bob Marley”). Esta narrativa reflete

através do nosso interlocutor o esforço de preservação dos valores ancestrais africanos, valores de resistência e resignação, notórios em todos os moradores do bairro,considerando o fato de que Bob Marley se ergueu como personalidade que representa negritude e resistência negra . Essa tradição mostra também o carisma e a simbologia que o personagem Rasta representa para os moradores, enquando lider fundador e patriarca do bairro de Jamaica na cidade da Praia em Cabo Verde.

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